Angola Isabel dos Santos: “Há uma campanha para atingir a minha reputação”

Isabel dos Santos: “Há uma campanha para atingir a minha reputação”

Isabel dos Santos garante que a Sonangol recebeu os dividendos da Galp a que tinha direito e mostra dois documentos que provam esse facto. Garante que não tem qualquer ligação à Matter Business Solution, a empresa que coordenava os consultores da Galp.
Isabel dos Santos:  “Há uma campanha para atingir a minha reputação”
Miguel Baltazar
Celso Filipe 05 de março de 2018 às 06:00

Isabel dos Santos considera que os ataques à sua gestão da Sonangol visam, em última instância, demonstrar que "as decisões tomadas pelo Executivo anterior", liderado pelo seu pai, José Eduardo dos Santos, "foram erradas".

Porque existe tanta suspeita e controvérsia em relação à sua gestão da Sonangol?
Acredito que neste momento em Angola há uma campanha política bastante forte. Muita desta campanha é promovida pelos partidos da oposição, sem dúvida, que pelo jogo político querem demonstrar, de alguma forma, que as decisões do Executivo anterior foram erradas. Ou seja, há uma vontade de convencer o mundo que as decisões tomadas pelo Executivo anterior, e neste caso concreto, pela comissão interministerial que criou a reestruturação do sector petrolífero, a qual era composta pelos ministros do Petróleo e das Finanças, pelo governador do Banco Nacional de Angola e ministro da Casa Civil, foram erradas. E esta comissão interministerial tinha por dever, segundo um decreto presidencial, a reestruturação do sector petrolífero, para o tornar mais competitivo. Isto foi uma decisão política importante e obviamente é um avaliador do desempenho do Executivo. Ao haver ataques a essa decisão ou ao desempenho que houve da administração, obviamente que são ataques de forças da oposição.

Esperava ser exonerada do cargo pelo actual presidente da República de Angola, João Lourenço?
O nosso mandato inicial era de cinco anos e quando chegámos à Sonangol éramos um grupo de administradores provenientes de diversas empresas. Tínhamos pessoas que vinham de petrolíferas internacionais, por exemplo, um dos nossos administradores tinha sido presidente da Chevron Brasil, tínhamos um administrador que vinha da empresa norte-americana Esso, tínhamos um que vinha da Total. Portanto, tudo pessoas muito profissionais, muito capazes, que trabalhavam no sector há muitos anos com carreira estabelecidas, pessoas acarinhadas nos lugares onde estavam, e que largaram estes lugares com um sentido de missão para irem para a Sonangol. A empresa estava num momento trágico, praticamente falida. Tinha incumprido em 2015 com a banca internacional, tinha grandes dificuldades em fazer pagamentos, desde salários a investimentos, a pagar aos seus fornecedores, e tinha muitas facturas em atraso.

Essa situação trágica, presumo, que que não tivesse exclusivamente a ver com a queda do preço do petróleo. Resultava também de outros factores, ou não?
A empresa era frágil, não tinha um modelo de gestão robusto. O modelo de negócio que tinha sido desenhado não era suficientemente robusto para aguentar uma forte queda de receita. Porque alám da queda do preço do petróleo tinha feito muitos outros investimentos que não eram rentáveis.

Em áreas não "core"?
Em áreas não "core" mas também nas "core", investimentos em blocos petrolíferos que não são rentáveis.

Porque aceitou ser presidente da Sonangol?
Para nós era o espírito de missão. Venho do sector privado, trabalho há mais de duas décadas no sector empresarial, fundei várias empresas, algumas delas bastante bem-sucedidas. Em Angola tenho dezenas de milhares de trabalhadores. Acredito que no ramo privado sou, com certeza, um dos maiores empregadores em Angola, sou uma das pessoas que mais impostos paga e também que mais investe em Angola e sempre acreditei muito no meu país e na economia. Portanto, para nós, era um sentido de missão. Era retribuir e poder contribuir, de alguma forma, para reconstruir uma empresa que é o pilar da economia angolana. E a Sonangol, sendo uma empresa mais robusta e que funcionasse bem, toda a economia angolana só teria a ganhar com isso. Eu, em particular, fui para a Sonangol muito com este espírito de missão.

Qual foi o melhor momento que teve na Sonangol?
O grande momento para nós foi realmente ter percebido, depois do diagnóstico, que a empresa tinha solução. Que ela não haveria de fechar, que poderia ter continuidade, que tínhamos uma solução. A reestruturação da Sonangol, não é a primeira que faço. Já passei por muitos processos, e processos grandes. Aliás, a Efacec também foi um processo de reestruturação. A aquisição do BPN em Portugal que depois se transformou em EuroBic também foi um processo de reestruturação. E os problemas e os temas são os mesmos. Primeiro as pessoas. É pensar na força de trabalho e em como manter aqueles empregos, assegurar que a empresa continua. Na Sonangol, quando encontrámos uma solução, a começámos a implementar e ela demonstrou ter resultados de sucesso, esse foi um excelente dia. E hoje isso confirma-se com os resultados de 2017.

Que são 254 milhões de lucros. Atribuíveis à sua gestão?
Nós ficámos até 15 de Novembro de 2017. Ou seja, faltavam 45 dias para acabar o ano. Por isso sim, são imputáveis à nossa gestão.

E o pior momento na Sonangol?
Foi possivelmente quando sentíamos que não podíamos fazer mais rápido. Queríamos ter mudado mais coisas, levar a empresa um pouco mais longe, ser um pouco mais forte, mais competitiva. E quando percebemos que já não nos caberia a nós fazer isso, não foi um momento fácil. Mas faz parte.

Faz sentido a Sonangol ser um grupo com actividades em áreas tão diversas como a hotelaria, aviação e telecomunicações, ou devia apenas centrar-se no seu core business?
A Sonangol devia focar-se no seu "core business", é o seu DNA, é onde ela é forte e onde Angola tem os melhores recursos. É muito difícil fazer-se mais dinheiro do que no petróleo. E uma empresa de petróleos bem gerida e que opera bem geralmente é muito lucrativa e pode ser um campeão africano e não só. A Sonangol tem tudo para ser um operador internacional de referência.

E acha que está em condições de o ser com a actual gestão?
Os desafios ainda são elevados. Há um caminho a fazer e ainda demorará alguns anos. A minha expectativa, quando assisti à conferência de imprensa, era de ver a visão do actual conselho de administração e isso não foi demonstrado. Não vi essa visão. Espero que ainda possam vir a público mostrar o que interessa, que é a visão para Sonangol e de que forma a irão tornar mais forte, mais robusta, com maior rendimento para o Estado e para o país. Isso ainda não foi demonstrado.




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