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Itália agita-se com crise política aberta e confronto com Bruxelas

O reagravar da tensão na sempre difícil convivência entre os aliados no governo Liga e 5 Estrelas levou o primeiro-ministro a anunciar uma conferência de imprensa para falar do futuro da governação. A Comissão Europeia revela quarta-feira se abre um procedimento por défices excessivos a Itália.

Reuters
David Santiago dsantiago@negocios.pt 03 de Junho de 2019 às 11:38
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Itália atravessa um conjunto de crises que, no limite, podem deixar o país sem primeiro-ministro (ou mesmo sem governo) e sob o "braço armado" de Bruxelas.

O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, marcou para as 17:15 da tarde (hora de Lisboa) desta segunda-feira, 3 de junho, uma conferência de imprensa porque tem "coisas importantes a dizer" a todos os italianos.

A imprensa transalpina adianta que Conte vai pressionar os dois partidos que integram a coligação de governo, podendo mesmo ameaçar demitir-se se Liga e 5 Estrelas não colocarem de parte as diferenças e decidirem trabalhar em conjunto para o bem de Itália.

Ou seja, Conte contempla demitir-se mas deverá privilegiar, inicialmente, forçar a Liga e o 5 Estrelas a estabelecerem um pacto e, nesse sentido, quer que o encontro do governo previsto para sexta-feira permita um realinhamento de posições que garante uma espécie de novo pacto para a legislatura.

Especulações à parte, certo é que Conte vai falar ao país no momento mais delicado no ano de governação já executado pela contranatura aliança Liga-5 Estrelas e numa fase em que tudo aponta para um novo braço de ferro entre Roma e a Comissão Europeia.

No entender de Giuseppe Conte, a sempre litigiosa relação entre os partidos dos vice-primeiros-ministros Matteo Salvini e Luigi Di Maio está a impedir o governo transalpino de governar e tomar decisões relevantes. Uma eventual demissão de Conte seria um duro golpe para a coligação governativa que há um ano sentiu dificuldades para encontrar um nome independente capaz de agradar aos dois partidos anti-sistema e populistas e disponível para liderar um executivo de características pouco habituais.

Num fim de semana também marcado pelo abalroamento de um barco turístico por um cruzeiro, num cais de Veneza, a celebração do Dia da República, neste domingo, provocou novas fissuras na já débil aliança Salvini-Di Maio.

Durante as comemorações do feriado nacional, o líder da câmara baixa do parlamento italiano, Roberto Fico, membro do 5 Estrelas, disse tratar-se de uma festa de "todos os italianos" e também de "todos quantos se encontram" em Itália, incluindo "migrantes e ciganos".

Esta declaração foi vista como uma afronta a Salvini, que é também ministro do Interior e que mantém um discurso anti-imigração com o qual, nas últimas eleições europeias, levou a Liga a afirmar-se como maior partido italiano.

Na resposta, o agora ultranacionalista Salvini dedicou a festa nacional a "Itália e aos italianos" e criticou Fico para depois, já num comício, pôr em causa a continuidade do governo: "Se me derem a mão as coisas vão em frente como o comboio, se alguém quer litigar voltamos a vocês (eleitores) para nos dizerem o que querem, porque não temos tempo a perder".

O líder do 5 Estrelas, Di Maio, que apesar do mau resultado nas europeias, em que o 5 Estrelas passou de maior partido (legislativas de março de 2018) a terceira força, atrás do PD (centro-esquerda), que superou com larga maioria a moção de confiança interna a que se submeteu, mostrou-se "muito enervado" com esta atitude.

"É inaceitável instrumentalizar o feriado de 2 de junho num momento tão delicado. Eu nunca teria dito aquela frase", atirou Di Maio sobre a provocação feita pelo seu companheiro de partido a Salvini. De acordo com o Corriere della Sera, Di Maio considera que Fico procura "visibilidade" e está a "fazer tudo" para derrubar o governo.

É que após ter superado os 30% na eleição de 26 de maio, Matteo Salvini não desdenha um cenário de regresso às urnas que, tudo indica, reforçaria a votação da Liga e poderia inclusivamente permitir-lhe formar um governo de aliança à direita, desde logo com a populista Giorgia Meloni (líder do Irmãos de Itália).

"Salvini está diante de uma árvore carregada de fruta, por que motivo não deverá apanhá-las", sustenta uma fonte anónima da Liga citada pelo Corriere della Sera. Desde as europeias, Salvini ganhou margem de manobra e atua cada vez mais como se fosse ele o primeiro-ministro, isto apesar de contar com apenas metade dos deputados do 5 Estrelas.

A comunicação social italiana nota que apesar das condições em que assumiu a chefia do governo já apontarem para a possível instrumentalização por parte dos dois números dois do governo (Salvini e Di Maio), Giuseppe Conte considera que o crescente protagonismo de Salvini impossibilita uma efetiva coordenação do executivo.

À espera da resposta de Bruxelas

A instabilidade no seio do governo italiano acontece em plena crise económica do país (o instituto oficial de estatísticas confirmou que o PIB de Itália avançou apenas 0,1% no primeiro trimestre) e com uma nova confrontação com Bruxelas no horizonte.

É já na quarta-feira, 5 de junho, que a Comissão Europeia dará reposta à carta recebida, sexta-feira passada, das autoridades transalpinas. É real a possibilidade de o órgão executivo da União Europeia abrir um procedimento por défices excessivos a Itália devido ao incumprimento das regras previstas no Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC).

Ante a perspetiva de novo embate com a UE, Di Maio abandonou a retórica mais pró-europeia utilizada durante a campanha para as europeias, porém continua a ser Salvini quem lidera o discurso de oposição contra Bruxelas.

Na resposta à exigência de explicações para o facto de a dívida pública ter continuado a crescer em 2018 em vez de cair, o ministro italiano das Finanças, Giovanni Tria, salientou três pontos: em 2018 o saldo estrutural não piorou face à meta acordada; em 2019 o défice ficará abaixo dos 2,4%; a redução da dívida em 2020 e 2021 continua a ser um objetivo concretizável.

Quase um ano depois da escalada nos juros que marcou o início da governação da Liga e do 5 Estrelas, que então prometiam afrontar Bruxelas e as respetivas regras, na semana passada os juros da dívida pública transalpina voltaram a agravar-se, sendo que no prazo a 5 anos superaram mesmo a "yield" associada às obrigações soberanas das Grécia. Esta segunda-feira, os juros de Itália sobem pela terceira sessão devido aos receios dos mercados quanto a potenciais crises de governo e na relação com a União. 

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