Empresas Milhares de investidores de olhos postos em Omaha à espera do "oráculo"

Milhares de investidores de olhos postos em Omaha à espera do "oráculo"

É já este sábado, 24 de Fevereiro, que o investidor Warren Buffett cumpre uma tradição que iniciou há mais de cinco décadas e que atrai milhares de pessoas: a divulgação da carta anual aos accionistas do seu conglomerado, a Berkshire Hathaway.
Milhares de investidores de olhos postos em Omaha à espera do "oráculo"
reuters, bloomberg
Carla Pedro 24 de fevereiro de 2018 às 11:00

A norte-americana Berkshire Hathaway divulga hoje o seu relatório anual, com os resultados financeiros de 2017. Será também tornada pública a carta aos accionistas, escrita pelo seu CEO, Warren Buffett, ficando disponível no website da empresa.

 

Desde 1965 que Buffett escreve uma carta anual aos accionistas da Berkshire, onde apresenta as suas perspectivas aos investidores. Na data de apresentação dos resultados anuais, a carta é também divulgada, o que faz deste dia um grande evento.

 

A "acção" decorre em Omaha, no Estado norte-americano do Nebraska, que é onde fica a sede da Berkshire e onde Buffett vive. O seu historial de ganhos nos investimentos, que fizeram dele um multimilionário, levou a que ganhasse a alcunha de "Oráculo de Omaha".

 

Logo pelas 08:00 da manhã (14:00 em Lisboa) será apresentada a carta do CEO da Berkshire Hathaway aos seus accionistas. E não se trata de uma carta qualquer. É um documento exaustivo e cheio de ensinamentos, pelo qual os accionistas aspiram durante 12 meses.

 

A visão e os conhecimentos de Warren Buffett, actualmente com 87 anos, tornaram-se de tal forma importantes que o fim-de-semana de apresentação da carta e das contas da empresa – evento conhecido como "Woodstock para Capitalistas" transforma-se numa autêntica romaria, a ponto de as companhias aéreas chegarem mesmo a quadruplicar os preços dos bilhetes de avião para aquela localidade.  

 

Este ano, segundo a Reuters, Buffett deverá renovar, nesta carta, o seu optimismo relativamente aos Estados Unidos, numa altura em que o crescimento económico segue de vento em popa e em que as bolsas em Wall Street negoceiam perto dos seus máximos históricos.

 

Buffett também falou entusiasticamente sobre os EUA, na carta de 2017, tendo elogiado o "dinamismo económico" do país e as suas conquistas "miraculosas" ao longo dos seus 240 anos de História.

 

Em 2016, recorda a Reuters, o investidor chamou aos recém-nascidos no país "a colheita mais sortuda na História" dos EUA. E em 2015 criticou os "profetas do pessimismo" que "dissertam incessantemente sobre os problemas da América".

 

Mas o Oráculo de Omaha debruça-se também, nesta carta anual, sobre o desempenho da Berkshire, sendo igualmente seu hábito falar um pouco sobre a gestão de activos e dar dicas de investimento.

 

Na carta do ano passado, o Oráculo de Omaha deixou um conselho simples aos investidores: comprar um fundo de índice (ETF) simples e barato para evitar os produtos com "comissões que nunca dormem" e que pouco rendem. No seu entender, investir num ETF que replique o desempenho do S&P 500 é uma boa aposta.

 

Este ano, um dos temas que se crê que Buffett abordará será o da criação de uma empresa da área da saúde, criada pela Berkshire, Amazon e JPMorgan Chase, que visa combater os enormes custos deste sector – que Buffett considera serem uma "bicha solitária" da economia.

 

No website da empresa, recorde-se, estão disponíveis todas as cartas aos accionistas desde 1977.

 

Quanto aos resultados de 2017, estima-se que a Berkshire reporte um forte aumento do seu valor contabilístico, um indicador que é considerado chave para o crescimento do conglomerado.

 

Vai haver abordagem à sucessão?

 

Há também quem espere que Warren Buffett, o homem que gosta de pipocas, de Coca-Cola com sabor a cereja e de jogar bridge com Bill Gates, aborde o tema da sucessão. Há relatos de que os executivos Gregory Abel e Ajit Jain, que foram nomeados em Janeiro para a vice-presidência do conselho de administração da Berkshire, possam estar na linha da frente como prováveis sucessores de Buffett, como sublinha a CNBC.

 

Quando Buffett – que diz ser capaz de comer sandes de presunto durante 50 dias seguidos – promoveu estes dois executivos de longa data da Berkshire, descreveu as nomeações como "parte de um movimento rumo à sucessão", referem a Bloomberg e a The Street.

 

Jain, com 66 anos, ficou com a supervisão das operações na área dos seguros, ao passo que Abel, com 55, está responsável por todas as outras subsidiárias do império Berkshire Hathaway, que conta com mais de 90 empresas.

 

Buffett, que é também o maior accionista da Berkshire, tem referido muitas vezes que a próxima geração de líderes da empresa deverá repartir as suas incumbências entre um CEO, vários gestores de investimento e o seu filho Howard, um agricultor e filantropo que tem assento na administração da companhia desde 1993 e que é o guardião do património da empresa. Howard é o filho do meio dos três filhos de Warren.

 

O seu sucessor na presidência executiva da Berkshire está já identificado desde 2009, conforme anunciou em Março de 2012 na célebre carta aos seus accionistas. No entanto, Buffett continua sem dizer o seu nome. Mas já disse que será alguém com experiência na gestão de uma grande empresa, não um investidor".

 

Será anunciada uma distribuição de dividendos?

