Política Portugal a puxar as orelhas à Dinamarca? "É um pouco cómico", dizem dinamarqueses

Portugal a puxar as orelhas à Dinamarca? "É um pouco cómico", dizem dinamarqueses

Os deputados dinamarqueses insurgiram-se contra o repúdio que o Parlamento português adoptou face ao confisco de bens a refugiados. “É um pouco cómico”, reagiu um deputado do partido do Governo. “Muitos países que criticam deviam olhar-se ao espelho”, disse outro.
Portugal a puxar as orelhas à Dinamarca? "É um pouco cómico", dizem dinamarqueses
Reuters
Bruno Simões 03 de fevereiro de 2016 às 18:50

O voto de repúdio à lei dinamarquesa que permite o confisco de bens acima de 1.340 euros aos refugiados, e que foi aprovado de forma unânime pelo Parlamento português na passada sexta-feira, não passou indiferente em Copenhaga. O jornal dinamarquês Politiken foi pedir comentários aos três partidos que deram luz verde à nova lei. Marcus Knuth, do Partido Liberal, que suporta o Governo de Lars Lokke Rasmussen, disse que é "um pouco cómico" que Portugal tome posição sobre este assunto.

 

A Assembleia da República assinalou o seu "veemente repúdio" ao pacote legislativo aprovado pelos deputados de três partidos dinamarqueses, a 26 de Janeiro. É aí que se prevê a "possibilidade do confisco de bens na posse de refugiados a quem tenha sido autorizada a permanência naquele país, no valor excedente a 1.340 euros". O documento foi redigido pelo presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros, Sérgio Sousa Pinto, e assinado por deputados de todas as bancadas.

 

Os deputados portugueses defendem que esta lei "abre um chocante precedente" e "sinaliza um evidente retrocesso político, jurídico, social e civilizacional".

 

"Surpreende-me que não tenham reparado que vários outros países europeus", como a Suíça ou a Alemanha, "têm legislação bastante mais extensa na mesma área", afirmou Marcus Knuth ao diário sediado em Copenhaga. O porta-voz do Partido Liberal para as questões de imigração diz que não quer fazer "um grande caso" com o repúdio do Parlamento português. "Na Dinamarca temos controlo sobre o número de pedidos de refugiados, por isso não vou começar a apontar o dedo a outros países".

 

"Só acho que é um pouco cómico, e parece um bocado populista", descreve.

 

Quem critica devia olhar-se ao espelho

 

A Dinamarca tem-se queixado que os media internacionais têm noticiado a legislação dinamarquesa de forma errada ou incompleta. É esse o ponto de Dan Jorgensen, deputado do partido Social Democrata, o mais representativo do Parlamento dinamarquês. "Não li o voto, mas percebo, caso ele seja baseado na cobertura incorrecta que os media internacionais têm feito. Muitos não perceberam que nós mudámos a lei", afirma.

 

Mas também deixa críticas. "Muitos dos países que criticaram a Dinamarca deviam olhar-se ao espelho. Nós ficámos com um fardo bem maior do que eles. Isto não significa que eles não possam fazer críticas legítimas", afirma Jorgensen. "Mas é um pouco estranho que sejamos criticados por não fazermos o suficiente quando muitos dos países que nos criticam fazem muito menos", atira.

 

Soeren Espersen, do Partido Popular Dinamarquês, que assume posições de extrema-direita nas questões de imigração, defende que "há muitos exemplos de pessoas que venderam as casas na Síria antes de fugirem, e que receberam o pagamento disso na íntegra". "Não há, de facto, nenhuma justificação para o facto de alguém vir para a Dinamarca, com direito a um sistema de Estado Social que oferece tudo, e ao mesmo tempo poder ter uma grande fortuna. Isso não faz sentido", remata.

 

A Dinamarca tem-se mostrado muito crítica da forma como as alterações à lei da imigração têm sido noticiadas. O The Guardian publicou mesmo um cartoon em que compara o primeiro-ministro Rasmussen a Hitler. Pia Kjaersgaard, que preside ao Parlamento dinamarquês e que foi uma das principais defensoras da liberdade de expressão em 2006, quando o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou caricaturas de Maomé, veio, desta vez, pedir ao jornal que retire o cartoon.

Ao Negócios, o embaixador dinamarquês em Lisboa, Michael Suhr, defendeu que os refugiados são tratados como cidadãos dinamarqueses.




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