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"Reafectação de recursos teve um impacto negativo na produtividade"

O economista e investigador do Observatório sobre as Crises e Alternativas do CES diz que a retoma está a assentar sobretudo no sector dos serviços, designadamente o turismo, que é tendencialmente menos produtivo.

Com o aumento da inflação na zona euro, à boleia da subida dos preços de petróleo, o aumento das taxas de juros globais, liderado pelos EUA, e consequente redução da intervenção do BCE nos mercados, é provável que a pressão financeira sobre Portugal aumente no próximo ano. Com um nível de endividamento, público e privado, tão elevado, qualquer ligeiro aumento das taxas de juro traduzir-se-á num lastro ao crescimento económico e à recuperação do emprego. A este cenário acresce o arrastamento dos problemas do sistema bancário nacional, longe de estarem resolvidos.
Nuno Aguiar naguiar@negocios.pt 10 de Dezembro de 2017 às 22:15
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O perfil com que a economia portuguesa saiu da crise é menos produtivo?
A economia portuguesa no pós-crise assenta sobretudo no crescimento de emprego nos serviços (comércio, alojamento, restauração e outros serviços de apoio) que são tradicionalmente sectores com pouco potencial de crescimento da produtividade dada a difícil incorporação de inovação tecnológica e organizacional por comparação com outros sectores, como a indústria.

Isso torna a retoma da economia portuguesa potencialmente menos sustentável? 
A retoma tem-se baseado num significativo aumento do emprego em Portugal, só possível devido às elevadas taxas de desemprego existentes, sendo a única forma de compatibilizar crescimento com baixo investimento.  A retoma parece estar apoiada em sectores que necessitam de pouco investimento e cujo crescimento é sobretudo extensivo e muito dependente de factores conjunturais, seja pelo aumento da procura interna via consumo, seja pela via aumento da procura externa, nomeadamente do turismo. Estes motores podem desaparecer rapidamente por motivos de conjuntura. O nosso trabalho mostra, por sua vez, como a reafectação de recursos na economia portuguesa entre diferentes sectores têm tido um impacto negativo na evolução da produtividade.

Que sectores menos produtivos se estão a destacar?
Parece-nos evidente que o comércio, alojamento, restauração e serviços de apoio empresarial são os que maior contributo têm dado ao crescimento. A construção tem vindo também a recuperar, embora com algum desfasamento temporal e, provavelmente, guiada pelos anteriores. A boa novidade é alguma recuperação da indústria, onde cresce o emprego e a produtividade.

Que políticas públicas deveriam ser levadas a cabo para corrigir essa transferência de recursos para sectores menos produtivos?
Toda a política económica é susceptível de fazer essa correcção: da monetária (que sectores beneficiam mais do acesso ao crédito) à orçamental (para onde é dirigido o investimento público), passando pela fiscal (como são taxados os diferentes sectores; por exemplo, o IVA da restauração). É certo que muitos destes instrumentos estão vedados ao Estado português devido às imposições europeias, mas isso não deve ser razão para evitar um debate político sobre a direcção desejável da economia.

A economia no pós-crise assenta sobretudo no crescimento de emprego em sectores tradicionalmente com pouco potencial de produtividade. nuno teles
Investigador do Observatório sobre as Crises e Alternativas do CES
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