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Portugal corre risco de cair em recessão prolongada

O Presidente da República, Jorge Sampaio, reúne hoje com oito economistas para tomar o pulso à crise. O Negocios.pt foi ouvir a opinião de quatro deles sobre a conjuntura: Miguel Beleza, Vítor Bento, Teodora Cardoso e Silva Lopes.

Negócios negocios@negocios.pt 17 de Abril de 2003 às 09:25
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O Presidente da República, Jorge Sampaio, reúne hoje com oito economistas para tomar o pulso à crise económica. O Negocios.pt foi ouvir a opinião de quatro deles sobre a conjuntura: Miguel Beleza, Vítor Bento, Teodora Cardoso e Silva Lopes.

Há um consenso sólido em torno de um facto - a economia está doente e a recuperação poderá tardar em chegar. Mas os discursos nem sempre coincidem na interpretação da patologia. Daí as diferenças de abordagem à política económica, que são bem mais que diferenças de tom.

«A situação este ano é sombria», diz o presidente cessante do Conselho Económico e Social, Silva Lopes. «O principal risco é que a conjuntura internacional», da qual está suspensa a retoma da economia portuguesa, «venha a ser pior» do que se antevê.

Miguel Beleza, ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva, considera «relativamente sensatas as projecções do FMI», as mais «sombrias» até agora divulgadas, e não negligencia o perigo de uma «recessão prolongada», se a recuperação internacional tardar.

Vítor Bento, presidente da SIBS, sublinha o facto de os principais motores da economia global - EUA, Zona Euro e Japão - estarem todos, simultaneamente, a sofrer de problemas, que são bem mais do que meramente conjunturais.

«É um caso inédito, pelos menos nos últimos 50 anos», diz. E realça a principal «ameaça» à sustentação de uma eventual retoma vinda de fora, apontando para «o défice externo dos EUA, persistente e significativo».

Teodora Cardoso, conselheira do BPI, diz que «Portugal sofre de uma doença grave». «Não é um problema de hoje, mas hoje é mais visível, porque deixámos de viver a ilusão de facilidade que, durante alguns anos, alguns quiseram ver na quebra das taxas de juro e na entrada de fundos comunitários». Na gravidade da crise, termina o consenso entre os economistas ouvidos.

Economistas divergem na política a seguir pelo Governo

As diferenças começam na interpretação dos sinais da doença. Teodora Cardoso afirma que «o défice externo continua a ser, apesar de tudo, a minha menor preocupação. É um sintoma da perda de competitividade, e só nesse sentido não pode ser desprezado, mas a situação não é comparável à dos anos 80, quando o FMI interveio».

Daí a desvalorização que faz dos recentes alertas lançados por aquela instituição, relativamente aos riscos no sector financeiro. Os alertas «parecem-me um exagero», diz a economista, no que é secundada por Silva Lopes e Miguel Beleza, ambos garantindo que os dados de que dispõem estão longe de sugerir que o sistema esteja sob «ameaça».

A voz discordante, aqui, é a de Vítor Bento. Reconhecendo que é perigoso falar deste tipo de riscos - «os riscos podem ser ampliados pela sua própria enunciação» -, o economista afirma, contudo, que eles «são reais». Ao alertar para eles, «o FMI cumpriu o seu papel».

E é por considerar o endividamento externo a grande vulnerabilidade da economia portuguesa, reflectindo uma progressão insustentável do endividamento das famílias e das empresas, que Vítor Bento desaconselha qualquer veleidade de estímulo à economia vindo da política orçamental.

«Não há margem de manobra» e, mesmo que houvesse, «limitar-se-ia a aumentar o já elevado nível de endividamento da economia, contribuindo justamente para o agravamento das vulnerabilidades» que estão a tornar a crise interna bem mais aguda do que justificaria o ambiente internacional adverso.

Na abordagem da política orçamental, Vítor Bento coincide com Miguel Beleza, para quem, «qualquer hesitação da ministra das Finanças em relação ao rumo até agora traçado, seria um perigoso retrocesso.

Não se pode dar ouvidos aos cantos de sereia dos que começam a sugerir que o que é adequado para a economia é inflacionar». No limite, Miguel Beleza admite que o défice deve deixar acomodar a perda de receita forçada pelo fraco nível de actividade económica. Mas é forçoso impedir que sobre o país volte a cair a «má reputação» do rótulo de economia em défice excessivo.

Silva Lopes e Teodora Cardoso pautam as suas observações à condução das Finanças Públicas por um tom completamente diferente. Para Silva Lopes, na actual conjuntura «seria absurdo cumprir o Programa de Estabilidade e Crescimento».

Teodora Cardoso vai mais longe: «a política orçamental do Governo é totalmente errada, porque insiste em aderir a um Pacto [de Estabilidade e Crescimento] moribundo». Seria preferível «não ligar muito ao défice, aumentar o investimento público e baixar mesmo os impostos».

Só a má situação da economia merece o pleno do consenso entre os economistas. Quanto aos riscos que representa o desequilíbrio externo, mero reflexo do desequilíbrio financeiro das famílias, empresas e Estado, os economistas diferem.

Como divergem nas recomendações que fazem para a orientação da política orçamental, o último instrumento que restou a Portugal para afinar a conjuntura, depois da entrada no euro.

Por Jorge Campos Costa e Eva Gaspar

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