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Reportagem: Centro de Atenas a fumo e fogo num dia de viragem para o país

Edifícios públicos, incluindo dois cinemas históricos, e diversos estabelecimentos ainda ardiam durante a noite de hoje no centro de Atenas, enquanto nas imediações os deputados prosseguiam a discussão e votação do novo acordo com a troika internacional.

Lusa 12 de Fevereiro de 2012 às 01:27
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Os despojos dos violentos confrontos espalhavam-se por diversas ruas que desaguam na praça Syntagma, onde no final da tarde uma manifestação convocada pelas duas centrais sindicais e a generalidade das formações de esquerda foi subitamente dispersa pela polícia.

Grandes vasos partidos em cacos nas ruas, com a terra espalhada, laranjas arrancadas das árvores, caixotes de lixo derrubados, montanhas de dejectos a fumegar no meio das artérias e que se acumularam devido à greve geral cumprida na sexta-feira e no sábado, pedras, estruturas de madeira arrancadas das esplanadas, tudo serviu para os confrontos entre a polícia e os grupos de contestatários organizados, que entraram em acção quando o grosso da manifestação, com gente de todas as idades e condições, ia sendo expulsa da praça Syntagma, com o Parlamento ao fundo.

"Foi a maior manifestação desde os grandes protestos de junho de 2011, durante o movimento dos indignados", refere Petrus, um médico de meia-idade que desta vez decidiu participar no protesto.

Como medida de prevenção, trouxe um frasco onde estava diluído um produto que combate as dores de estômago, mas que os manifestantes espalham pela cara para se protegerem dos efeitos do gás lacrimogéneo. Máscaras, cachecóis, ou este estranho líquido de cor creme, que espalhado pelas caras de centenas de pessoas parecem recordar um desfile de mascarados, tudo serve para contrariar as investidas policiais.

Seis horas após o início dos confrontos, o irritante efeito do gás lacrimogéneo ainda pairava no centro de Atenas, enquanto grupos de polícias continuavam a percorrer com capacetes e cassetes em punho pelas ruas laterais, para afastar os grupos de jovens que insistiam em lançar provocações, protegidos nas esquinas mais escuras.

"Hoje, a polícia foi particularmente agressiva. Pensávamos que não iam intervir na manifestação, foi uma acção inesperada e que pode significar uma viragem", admite Haritini, uma amiga de Petrus, visivelmente nervosa e quando já se encontrava numa praça mais segura, a caminho da Plaka, a velha zona histórica da cidade dominada pelo Pártenon. Mas sempre com as nuvens do irritante gás mais perto, entre o som de petardos, sirenes de ambulâncias e de carros de bombeiros, ou cocktails molotov.

A polícia montou uma gigantesca barreira em torno da praça dominada pelo Parlamento, e os confrontos prosseguiram nas avenidas e ruelas circundantes para onde foram despejadas milhares de pessoas que se acotovelam, mas sem qualquer manifestação de pânico. Num jogo do gato e do gato, jovens de negro e polícias agrediam-se mutuamente, com pedras.



"Marionetes de teatro", gritava em direcção ao Parlamento uma mulher já idosa, de braço dado no marido, antes de virar para uma esquina lateral e perder de vista o hemiciclo.

Mais de 100 mil pessoas preparavam-se para se manter frente ao Parlamento e manifestar o seu descontentamento face às duras medidas de austeridade na iminência de serem aprovadas. A polícia recebeu ordens para dispersar o protesto gigante, e quando milhares de pessoas ainda se dirigiam a pé para o local da concentração.

Para muitos gregos, esta noite significa o início de um novo momento na agitada vida política do devastado país. Ninguém sabe como vai terminar.

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