Economia Morreu o economista José da Silva Lopes

Morreu o economista José da Silva Lopes

José da Silva Lopes, economista e antigo ministro das Finanças, faleceu esta quinta-feira, com 82 anos, depois de ter estado hospitalizado nos últimos dias.
Morreu o economista José da Silva Lopes
Helena Garrido 02 de abril de 2015 às 19:52

José da Silva Lopes, economista e antigo ministro das Finanças, faleceu esta quinta-feira, com 82 anos, depois de ter estado hospitalizado nos últimos dias.

 

Um dos mais reputados economistas portugueses e uma referência para muitos, Silva Lopes era conhecido por ter um pensamento muito prático e um elevado conhecimento da economia portuguesa, que classificava de muito flexível.

 

"A notícia era esperada, mas deixa sempre uma sensação de perda, tristeza e saudade", salienta Rui Martinho, bastonário da Ordem dos Economistas, destacando que "José Silva Lopes foi um homem vertical, sempre exprimiu o que pensava mesmo que em contradição com outros pares, de forma educada, correcta mas com todas as justificações em que baseava as suas opiniões".

 

O Banco de Portugal, numa nota enviada à imprensa, lembra Silva Lopes como "um dos mais eminentes e reconhecidos economistas portugueses do século XX, tendo sido um atento investigador da economia nacional".

 

Governador do Banco de Portugal e Ministro das Finanças

 

Silva Lopes foi Governador do Banco de Portugal entre 1975 e 1980 e ministro das Finanças numa das alturas mais conturbadas da economia portuguesa, logo no pós-25 de Abril, sendo que participou nos primeiros quatro governos da democracia (ver caixa em baixo).

 

Foi também presidente da Caixa Geral de Depósitos e o último cargo público que ocupou foi a presidência do Montepio.

 

Na primeira intervenção do FMI em Portugal, em 1977, trabalhou de perto com alguns dos economistas mais conhecidos da actualidade, como Paul Krugman, que na altura era estudante e colaborava com o Banco de Portugal.

 

Natural de Ourém, Silva Lopes foi um importante protagonista das intervenções do FMI, pois também esteve envolvido no segundo pedido de ajuda, que ocorreu em 1983.

 

Como jovem economista, nos finais dos anos 50, Silva Lopes participou nas negociações do processo de adesão de Portugal à EFTA.

 

Como recorda o Banco de Portugal, nos anos noventa, Silva Lopes teve também um papel fundamental na reformulação da legislação aplicável ao sistema financeiro português. Foi também administrador do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), representante de Portugal junto do Banco Mundial e Presidente do Conselho Económico e Social. Hoje era ainda membro por inerência do Conselho Consultivo do banco central português.

 

Numa entrevista ao Negócios em 2013, ano em que a troika estava ainda em Portugal, Silva Lopes afirmou que "estamos a ver revoltas, mas não dos que mais sofrem. É dos que podem".

 

Num trabalho publicado em 2010, o Negócios recordou como Silva Lopes foi um dos protagonistas do Portugal pós-25 de Abril.

 

 

Presente nos primeiros quatro governos pós-25 de Abril

Numa reunião em Paris, era onde estava José da Silva Lopes quando em Portugal a Revolução de Abril derrubou a ditadura. "Estava como embaixador Ruy Guerra e com Ernâni Lopes em Paris, e quando chegámos ao aeroporto para regressar a Lisboa disseram-nos que não havia avião, porque ‘há uma revolução em Portugal’."

 

Foram então de avião até Madrid e daí apanharam um táxi para Lisboa. Em Madrid, Silva Lopes quis ir ver uma peça de Bertolt Brecht, "O Círculo de Giz caucasiano". No dia seguinte, a caminho de Lisboa, quis fazer mais uma incursão turística, insistiu em ir a Trujilo e convenceu o embaixador.

 

Em Portugal esperavam-no cinco anos em que foi ministro das Finanças, durante 10 meses, e governador do Banco de Portugal, num dos períodos mais difíceis da história financeira do País.

 

Silva Lopes entra para o I Governo provisório, liderado por Adelino da Palma Carlos e que tomou posse a 16 de Maio de 1974. Era secretário de Estado das Finanças de Vasco Vieira de Almeida, que tinha a pasta da Coordenação Económica.

 

É como ministro das Finanças do II Governo Provisório que vive dois casos que o surpreendem. Quando tenta distribuir por todos um prémio que era só dado a alguns e os alguns se revoltam, e quando tem de fugir pelo sótão do edifício cercado por trabalhadores de uma tinturaria que queria o aval do Estado.

 

Entre 1974 e 1975 integra, com Vítor Constâncio e Rui Vilar, a equipa que elabora o que ficou conhecido como "Plano Melo Antunes". Todos acabarão por ser criticados e considerados "o ventre mole da revolução". As nacionalizações de 11 de Março de 1975 acabam por deitar por terra as ideias dos "três de Sesimbra".

 

No IV Governo Provisório, Silva Lopes é ministro do Comércio Externo. Ali fica de Março até Julho, saindo quando o PS abandona o Executivo. Neste cargo é criticado por não criar empresas públicas para exportar, e chega a ser ameaçado por ourives, depois de ter criado uma sobretaxa sobre o ouro.




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