 

Um outro tema que talvez veja a luz do dia diz respeito à remuneração accionista. A Berkshire tem liquidez de cerca de 100 mil milhões de dólares e durante toda a presidência de Buffett nunca foram distribuídos dividendos. Por isso, o mercado tem-se questionado sobre se isso só acontecerá numa era pós-Buffett ou se poderá haver já alguma surpresa preparada nesse sentido.

 

A Berkshire tem uma capitalização bolsista de 499 mil milhões de dólares e o desempenho das suas acções tem continuado a agradar aos accionistas. No ano passado, as acções de classe A subiram 19% e as de classe B valorizaram 22,5%.

 

Os investimentos recentes

 

Entre as muitas empresas nas quais Buffett detém posições estão a Kraft Food Heinz, American Express, Wells Fargo, Coca-Cola, IBM, Wall Mart Stores, General Electric, General Motors, Procter & Gamble, Johnson & Johnson, Costco Wholesale, Exxon Mobil, ConocoPhillips, Verizon Communications, NetJets, Bank of New York Mellon, Goldman Sachs, Mastercard, U.S. Bancorp, M&T Bank Corporation e Visa.

 

Já se passaram mais de dois anos desde a última grande aquisição da Berkshire, a Precision Castparts, conforme salienta a Reuters.

 

No ano passado, reforçou a sua participação na Apple, onde conta com uma posição accionista avaliada em 28 mil milhões de dólares.

Buffett, o guru da bolsa

Warren Buffett construiu a Berkshire Hathaway ao longo de várias décadas, a partir de uma fabricante têxtil que tinha entrado em processo de falência, transformando-a numa poderosa empresa com uma enorme diversificação das áreas de negócio, desde os seguros à energia, passando pelos bens de consumo e pelo fabrico de doçaria.

 

O multimilionário alcançou estes resultados através de uma filosofia de gestão que se focaliza na importância dos resultados financeiros trimestrais e que dá autonomia aos directores das mais de 90 subsidiárias da Berkshire.

 

Entre alguns dos seus ensinamentos e conselhos mais célebres está um que deu quando tinha 21 anos. E provou estar certo, pois hoje é um dos homens mais ricos do mundo: "Tenham medo quando todos estiverem a ser gananciosos. Sejam gananciosos quando todos estiverem com medo".

 

Sobre a qualidade das empresas onde investir, defende que "se não considerarmos a possibilidade de deter um determinado título durante 10 anos, não devemos detê-lo nem por 10 minutos". Já sobre a relatividade do preço das acções lembra que "é melhor pagar um preço razoável por uma óptima empresa do que pagar um óptimo preço por uma empresa razoável".

 

Gosta de dizer que o seu período de tempo favorito para deter uma acção é "para sempre" e ensina aos seus "acólitos" que avalia as empresas com base na sua estabilidade, na sua vantagem competitiva e naquilo que ele pensa que elas valerão no futuro, em vez de tentar identificar quando é que as acções estarão ao preço mais baixo para as comprar.

 

Recorde-se que Buffett só investe em empresas que possuam vantagem competitiva duradoura. Para descobrir quais são, analisa as demonstrações financeiras ao detalhe: a demonstração de resultados, o balanço e a demonstração dos fluxos de caixa, também conhecida como "mapa de cash flow".

É conhecido por dizer que os seus investimentos não se baseiam num sector ou indústria em particular, mas sim em cada empresa que valha a pena. "Simplesmente procuro empresas que operem em áreas que eu compreenda e que me pareçam bem posicionadas dentro de cinco ou dez anos. Não procuro sectores específicos".

Buffett, o homem

Diz que é capaz de comer sandes de presunto durante 50 dias seguidos. Quando gosta de uma coisa, gosta mesmo e não enjoa. Chama-se Warren E. Buffett e é este o homem que está do outro lado do investidor. As regras que aplica nos investimentos, segue-as também na sua vida pessoal. E, até agora, saiu-se bem.

 

É, de facto, um homem de hábitos. Ainda mora na mesma casa no bairro de Dundee, em Omaha (no Estado do Nebraska), que comprou em 1958 por 31.500 dólares. "Todos os dias, exactamente às 8h30, senta-se na escrivaninha que pertenceu ao seu pai, Howard, para começar o dia. No trabalho, passa o dia a negociar e a ler o que acontece no mercado financeiro, incluindo relatórios diários do desempenho das suas empresas. E regressa a casa sempre às 17h30", conta a revista Época.

 

Considera-se uma pessoa simples e pauta a sua vida por isso. "Tenho prazeres simples. Jogo bridge online 12 horas por semana. E jogo com Bill Gates", confessou um dia o homem que toca guitarra havaiana.

 

No livro "Efeito Bola de Neve - a biografia de Warren Buffett, o maior investidor do mundo " [Actual Editora, 2009], escrito por Alice Schroeder, revela que gosta de comer sempre as mesmas coisas. "Poderia comer sandes de presunto 50 dias seguidos", diz. E conta que come em sequência, uma coisa de cada vez, pois não gosta que os elementos se misturem no prato. Entre as suas preferências estão os hambúrgueres, pipocas, gelado de chocolate com pedaços e Cherry Coke – uma versão da Coca-Cola com sabor a cereja.

 

Nascido a 30 de Agosto de 1930, é o segundo de três filhos de Leila e Howard Buffett e tem Doris e Bertie como irmãs. O pai foi corretor da bolsa e membro do Congresso norte-americano, e o avô paterno era dono de uma loja de géneros alimentícios em Omaha.

 

Desde criança que demonstrou interesse em fazer e guardar dinheiro, relata a Wikipedia. E sempre revelou grande habilidade com os números, acrescenta a Infomoney. Aos seis anos já comprava garrafas de Coca-Cola na loja do avô e depois ia vendê-las de porta em porta, conseguindo gerar algum lucro. Hoje é um dos accionistas da bebida que tanto aprecia.







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