Europa Legislativas na Polónia podem ditar perdas mais elevadas para BCP e Jerónimo Martins

Legislativas na Polónia podem ditar perdas mais elevadas para BCP e Jerónimo Martins

A dois meses das eleições de 25 de Outubro, as sondagens apontam para a possibilidade de o maior partido da oposição, o eurocéptico Lei e Justiça, poder vencer com a primeira maioria da história democrática. Certo é que as propostas dos dois principais partidos implicarão perdas para o sector financeiro e do retalho, onde BCP e Jerónimo Martins detêm importantes posições.
Legislativas na Polónia podem ditar perdas mais elevadas para BCP e Jerónimo Martins
David Santiago 19 de agosto de 2015 às 16:29

As eleições legislativas que vão decorrer na Polónia a 25 de Outubro podem determinar, segundo confirmam as sondagens mais recentes, a primeira maioria absoluta parlamentar de um só partido desde a queda da cortina de ferro e implosão soviética. Na sondagem do TNS Polska, conhecida na última terça-feira, o Lei e Justiça (PiS), actualmente o maior partido da oposição e liderado por Jaroslaw Kaczynski, lidera as intenções de voto com 41% das preferências, bem acima dos 22% alcançados pela Plataforma Cívica (PO) da actual primeira-ministra do país, Exa Kopacz.

 

O crescimento do apoio popular ao Lei e Justiça apresenta-se como uma clara tendência sublimada pela vitória, em Maio último, de Andrzej Duda nas eleições presidenciais. Duda, canditato do PiS, venceu o candidato independente apoiado pela PO, Bronislaw Komorowski, que assumira a presidência polaca em 2010 na sequência da morte, num acidente de aviação, do então presidente conservador Lech Kaczynski.

 

Lech e o seu irmão gémeo Jaroslaw Kacynski, ex-primeiro-ministro do país e actual apoiante de Duda, ambos do PiS, que fundaram em 2001, ocuparam entre 2005 e 2007 a chefia do governo e a presidência do país instituindo um regime político que visava a "purificação da Polónia".

 

Ora, é precisamente este partido de direita conservadora, nacionalista, eurocéptico e crítico da moeda única, que surge como grande favorito à vitória em Outubro. Em Maio, Duda venceu as presidenciais adoptando, precisamente, um discurso fortemente nacionalista e apostando na crítica ao euro e colocando em causa a adesão á moeda única europeia, o que deixa subentendido que se o Lei e Justiça vencer as legislativas, a Polónia poderá mesmo abandonar a pretensão de aderir à divisa europeia. Durante a campanha, o agora presidente da Polónia (tomou posse a 5 de Agosto) defendeu também a diminuição de impostos.

 

Valorização do franco suíço é factor decisivo na campanha

 

No início deste ano, o banco central da Suíça decidiu, de forma surpreendente, extinguir um mínimo para a taxa de câmbio do franco suíço relativamente ao euro, o que levou a uma imediata e acentuada valorização da divisa suíça face a moedas como o euro e o dólar.

 

Esta decisão teve um impacto directo em vários países europeus que não pertencem à Zona Euro e onde o sistema financeiro não detém grande dimensão, é pouco competitivo e é, tendencialmente, dominado por bancos estrangeiros. É o caso da Polónia, onde os bancos estrangeiros, para evitar as flutuações e a volatilidade da moeda polaca (zlotys) acabaram por indexar os créditos à habitação ao franco suíço, país onde as taxas de juro são historicamente baixas. Tendência agravada pela bolha imobiliária de 2005-2007 que colocou os custos com os créditos à habitação em dois dígitos na Europa de Leste.

 

Todavia, a forte apreciação do franco suíço que se seguiu ao fim da ligação ao euro determinou que os encargos relativos aos empréstimos à habitação disparassem. Logo em Janeiro, o Lei e Justiça exigia que o governo polaco congelasse a taxa de câmbio dos empréstimos indexados ao franco suíço à taxa em vigor a 14 desse mês, na véspera da referida decisão da autoridade monetária da confederação helvética.

