Política Pais Jorge demite-se “sem qualquer arrependimento e de consciência limpa”

Pais Jorge demite-se “sem qualquer arrependimento e de consciência limpa”

Foi uma curta passagem pelo Governo. Joaquim Pais Jorge já não é secretário de Estado do Tesouro. Apesar de antecipar uma tarefa difícil no cargo, o gestor não esperava que “os maiores obstáculos emergissem do domínio estritamente pessoal”. “Considero que não tenho que me sujeitar a este tipo de tratamento mediático”, assinala na declaração em que pede a demissão.
Pais Jorge demite-se “sem qualquer arrependimento e de consciência limpa”
Bruno Simão/Negócios
Diogo Cavaleiro 07 de agosto de 2013 às 11:59

Pouco mais de um mês depois de assumir funções, Joaquim Pais Jorge abandonou a secretaria de Estado do Tesouro. O gestor pediu demissão esta quarta-feira à ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque.

 

"Saio sem qualquer arrependimento e de consciência limpa", diz Pais Jorge num comunicado distribuído esta manhã pelo Ministério das Finanças. “Nenhuma manobra de baixa política poderia mudar a minha disposição de serviço à causa pública, nem de dedicação a Portugal”, acrescentou no documento.

 

O secretário de Estado tem estado sob os holofotes devido à polémica em torno do seu papel enquanto funcionário do Citibank em 2005, altura em que terá participado em reuniões com membros do Executivo da altura, liderado por José Sócrates, para tentar vender produtos financeiros que melhorariam as contas do Estado no curto prazo, à custa de riscos incertos no futuro. Vieram a público documentos que provam a realização de reuniões com a presença de Pais Jorge, que contrariaram a garantia anterior de que o governante não teria participado em tais encontros. O Ministério das Finanças defendeu que a apresentação foi falseada.

 

“As notícias vindas a público nos últimos dias, em que uma apresentação com mais de oito anos foi falseada para que incluísse o meu nome, revelam um nível de actuação política que considero intolerável”, defendeu o até aqui secretário de Estado, que ocupou o cargo para suceder a Maria Luís Albuquerque, quando esta foi convidada para substituir Vítor Gaspar.

 

“Não tenho que me sujeitar a este tipo de tratamento”

 

“A minha disponibilidade para servir o país sempre foi total. Não tenho, no entanto, grande tolerância para a baixeza que foi evidenciada”, acusa o governante que tem ocupado grande parte das notícias desde quinta-feira passada, dia em que a "Visão" avançou com a notícia de que Pais Jorge teria tentado "vender" produtos financeiros especulativos ao Estado português.

 

Joaquim Pais Jorge, que antes de estar no Governo presidia à Parpública, escreve que “nunca” pensara, perante os grandes desafios que tinha a enfrentar na Secretaria de Estado das Finanças, “que os maiores obstáculos emergissem do domínio estritamente pessoal”. “Considero que não tenho que me sujeitar a este tipo de tratamento mediático de que fui alvo nos últimos dias”.

 

Na carta de demissão tornada pública pelo Ministério das Finanças, Joaquim Pais Jorge defende ainda que as declarações que fez sobre o caso “foram exploradas e distorcidas”. O secretário de Estado fez declarações contraditórias na passada sexta-feira, no “briefing” bissemanal do Governo, em que começou por dizer que não se lembrava de se ter reunido com o gabinete de José Sócrates para lhe apresentar propostas de “swaps” tendo, depois, negado a presença em quaisquer reuniões com o gabinete do então primeiro-ministro. Na segunda-feira, veio admitir que, afinal, participou em pelo menos três reuniões, apesar de negar que o tema fosse a venda de produtos financeiros especulativos.

 

“É este lado podre da política, de que os Portugueses tantas vezes se queixam, que expulsa aqueles que querem colocar o seu saber e a sua experiência ao serviço do País”, defende.

 

Tesouro é pasta com “imensas” dificuldades

 

Joaquim Pais Jorge sai do Executivo a 7 de Agosto. Assumiu funções a 2 de Julho, dia em que tomou posse. "Trabalhei incessantemente e com enorme orgulho no mês que passou na função de Secretário de Estado do Tesouro".

 

“Apesar das dificuldades que conheço bem, entendi que deveria responder afirmativamente à solicitação que a senhora Ministra de Estado e das Finanças me endereçou”, disse referindo-se ao convite feito para assegurar a pasta do Tesouro no início do mês passado.

 

Joaquim Pais Jorge deixa, no comunicado desta quarta-feira, palavras de simpatia para com Maria Luís Albuquerque, que o convidou para o Executivo. “O facto de uma pessoa excepcional, como é a senhora Ministra de Estado e das Finanças, considerar que eu poderia ser útil bastou-me para tomar essa decisão”.

 

“A situação que o país atravessa é dificílima e senti uma enorme honra em poder ajudar. Sabia desde o primeiro momento que as dificuldades seriam imensas. A função de Secretário de Estado do Tesouro num país que vive debaixo de um programa de assistência financeira é especialmente complexa. Preparar o regresso pleno aos mercados, executar o programa de privatizações ou tutelar o Sector Empresarial do Estado, só para citar alguns exemplos, são tarefas de enorme dificuldade”, enumera o antigo gestor da Estradas de Portugal que esteve, também, 19 anos no Citigroup.

 

Desde quinta-feira que Joaquim Pais Jorge estava debaixo de fogo. Nesse dia, saiu o artigo da "Visão" que colocava o então secretário de Estado do Tesouro numa posição difícil, já que o Governo tem sido um forte crítico de produtos financeiros especulativos - é essa a posição governamental na gestão do dossier dos "swaps" das empresas públicas.

 

Os partidos da oposição vinham a dizer que Pais Jorge não tinha condições para permanecer no cargo. O próprio líder parlamentar do CDS/PP, Nuno Magalhães, afirmou na terça-feira que sabia "bem" o que faria caso estivesse no lugar do governante.

 

 

(Notícia actualizada com mais informações às 12h18; Notícia actualizada pela segunda vez às 12h30)




Saber mais e Alertas
pub

Marketing Automation certified by E-GOI