Mundo Morreu Maria Barroso

Morreu Maria Barroso

Maria Barroso, mulher do ex-Presidente da República Mário Soares, morreu hoje, aos 90 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde estava internada, em estado grave, desde 26 de Junho, disse fonte do hospital.
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Lusa 07 de julho de 2015 às 07:17

Maria de Jesus Barroso Soares, nascida a 2 de Maio de 1925, na Fuseta, Olhão, formou-se em Arte Dramática no Conservatório Nacional, em 1943, e licenciou-se em História e Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu aquele que seria o seu marido, Mário Soares.

Maria Barroso estreou-se como actriz no Teatro Nacional, em 1944, na companhia Amélia Rei Colaço/Robles Monteiro e na peça "Aparências", dirigida por Palmira Bastos, tendo o papel na peça de José Régio "Benilde" sido considerada uma das suas interpretações mais memoráveis.

 

Destacam-se ainda participações no cinema, em vários filmes como "Mudar de vida", de Paulo Rocha, ou "Le soulier de Satin", de Manoel de Oliveira.

 

Foi professora no Colégio Moderno, fundado pelo sogro, João Lopes Soares, mas chegou a ser proibida de ensinar durante o Estado Novo.

 

Em 1969, candidatou-se a deputada pela Oposição Democrática, tendo sido a única mulher a intervir na sessão de abertura do III Congresso daquela organização, em 1973, em Aveiro.

 

No mesmo ano, participou, na Alemanha, na reunião fundadora do Partido Socialista. Na altura, votou contra a ideia de fundação do PS, o que muito aborreceu Mário Soares.

 

"Julgávamos que não era bem a altura de formar o PS, devíamos esperar um bocadinho antes de tomar a decisão. Estávamos errados e Mário Soares estava certo, a História provou-o", disse a própria numa recente entrevista ao jornal i a propósito do seu 90º aniversário, a 2 de Maio de 2015.

 

Depois do 25 de Abril de 1974, foi por várias vezes eleita deputada à Assembleia da República, pelos círculos de Santarém, Porto e Faro.

 

Em 1986, assumiu o papel de mulher do Presidente da República, quando Mário Soares foi eleito para um primeiro mandato.

 

Durante uma década no Palácio de Belém dedicou-se à defesa de causas como o apoio aos países de língua portuguesa, a prevenção da violência, a luta contra o racismo e a exclusão social.

 

Depois de Mário Soares ter deixado a Presidência da República, em 1997, Maria Barroso presidiu à Cruz Vermelha Portuguesa, cargo que ocupou até 2003.

 

Foi fundadora e era presidente da Organização Não Governamental (ONG) Pro Dignitate - Fundação de Direitos Humanos, desde 1994, e da Fundação Aristides de Sousa Mendes.

 

Numa entrevista ao jornal i, Maria Barroso confessou que apesar de todas as "contrariedades, de todos os revezes e de todas as encruzilhadas, valeu a pena ter vivido". "Sinto que estou quase a partir, que se aproxima o momento", acrescentou.

 

Sobre a sua relação com Mário Soares - depois de contar um episódio em que cedeu à vontade dele e não se inscreveu no curso de Direito - afirmou: "Tive sempre a ideia de não fazer nada que o enervasse e o contrariasse, por isso estamos casados há 66 anos. Temos uma relação excelente, que é fruto dessa compreensão".

 

Admitiu que não fazer o curso de Direito foi um dos sonhos que deixou para trás por causa do marido. "Fora isso, quis acompanhá-lo sempre, mesmo nos momentos mais difíceis", acrescentou.

 

Católica desde a infância, admitiu ter-se afastado da religião durante os tempos de faculdade, uma reaproximação que só voltou a acontecer quando o filho João Soares sofreu um acidente de aviação em Angola.

 

"Todas as manhãs chegávamos ao hospital e eu perguntava por ele ao médico que chefiava a equipa. Um dia, ele respondeu-me que 'estava um bocadinho melhor, mas só um bocadinho, porque continuava muito mal. Peça a Deus'. Pedi a Deus. Mas, antes disso, pedira a uma funcionária do colégio, muito minha amiga, para encomendar uma missa pelo João. Senti-me bem nesse novo encontro com a religião", relatou.

 

Questionada pelo jornalista sobre como gostaria de ser recordada respondeu: "Uma cidadã modesta, mas amante da liberdade, da solidariedade e do amor. A minha palavra preferida, sem qualquer dúvida (...) o amor!".