 

Entretanto, com o clima de pré-campanha eleitoral a aquecer, o Executivo polaco apresentou um projecto de lei, entretanto já aprovado na câmara baixa do parlamento, que tem como objectivo distribuir o esforço acrescido pela elevada valorização do franco suíço pelas famílias e pelos bancos. Só que a proposta, que terá ainda de ser aprovada pela câmara alta do parlamento e depois promulgada pelo presidente da República, atira grande parte da factura para os bancos.

 

Segundo a agência Bloomberg, a proposta apresentada pela equipa liderada por Exa Kopacz abrange 47% dos empréstimos indexados ao franco suíço (cerca de 90% do total de empréstimos indexados à divisa suíça são relativos a créditos à habitação), o que representará um custo aproximado de 21 mil milhões de zlotys a suportar pela banca.

 

No entanto, o presidente Duda, que poderá não promulgar o projecto de lei numa lógica eleitoral que favoreceria o seu partido (PiS), defende que sejam abrangidos todos os empréstimos que tenham sido concedidos mediante a indexação ao franco suíço, o que elevaria a factura a pagar pela banca com presença na Polónia para cerca de 64 mil milhões de zlotys, segundo analistas citados pela Reuters. Henryk Kowalczyk, deputado do Lei e Justiça, já anunciou que o seu partido irá mesmo apresentar uma contraproposta até ao final deste ano, garantindo que o objectivo passa por encontrar "uma solução sistemática que cubra todos os mutuários", acusando ainda a proposta governamental de "não resolver o problema".

 

O projecto de lei apresentado pelo governo polaco refere-se somente a créditos relativos a habitações mais modestas: apartamentos e vivendas com dimensões não superiores a 100 e 150 metros quadrados, respectivamente.

Eleições podem determinar perdas ainda maiores para BCP e Jerónimo Martins 

Com um ambiente de pré-campanha que se arrasta já desde o início deste ano, o Lei e Justiça já anunciou pretender aumentar os impostos sobre as grandes empresas, nomeadamente aos sectores da banca e do retalho, altamente dominados por grupos estrangeiros que viram a sua entrada no país facilitada pela adesão da Polónia ao espaço comunitário. Esta promessa visa explorar o descontentamento dos eleitores face à Plataforma Cívica, um partido mais moderado e que se caracteriza por ser uma força política favorável e zeladora da importância do investimento privado

 

E apesar de defender, genericamente, a diminuição de impostos, o Lei e Justiça quer aumentar a despesa pública, medida a ser compensada pelo já apontado aumento de impostos sobre o sector financeiro e do retalho. Na Polónia, cerca de dois terços dos bancos e grande parte dos supermercados são de propriedade estrangeira.

 

Desde logo, as perspectivas políticas na Polónia fazem antever que o BCP, através do Bank Millenium, e o grupo Jerónimo Martins, dono da Biedronka, deverão ter de enfrentar perdas e, ou, encargos significativos no mercado polaco. Tendo em conta que a unidade polaca do banco liderado por Nuno Amado detém cerca de 13% do mercado hipotecário, a medida proposta pelo governo polaco poderia implicar um custo de cerca de 325 milhões de euros ao BCP, que arriscaria ficar durante três anos sem receber qualquer contribuição do Bank Millenium. 


Já a "holding" dona dos supermercados Pingo Doce também seria fortemente afectada por um novo imposto sobre o sector do retalho. Ainda na última segunda-feira, a Jerónimo Martins negociou, na bolsa nacional, em máximos de Janeiro de 2014 depois de o Morgan Stanley ter salientado o que a cotada tem potencial de subida, acreditando que haverá uma recuperação de receitas e de lucros no mercado polaco, através da Biedronka
 

Nuno Amado e Pedro Soares dos Santos não deixarão, certamente, de estar entre os mais atentos ao desenrolar da campanha eleitoral na Polónia. Até porque seja qual for o vencedor, antecipa-se que o mercado polaco tornar-se-á menos apetecível para o investimento estrangeiro. Também a União Europeia deverá continuar atenta à ebulição política polaca, antevendo-se uma alteração de atitude de Varsóvia face a Bruxelas. 




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