Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Receita para enfrentar a crise? Vida "frugal e sóbria"

Chegou atrasado, um pouco ressabiado, mas acabou por assumir as culpas. Para logo pedir sacrifícios, muitos, e garantir que não pensa abandonar o “barco”. Pelo meio deu conselhos, pediu e ofereceu tolerância e ainda fez rir. “Por favor não me telefonem”. Linha aberta? Só para a oposição.

Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 16 de Outubro de 2010 às 20:43
  • Assine já 1€/1 mês
  • 42
  • ...
À terceira foi de vez, e não falhou muito a hora combinada. Passavam escassos minutos das três da tarde, de mais um sábado quente de Outono, quando Teixeira dos Santos entrou no Salão Nobre do Ministério das Finanças para apresentar a proposta de Orçamento do Estado de 2011 que era esperada desde a véspera, e já depois de a conferência de Imprensa marcada para as dez da manhã ter sido cancelada em cima da hora.

Chegou acompanhado de três dos seus quatro secretários de Estado – faltou Carlos Costa Pina, do Tesouro e Finanças – e começou por “esclarecer”. "Esclarecer" que tinha entregue na noite da véspera, ainda dentro dos prazos legais, a proposta de lei e os mapas que são “objecto se apreciação e aprovação” pela Assembleia da República. E que tinha “esclarecido” então que o relatório que acompanha a proposta de Orçamento só no dia seguinte poderia ser apresentado. O esclarecimento não chegou, porém, para inverter a conclusão de que o ministro violou, de facto, a lei ao não entregar na Assembleia da República todos os documentos relativos à proposta de Orçamento até Outubro.

Teixeira dos Santos regressou ao assunto mais tarde, instado pelos jornalistas a explicar o que levou a que o Orçamento fosse apresentado tão fora de horas. E regressou com outra postura. “Ninguém mais do que eu lamenta este atraso. Foi um trabalho intenso e pesado e não houve forma de o evitar. Mas eu tenho a obrigação de assumir as consequências – e só eu sou responsável”.


Não há vida para além do défice neste OE

Antes admitira que a grande – e quase única – prioridade deste Orçamento é reduzir o défice para os 4,6% prometidos em 2011, e que essa missão vai exigir “sacrifícios de todos”, gerar mais desemprego (passa de 10,6% para 10,8%), travar o crescimento da economia (cai de 1,3% para 0,2%), e reduzir drasticamente o poder de compra dos portugueses, que vão receber menos (os cortes salariais na função pública devem servir de “sinal” ao sector privado, disse), pagar mais impostos e enfrentar preços mais altos (a inflação será de 2,2%, contra 1,3% neste ano). O consumo privado vai cair 0,5%, depois de ter crescido 2% neste ano, e o consumo público vai sofrer um tombo sem precedentes, de 8,8%.

Para promover a competitividade, a mãe dos maiores males da economia portuguesa, restou a promessa de que o Estado vai continuar a reduzir a burocracia e financiar linhas de crédito para as PME exportadoras. Manifestamente pouco, mas a manta é mais que curta.


Não chegou tão pouco a oferecer luz ao fundo do túnel, possivelmente porque o ministro sabe que o túnel é longo, mas apenas a convicção de que não há alternativa e que Portugal não tem qualquer margem para falhar na redução do défice. Caso contrário, Estado, banca, empresas e famílias, que dependem do financiamento externo, vão ‘secar’. O resultado será a “paralisação da economia e mais desemprego”. E – não o disse, mas ficou nas entrelinhas – Portugal será forçado a pedir ajuda ao FMI e aos parceiros da Zona Euro.

“O país não resistirá à não aprovação do Orçamento”, avisou na passagem mais dramática do seu discurso, em que lançou a bola à oposição, garantindo que não lhe passa pela cabeça demitir-se. “O importante neste momento é mobilizar-nos e dar o melhor de nós para viabilizar este Orçamento. O que o país precisa é de Orçamento e nós temos de dar um Orçamento ao país”.

Margem de manobra para negociar? Toda, com duas restrições, respondeu. “Que se atinja um défice de 4,6%” e que “não violente as convicções mais profundas sobre aquilo que eu acho que deve ser a política do Estado”. Tudo o resto é possível: “Neste momento o país exige um grande espírito de abertura e de tolerância para alcançar os compromissos necessários”.

Quando lhe perguntaram como vai gerir o seu orçamento familiar, lembrou que é casado com uma funcionária que também é paga pelo Estado, que serão, portanto, dois a sofrer cortes nos salários, mas que vai continuar como até aqui: com o estilo de vida “frugal e sóbrio que sempre me protegeu no passado”. Uma recomendação que implicitamente deixou a todos os portugueses.

Para os jornalistas, deixou um derradeiro pedido: “Por favor, não me telefonem!”. Linha aberta, como prometera na véspera quando entregou (parte) do OE na Assembleia da República, é só para a oposição.

Ver comentários
Mais lidas
Outras Notícias