Economia Famílias pobres demoram cinco gerações a ser da classe média

Famílias pobres demoram cinco gerações a ser da classe média

A mobilidade social em Portugal está na média dos países da OCDE, mas há pormenores preocupantes. A mobilidade de um português em termos de educação e de profissão é das piores entre as economias avançadas.
Tiago Varzim 15 de junho de 2018 às 10:00
O estatuto económico de um português é "profundamente" transmitido entre gerações. E, por isso, subir no elevador social em Portugal pode ser um desafio. A OCDE estima que uma família nos 10% mais pobres demore cinco gerações até atingir a média de rendimento do país. Ou seja, a chegar à chamada classe média. A mobilidade social em Portugal está ligeiramente acima da média da OCDE, mas os dados preocupantes estão na 'herança' da educação e das profissões. 

"O estatuto económico das pessoas em Portugal é transmitido profundamente entre gerações", conclui a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico no relatório "Elevado Estragado: Como promover a mobilidade social" divulgado esta sexta-feira. Tendo em conta a mobilidade de salários de uma geração para a seguinte, assim como o nível de desigualdade do rendimento em Portugal, estima-se que possa demorar cinco gerações até que uma família no fundo da distribuição de rendimento atinja a média. Na OCDE a média é quatro gerações e meia. 
Estas estimativas baseiam-se na elasticidade dos rendimentos entre pais e filhos ao longo de várias gerações. 

É na mobilidade de salários e de rendimento que Portugal figura melhor entre os países da OCDE, igualando ou superando a média. Contudo, o país compara mal com as outras economias avançadas em termos de educação e na mobilidade de profissões. Este é um padrão que a OCDE identifica nos países do Sul da Europa.

Ou seja, há uma maior mobilidade em termos do dinheiro que as pessoas têm ou recebem. Mas essa mobilidade é reduzida quando se analisa a educação ou as profissões entre gerações.

Aliás, em Portugal, "a mobilidade medida em termos educacionais é a mais baixa entre os países da OCDE", alerta o relatório. Por outras palavras, as probabilidades de uma pessoa ser bem sucedida na sua carreira académica e profissional estão "profundamente" ligadas ao contexto sócio-económico e ao nível de qualificações dos pais. 

O estudo da OCDE conclui que 55% dos filhos dos trabalhadores manuais 'herdam' a profissão dos pais, acima da média de 37%. Além disso, os filhos de gestores têm uma probabilidade de serem também gestores cinco vezes superior aos filhos de trabalhadores manuais, um rácio muito mais elevado que a média da OCDE.

Acresce que, apesar dessa transmissão entre gerações, os receios face aos desenvolvimentos económicos no país leva a maior parte dos pais portugueses (58%) a temer que os seus filhos não consigam ter o estatuto e o conforto que eles tiveram. 

Um inquérito da OCDE mostrava também que muitos portugueses estão pessimistas em relação às oportunidades de melhorar a sua situação financeira: em 2015, apenas uma minoria (17%) esperava que a sua situação financeira melhorasse no próximo ano.

O chão e o tecto "pegajoso"

Uma das conclusões deste estudo da OCDE é que na maior parte dos países que estão na Organização a mobilidade no fundo e no topo da distribuição de rendimento diminuiu. Ou seja, os mais ricos e os mais pobres mantêm cada vez mais o seu estatuto. 

Portugal é exemplo disso. Os 20% mais pobres em Portugal têm pouca oportunidade de mobilidade num período de quatro anos com 67% a manter-se nessa faixa de rendimento. Segundo a OCDE, este "chão pegajoso", ou seja, que prende as pessoas ao seu estatuto de origem, piorou desde os anos 90. O mesmo aconteceu no Canadá, em Itália e na Finlândia.

"A falta de mobilidade no fundo [da escala de rendimentos] em Portugal pode estar relacionado com a nível elevado de desemprego de longa-duração e a segmentação do mercado de trabalho", aponta a OCDE, assinalando que quem consegue um trabalho temporário não tem a segurança suficiente para mudar a sua trajectória social. 

Por outro lado, 69% da faixa dos 20% mais ricos mantêm-se no topo num período de quatro anos. Também o tecto é "pegajoso" em Portugal. 

Os remédios

Tal como já fez no passado, a OCDE elogiou as reformas do mercado de trabalho implementadas pelo anterior Governo. Já para o actual Executivo deixou um aviso. Recentemente, a Organização alertou para o impacto negativo das reversões da lei laboral que possam vir a ser aprovadas no Parlamento. Para a Organização a manobra não deve ser marcha-atrás, mas sim acelerar nas reformas com três objectivos:

  1. Ajudar crianças com contextos desvantajosos, assegurando ensino de boa qualidade na educação pré-primária, melhorando a formação dos professores e fornecendo ajuda aos estudantes que estão em risco de ficar para trás;

  2. Tratar do desemprego de longa-duração através do reforço dos serviços de apoio ao emprego (IEFP, entre outros);

  3. Continuar os esforços para aumentar o nível de qualificações através da aprendizagem de adultos. Por exemplo, deve-se antecipar a necessidade de qualificações a um nível regional e nacional. 



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