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Hans-Paul Bürkner: "As pessoas sempre esticaram os limites", como fez a Volkswagen

Hans-Paul Bürkner, presidente da Boston Consulting Group, fala aqui sobre padrões éticos e concorrência. A propósito do caso Volkswagen, diz que o que foi feito “é indefensável” e "serão castigados por traírem os clientes".

Bruno Simão
Rui Peres Jorge rpjorge@negocios.pt 29 de Outubro de 2015 às 22:00
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Podemos estar a desvalorizar a importância do crescimento sustentado e padrões éticos devido à concorrência. Acha que é um problema?

Não penso que seja.

O crescimento magnífico da China e saída de centenas de milhões de pessoas da pobreza acontece em paralelo com graves problemas ambientais, a uma escala difícil de acreditar. Não deveríamos estar preocupados?

Quando começámos a industrialização no Reino Unido, na França, Bélgica e Alemanha e nos EUA, a poluição era terrível. O ar era muito mau. É claro que na altura não mediamos a poluição.

Antes não tínhamos a tecnologia para o evitar, e agora temos. Ainda assim parte do mundo ignora-a permitindo produção mais barata…

Posso dizer para não conduzir um carro na China ou na Índia porque está a poluir. Mas eu quero conduzir o meu e essa é uma atitude arrogante. Eu vou à China com frequência: sei que o ar em muitas cidades e zonas industriais é muito mau. Os chineses percebem, estão a trabalhar nisso e vão reduzir a poluição. Mas dependem ainda muito de combustíveis fosseis pelo que é difícil.

As minhas camisas ainda vão para lavar e não é porque sejam muito caras.

Há relatos, por exemplo, de despejo de toneladas de produtos tóxicos que permitem produzir painéis solares a metade do preço praticado na Alemanha. A questão não é apenas chinesa, é a forma como está a ser gerida a globalização…

Não quero justificar o despejo de metais tóxicos na terra. Deve haver regras claras, mas também nos levou muitas décadas a chegar lá e os chineses precisarão de alguns anos. Não devemos assumir que devemos impor nos nossos "standards". A camisa que está a vestir é com elevada probabilidade produzida no Bangladesh ou na China. As pessoas na H&M e na Zara estão a comprar as camisas a preços baixos e para as mulheres no Bangladesh  significa trabalho.

Para algumas também significa doenças…

Sim, significa doenças e mortes, mas se deixar pura e simplesmente de comprar camisas deixará sem emprego muitas pessoas.

Hoje em dia no Ocidente, graças a produção barata na Ásia, vendem-se bens mais baratos do que custa repará-los. Há roupa mais barata nova que a limpeza a seco. Isto é equilibrado?

Agora entramos no comportamento dos consumidores. Cada um tem de tomar uma decisão sobre como quer operar neste contexto. As minhas camisas ainda vão para lavar e não é porque sejam muito caras, mas porque é importante conservar recursos. Por outro lado, também precisamos de crescimento significativo nos mercados emergentes. Nos últimos 30 anos centenas de milhares de pessoas saíram da pobreza e estamos agora abaixo de mil milhões de pessoas muito muito pobres. Ainda é demais, mas temos a tendência para pensar que o mundo está em má forma e a ficar pior, o que não é verdade: nos últimos 30 anos observámos uma melhoria significativa.

O escândalo da Volkswagen é um sinal preocupante que a concorrência a nível global pode estar a ir longe demais?

Não quero defender a Volkswagen, o que fizeram é indefensável, serão castigados por traírem os clientes e terá repercussões significativas. Mas a verdade é que sempre se esticaram os limites. Hoje há mais transparência e investigação e por isso que sabemos mais. Não penso que no passado nos tenhamos comportado melhor ou com mais integridade do que agora.

Não penso que no passado nos tenhamos comportado melhor ou com mais integridade do que agora.



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