Europa Katainen nega lóbi do "amigo" Barroso e diz que só "beberam uma cerveja"

Katainen nega lóbi do "amigo" Barroso e diz que só "beberam uma cerveja"

O vice-presidente da Comissão Europeia, Jyrki Katainen, iliba o "amigo" Durão Barroso e diz que este não fez lóbi.
Katainen nega lóbi do "amigo" Barroso e diz que só "beberam uma cerveja"
Reuters

Durão Barroso regressou hoje às notícias depois de ter sido acusado de ter quebrado a promessa de não fazer lóbi junto da Comissão Europeia. A polémica ficou a dever-se a documentos que mostram que teve um encontro com o vice-presidente da Comissão Europeia, Jyrki Katainen.

 

Contudo, de acordo com Katainen, o encontro está a ser "mal percepcionado". Em entrevista ao EUobserver, o finlandês diz que é amigo do actual presidente não-executivo e consultor do Goldman Sachs International e que se alguém fez lóbi, foi ele próprio sobre o antigo presidente da Comissão Europeia.

 

"Eu era primeiro-ministro quando ele era presidente da Comissão Europeia. Ficamos próximos", explica Katainen, recordando que queria ligar a Barroso para marcar um encontro. "Ele quase que leu os meus pensamentos e mandou-me uma mensagem" a perguntar se estava em Bruxelas e queria beber um café. "Eu propus que bebêssemos uma cerveja", afirmou o finlandês, acrescentando que "se alguém fez lóbi, fui eu. Falei-lhe das nossas agendas ambiciosas no comércio e na defesa".

 

O encontro entre Barroso e Katanien ocorreu no Silken Berlaymont Hotel em Bruxelas, a 25 de Outubro de 2017, perto do escritório do actual vice-presidente da Comissão Europeia.

 

"Somos amigos. Conhecemo-nos de há muitos anos. Encontro-me sempre com os meus amigos, onde quer que eles estejam", acrescentou Katainen ao EUobserver.

 

Katanien defende Barroso neste processo, depois de nos documentos escritos sobre o encontro não ter precisado o teor do que foi falado. "Normalmente não tiro notas nas reuniões e também não o fiz nesta reunião", argumentou o finlandês numa carta com a data de 31 de Janeiro de 2018, enviada pelo alto responsável europeu a uma activista da organização Corporate Europe Observatory, que trabalha precisamente as questões do lóbi.

Somos amigos. Conhecemo-nos de há muitos anos. Encontro-me sempre com os meus amigos, onde quer que eles estejam Jyrki Katainen

"Quando bebo uma cerveja com amigos não tiro notas"


Na entrevista ao EUObserver, Katanien explica porque não tirou notas do encontro. "Quando bebo uma cerveja em privado com amigos, não tiro notas do que os meus amigos me dizem. Mas se alguém me está a fazer lóbi, então claro que alguém no meu gabinete vai tirar notas", referiu.   

Ainda assim, o vice da Comissão Europeia entende a polémica e que seja difícil perceber como Katanien faz a distinção entre o Barroso amigo e o Barroso potencial "lobista".

"Percebo isso. Por outro lado, quer dizer que nunca posso ter um encontro com uma pessoa que considero minha amiga, o que também não está correcto. Se ele me quisesse influenciar em qualquer assunto, é melhor que o faça de forma oficial", acrescentou.

 
Goldman diz que Barroso não estava a representar o banco

O Goldman Sachs também já reagiu às notícias sobre este encontro, afirmando numa nota enviada à imprensa que Durão Barroso não estava em representação do banco nesse dia em que se encontrou com Katanien.

"Como chairman da Goldman Sachs International, José Manuel Barroso representa a nossa firma e os nossos clientes, figuras públicas e 'stakeholders' importantes. Desde que está connosco sempre se recusou a representar a firma nas interacções com responsáveis da União Europeia", refere a nota.

Barroso prometeu não fazer lóbi

 

Foi em Julho de 2016, pouco mais de um ano depois de ter deixado o cargo de presidente da Comissão Europeia, que ocupou durante mais de uma década, que Durão Barroso regressou ao sector privado, ao ingressar como administrador não executivo e consultor num dos bancos mais influentes do mundo e que tem nos seus quadros vários ex-políticos.

 

Enquanto o Goldman Sachs justificava que o novo quadro iria trazer "imensos conhecimentos e experiência, incluindo uma compreensão profunda da Europa", as críticas foram muitas, imediatas e provenientes de vários quadrantes. Do Governo francês, que considerou "escandaloso" este movimento, ao influente Observatório Europeu Corporativo que acusou o português de "falha de integridade". "Não fui para nenhum cartel da droga, estou a trabalhar numa entidade legal", defendeu-se mais tarde Durão Barroso.

 

Após muita discussão em Bruxelas, que se arrastou durante meses, o comité de ética ad-hoc da Comissão Europeia acabou por concluir que esta contratação não violou os deveres de integridade e discrição pedidos aos antigos membros da Comissão. Ainda assim, este órgão censurou Durão porque "não demonstrou o discernimento que se pode esperar de alguém que ocupou o cargo que ele ocupou durante tantos anos".

 

Ora, face a estes novos dados e lembrando que essa permissão dada pelo comité de ética foi "baseada na promessa do Sr. Barroso de não fazer lóbi", a Alter-EU, um grupo que junta várias organizações não-governamentais, já veio reclamar que "essa opinião deve ser considerada nula" e que as actividades do ex-líder da Comissão Europeia em nome do Goldman Sachs "devem ser revistas" agora por um comité de ética independente.

 

Numa missiva dirigida ao secretário-geral Alexander Italianer esta terça-feira, 20 de Fevereiro, os membros da Alter-EU anunciaram também que "à luz da contratação controversa" por parte do Goldman Sachs International e das instruções de Juncker sobre como lidar com lobistas – além das declarações públicas de que Durão Barroso deveria ser tratado como qualquer outro lobista – vão "apresentar formalmente uma queixa por má administração".

 

Recorde-se que na sequência da vaga de indignação motivada pela ida do seu antecessor para o banco de investimento, Juncker avançou para uma mudança no código de conduta da instituição no sentido de aplicar regras mais estritas, como a de aumentar de 18 meses para três anos o período de ‘nojo’ durante o qual o presidente do órgão executivo da União Europeia tem de pedir permissão ao ex-empregador para trabalhar num grupo privado.

(notícia actualizada pela última vez às 18:50)




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