João Carlos Barradas O vendaval

O vendaval

"Há um quadro de Paul Klee intitulado 'Angelus Novus'. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da História deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés." Walter Benjamin, 1940
O vendaval
João Carlos Barradas 11 de setembro de 2011 às 00:01
Antes que a guerra o arrebatasse, George W. Bush via-se a si próprio como um "conservador com compaixão", "unificador de uma nação dividida", apostado na promoção de valores cristãos, sem proselitismos excessivos, e deveras empenhado no relançamento da economia através de um corte radical de impostos.

A América acreditava ser, naquele Verão de 2001, a potência sem rival ante uma Rússia em crise, um Japão estagnado, uma China ainda longe de ganhar músculo económico e financeiro.

O resto pouco contava

Os aliados europeus mostravam-se irrelevantes e as prioridades do antigo governador do Texas apontavam para a América Latina e, sobretudo, o México.

Israel era valor seguro e um Irão hostil servia, pelo menos, de contrapeso a Saddam Hussein, e, neste particular, George Walker, tinha contas por ajustar; era uma questão de honra e família.

A Guerra do Golfo deixara demasiadas pontas soltas e o insolente déspota de Bagdad tentara mesmo assassinar o pai do presidente durante uma visita ao Kuwait em Abril de 1993.

De repente tudo mudou

Já Bill Clinton se confrontara com Osama bin Laden, mas o 11 de Setembro mudou tudo com atentados altamente mortíferos e simbólicos, sangrando o território Continental dos Estados Unidos.

A guerra era inevitável em resposta a outro Pearl Harbour e George W. Bush tornou-se no presidente da equívoca "Guerra ao Terror".

Pior e mais insinuoso do que o ataque japonês de Dezembro de 1941 - arrojado e infame, mas compreensível ante um confronto de interesses entre estados soberanos - era ter de admitir que o inimigo islamita actuava de forma letal e politicamente assassina.

Uma entidade não-estatal, com apoios escusos, raramente assumidos, com a excepção dos talibã de Kandahar, teria de ser alvo de retaliações implacáveis.

2001 marcou o auge do apelo do salafismo "jihadista "da Al-Qaeda que foi claudicando ao longo da década.

O extremismo táctico e doutrinário da organização condenou-a ao isolamento apesar da radicalização de muitos muçulmanos do Sudeste da Ásia à Europa.

Os incessante ataques norte-americanos reduziram significativamente a capacidade operacional da Al-Qaeda.

A função coordenadora e orientadora a que aspirara Bin Laden esvaneceu-se e grupos radicais islamitas da Somália ao Magrebe, passando pelo Iémen, desenvolvem estratégias autónomas mantendo o recurso a tácticas terroristas.

Os Estados Unidos conseguiram evitar ataques terroristas no seu território, enquanto na Europa Ocidental, após as investidas em Madrid e Londres, em 2004 e 2005, as ameaças de atentados foram contidas.

Seja como for, deparamo-nos com um equilíbrio instável em que qualquer atentado poderá ter consequências desproporcionadas em relação ao cúmulo de danos e vítimas.
As opções da administração Bush, especialmente a invasão do Iraque, provocaram, entretanto, significativas mudanças nos equilíbrios de poder.

Alterações estratégicas

Em termos estratégicos, o Irão reforçou a sua influência regional a partir do momento em que a maioria xiita iraquiana, notoriamente hostil aos Estados Unidos após a experiência de guerra e ocupação, se impôs a sunitas e curdos.

O programa militar nuclear de Teerão, caso não seja desmantelado, tornará o país praticamente invulnerável a um ataque ainda esta década e o regime iraniano está em rota de colisão com Israel e as monarquias sunitas do Golfo.

A intervenção no Afeganistão cumpriu o objectivo de desalojar a Al-Qaeda, mas não conseguiu sequer reverter o país para o estatuto neutral anterior à invasão soviética de 1979 e não é também claro que o Pentágono possa vir a manter bases militares na Ásia Central.

O incremento da desestabilização do Paquistão foi consequência directa das sucessivas guerras afegãs e o país representa, actualmente, um dos maiores riscos estratégicos.

Em 2002, Islamabade e Nova Deli estiveram de novo à beira da guerra, mas nem assim foram estabelecidos, no subcontinente, mecanismos eficazes de monitorização e controlo de riscos de acidente e informação mútua em matérias relativas aos sectores nuclear civis e militares.

No Paquistão persiste, ainda, o risco de tráfico de tecnologias e materiais nucleares com conivências ao mais alto nível, conforme ficou patente com o desmantelamento da rede controlada por Abdul Qadeer Khan a partir de 2003.

A guerra contra Saddam Hussein, tida pela administração Bush como recurso necessário e exemplar para derrubar regimes detentores de armas de destruição maciça dispostos a colaborar com redes terroristas não-estatais, levou Kadhafi a renunciar em 2003 ao seu programa nuclear clandestino.

Este êxito no combate à proliferação nuclear militar teve, contudo, contraponto negativo em 2006, quando a Coreia do Norte testou o seu primeiro engenho nuclear.

Dois anos depois, no âmbito da aproximação entre Washington e Nova Deli, os Estados Unidos conseguiram levar os 44 países do "Grupo de Fornecedores Nucleares", entre os quais Portugal, a levantar um embargo em vigor há 34 anos de venda de materiais, equipamentos e tecnologias nucleares à Índia.

Foram assim postos em causa os tratados de Não-Proliferação Nuclear, de 1968, e de Interdição Completa de Ensaios Nucleares, de 1996, e criado um precedente grave com o estatuto de excepção atribuído à Índia que, tal como o Paquistão, Coreia do Norte e Israel, recusa subscrever estes acordos internacionais.

A potência dominante

A entrada dos Estados Unidos numa guerra permanente não-convencional à escala planetária contra eventuais ameaças terroristas, essencialmente de matriz islamita, levou, ainda, à adopção de medidas securitárias que dificilmente serão abandonadas.

Uma década de guerras, de controvérsias legais e escândalos, designadamente por recurso institucional à tortura, entretanto, degradaram a nível internacional a imagem idealizada dos Estados Unidos ao mesmo tempo que a crise financeira de 2008, o acumular de défices comerciais e orçamentais contrastavam com o crescimento económico da China.

À excepção da área militar, onde a preponderância dos Estados Unidos é esmagadora, o declínio relativo norte-americano parece acentuar-se em todas as áreas, mas a maior economia do mundo guarda trunfos que não estão ao alcance de qualquer rival.

Depois da hegemonia incontestada do pós-guerra em que os Estados Unidos representavam cerca de metade do PIB mundial esse valor baixou para 30% em 1970 e mantém-se estável desde então, enquanto o seu sector industrial continua ao nível de 1900: um quinto da produção mundial.

O dinamismo demográfico norte-americano augura décadas pujantes e, em termos de investigação científica, a superioridade dos Estados Unidos não será posta em causa tão cedo.

No realinhamento económico, político e cultural em curso, em que o peso da China e da Índia se acentua em conformidade com as respectivas dimensões demográficas, os Estados Unidos continuam a ser a potência dominante.

Os atentados de Setembro foram como que uma grande rajada de vento, daquelas que lembram as teses "Sobre o Conceito da História" que o filósofo judeu alemão Walter Benjamin escreveu no derradeiro ano da sua vida: "Ele (o anjo da História) gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do Paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval."

barradas.joaocarlos@gmail.com