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Johnson acredita em acordo com UE, exclui adiar o Brexit e desafia Corbyn

De regresso ao Reino Unido, e ao parlamento, o primeiro-ministro britânico disse ainda acreditar num novo acordo de saída da UE e voltou a excluir um novo adiamento da data prevista para o Brexit. Boris Johnson desafiou a oposição a apresentar uma moção de censura, já que esta receia devolver a palavra ao povo em eleições gerais.

Reuters
David Santiago dsantiago@negocios.pt 25 de Setembro de 2019 às 18:56
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Se alguém pensou que a derrota imposta ao primeiro-ministro do Reino Unido pelo Supremo Tribunal o faria jogar à defesa no regresso dos trabalhos parlamentares desta quarta-feira, enganou-se redondamente.

Boris Johnson chegou "com tudo" à Câmara dos Comuns e com uma carta na manga: sabendo que a oposição, nomeadamente o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn, não quer eleições antecipadas no imediato, desafiou o conjunto dos partidos que se opõem ao governo minoritário dos "tories" a apresentarem uma moção de censura contra si até ao final da sessão parlamentar desta quarta-feira para que a votação possa realizar-se "já amanhã".

O desafio lançado pelo primeiro-ministro dirigia-se sobretudo aos liberais (LibDem) e aos nacionalistas escoceses (SNP) dado que, ironizou Johnson, os trabalhistas "recusam" deitar abaixo o governo do Partido Conservador. 

No dia em que regressou a solo britânico depois de ter marcado presença na cimeira climática da ONU, a intervenção do líder dos "tories" voltou a assentar na ideia de que está comprometido em cumprir o mandato resultante do referendo popular e concretizar a saída da União Europeia na data prevista, sem novos adiamentos: "quero o Brexit feito, com um novo acordo [de saída], se possível, mas sem nenhum, se necessário".

Contrariando a convicção crescente e generalizada de que é escassa a margem para fechar, com os líderes europeus, um novo acordo de saída, Johnson disse ainda acreditar e estar "confiante" de que é possível alcançar um compromisso com Bruxelas até 17 de outubro.

Todavia, se tal não for possível, assegura que não haverá um terceiro adiamento da data oficial para o divórcio, pelo que o Reino Unido sairia da União Europeia a 31 de outubro, sem um tratado jurídico que enquadre legalmente os termos do divórcio e uma declaração política preparatória da relação futura entre os dois blocos. 

Boris Johnson acusa os deputados que não apoiam o rumo pretendido pelo governo para o Brexit de não respeitarem a vontade popular e de, "na verdade", não quererem que o Brexit aconteça de forma alguma. "As pessoas percebem perfeitamente o que está a acontecer", sustentou sublinhando que aquilo que o parlamento pretende passa por "continuar a adiar e sabotar" a saída do bloco europeu que, em 2016, recebeu mais votos do que "qualquer partido em toda a história" da democracia britânica. 

Corbyn aceita eleições se Johnson adiar o Brexit
Um dia depois de, no congresso do "labour", ter pedido a demissão do primeiro-ministro e o agendamento de eleições antecipadas logo que o governo aceite adiar novamente a saída do bloco europeu para impedir um Brexit desordenado, Jeremy Corbyn reagiu ao desafio de Boris Johnson notando que ambos querem a mesma coisa, embora com pressupostos distintos. Isto porque, defende, Boris Johnson quer eleições de forma a tornar possível consumar o Brexit na data prevista, com ou sem acordo.  

"Se ele (Johnson) quer eleições, então que garanta o adiamento [do Brexit] e vamos a eleições", atirou o secretário-geral trabalhista e líder da oposição para quem a decisão ontem anunciada pelo Supremo - considerou ilegal a suspensão dos trabalhos parlamentares sugerida por Johnson à rainha - mostra que o primeiro-ministro tem de ser "honrado e demitir-se". Antes, Boris Johnson tinha defendido que Corbyn pede eleições antecipadas há dois anos e por duas vezes votou, no parlamento, contra essa possibilidade - "têm medo de quê?", questionou.

E dirigindo-se ao conjunto da oposição, Boris Johnson acusou-a de querer realizar um segundo referendo à permanência na UE sob uma premissa falsa: "desta vez vamos mesmo respeitar o resultado". "Isso é uma fantasia ainda maior do que as fantasias comunistas do líder da oposição", disse, classificando a oposição de "cobarde" por querer devolver a palavra aos britânicos para depois "fugir" de eleições. 

"Este parlamento está encurralado, paralisado e recusa-se a cumprir uma das prioridades do povo", acrescentou, prometendo que o seu governo "não trairá o povo". Esta foi uma constante do discurso do primeiro-ministro: atribui a si e ao seu governo pró-Brexit o papel de voz do povo, enquanto à oposição confere a intenção de contrariar a vontade dos britânicos.

Com a oposição nada inclinada para a realização próxima de eleições - teme que isso propiciasse um Brexit sem acordo - e dado que não há uma maioria na Câmara dos Comuns para aprovar a precipitação de novo ato eleitoral - é à minoritária ala "hard brexiteer" dos "tories" que mais interessa eleições antecipadas - é improvável que os britânicos regressem às urnas nas próximas semanas. 

Assim sendo, o moroso e conturbado processo do Brexit deverá ter de ser resolvido pelo atual parlamento, altamente dividido entre quem defende a permanência na UE, quem prefere uma saída com acordo e aqueles que apostam tudo numa saída "à bruta", sendo que entre estes há divisões entre os deputados que defendem um novo referendo e aqueles que o recusam. 

Não espantou, portanto, a enorme agitação num debate tumultuoso marcado por inúmeras interrupções que levaram o ainda presidente da câmara baixa, John Bercow, a ameaçar prolongar (não o Brexit, mas o debate) noite dentro até que fosse possível ouvir as declarações dos deputados. 

Se até 19 de outubro (dia seguinte ao Conselho Europeu) Londres não tiver alcançado um acordo de saída com a UE, uma lei aprovada no parlamento ("Benn Act", que Johnson hoje apelidou de "lei da rendição") determina que o governo é obrigado a requerer junto de Bruxelas um novo adiamento do Brexit para impedir uma saída desordenada. 

(Notícia atualizada pela última vez às 19:45)
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