 

Maria de Jesus Barroso morreu hoje, aos 90 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde estava internada, em estado grave, desde 26 de Junho, disse à agência Lusa fonte do hospital.

O corpo de Maria Barroso Soares vai estar em câmara ardente no Colégio Moderno, em Lisboa, a partir das 18h00 de hoje, realizando-se o funeral na quarta-feira para o Cemitério dos Prazeres, anunciou a família.

Em comunicado enviado à agência Lusa, a família informa que o funeral seguirá para o Cemitério dos Prazeres após a missa de corpo presente, que terá lugar às 10h00 na Igreja do Campo Grande.

"Não é permitida a recolha de quaisquer imagens no interior das instalações do Colégio Moderno durante o período em que o corpo de Maria de Jesus Simões Barroso Soares aí permanecer em câmara ardente", lê-se no comunicado.

No mesmo documento, os familiares mostram reconhecimento pelas manifestações de solidariedade que têm recebido e agradecem a dedicação da equipa médica do Hospital da Cruz Vermelha pela "disponibilidade e profissionalismo" com que trataram Maria Barroso desde que deu entrada naquela unidade.

Reacções à morte de Maria Barroso

Maria de Belém Roseira, presidente do Partido Socialista: "Era uma pessoa que estava sempre disponível quando precisavam dela e quando achavam que a sua presença era importante, não só pelo seu simbolismo, como também pelo conteúdo, pela densidade e firmeza das suas intervenções."

Partido Socialista: "O PS e o seu secretário-geral, António Costa, manifestam a sua mais profunda emoção e consternação pelo falecimento da nossa camarada, fundadora e militante nº 6, Maria de Jesus Simões Barroso Soares. A sua morte constitui uma perda irreparável para o PS e para o país, que nela sempre viu - e admirou - uma mulher de combate, com uma actividade incansável em prol dos seus ideais e das suas convicções."

Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República: "Mulher de cultura e de causas, Maria de Jesus Barroso distinguiu-se, ao longo de décadas, como uma lutadora pela liberdade e pela democracia, antes e depois do 25 de Abril." 

Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro: "Foi com enorme tristeza que tomei conhecimento do falecimento da doutora Maria de Jesus Barroso. Teve uma vida ímpar, toda ela dedicada ao serviço dos outros e à causa pública, tendo pugnado de forma intransigente por princípios, valores e ideais, tais como a defesa da democracia, o respeito dos direitos humanos e a elevação da dignidade da pessoa."

Ferro Rodrigues, presidente do grupo parlamentar do PS: "Morreu uma grande mulher, uma grande portuguesa, uma grande socialista."

Manuel Alegre: "É uma notícia muito triste, embora Maria Barroso seja daquelas pessoas que não morrem. A sua vida foi tão intensa e tão inspiradora que deixa para sempre uma marca naqueles que com ela privaram de perto." 

António Guterres, alto comissário das Nações Unidas para os Refugidos: "Ela foi uma figura inigualável na vida pública portuguesa, pela sua intervenção política e cívica sempre a favor das causas mais nobres, pelo seu inabalável apego aos valores democráticos, pela generosidade com que renunciou a uma carreira brilhante, como actriz excepcional que era, para servir o país. Mas acima de tudo sempre recordarei Maria de Jesus como uma muito querida amiga que sempre mostrou uma extraordinária solidariedade e apoio em alguns momentos difíceis da minha vida pessoal, o que nunca poderei esquecer".

Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República: "Maria Barroso lutou em todas as frentes pela dignidade humana e a justiça no mundo. A sua vida conjugou, de um modo ímpar, as qualidades de mulher e de cidadã. Entre o Colégio Moderno e a educação, e a luta no espaço público feita de risco e de dor, Maria Barroso deu um forte impulso ao nosso caminho colectivo de emancipação".

Francisco Pinto Balsemão: "Perdemos hoje uma mulher extraordinária e uma cidadã exemplar. Maria de Jesus Barroso lutou sempre pela defesa intransigente dos valores e dos princípios democráticos. Tive o enorme prazer de a conhecer ainda na década de 60, quando o Diário Popular lhe atribuiu um prémio de personalidade do ano, pela qualidade do seu trabalho como actriz. Com o meu querido amigo Mário Soares formaram um dos casais mais empenhados na vida pública portuguesa."

(Notícia actualizada às 18h14)



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