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Resposta a "Norte e Sul", de Camilo Lourenço

Em resposta ao artigo "Norte e Sul", publicado em "A Mão Visível" a 26/3, recebemos de Elisa Ferreira a carta que aqui publicamos.

Negócios 28 de Março de 2013 às 00:01
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Caro Dr. Camilo Lourenço,

Começo por lhe agradecer o comentário à minha entrevista ao "i".

Registo que faz duas críticas e tira uma lição de moral.

Na primeira crítica, reconhece que haja uma perda progressiva de competitividade relativa das economias periféricas face às centrais no contexto do mercado interno e da moeda única, mas justifica-a pela ausência de "reformas modernizadoras da economia". Bastaria, contudo, que revisitasse a literatura sobre processos de liberalização comercial e áreas monetárias ótimas e depois analisasse o comportamento das balanças comerciais, correntes e de capitais dos países que compõem a Zona Euro durante a vigência da moeda única para se esclarecer sobre a real natureza do problema. E quando afirmo que não há nenhum mecanismo automático interno de correção é porque, de facto, não há, por razões intrínsecas à própria construção da Zona Euro. O que, ao contrário do que refere, é bem diferente de afirmar – o que nunca fiz – que "o problema se resolve com ‘mecanismos automáticos’". Se for ignorância, nunca é tarde para aprender!

Na segunda crítica, contesta a minha referência a que os mais fortes definem as regras do jogo, mas ignora a minha sugestão de que Portugal seja um participante mais ativo na definição dessas regras. Acredita mesmo o Dr. Camilo Lourenço que as opções da União Europeia nas negociações comerciais ou a relativa apatia nas negociações cambiais com a China, os Estados Unidos e outros players internacionais afetam de igual modo todos os países membros? Acha mesmo que a legislação europeia sobre emissões atmosféricas nos transportes é neutra em relação aos diversos interesses industriais em jogo? Entende mesmo que a ajuda europeia ao Paquistão, após as inundações de 2010, teria mesmo de ser dada sob a forma de uma acrescida abertura às suas exportações têxteis, apesar de as grandes fábricas do setor estarem completamente fora das zonas afetadas? Considera mesmo que não há interesses nacionais por detrás da aparente incapacidade europeia de regular os produtos financeiros tóxicos, as práticas das agências de notação e os paraísos fiscais dentro e fora da União ou de finalizar um acordo competente sobre movimentos de capitais com a Suíça? Se for ingenuidade, nunca é tarde para amadurecer!

Quanto à lição de moral, não, mais uma vez! A minha visão está longe de corresponder ao que caracteriza como o "complexo bem português de que deve haver uma mão do Estado, neste caso da União, que premeia (automaticamente) quem fica para trás… porque não faz o trabalho de casa." Começa é a ser urgente que os nossos "especialistas" se deixem de comentários ideológicos simplistas e passem a detalhar o que querem dizer com generalidades como "trabalho de casa" e "reformas estruturais", explicitando, quantificando e calendarizando quer essas medidas quer os resultados esperados. Como conviria também, num País que tem vindo a fazer o tal "trabalho de casa" sob a tutela da Troika e de um Governo que lhe é obediente, que certos comentadores começassem a analisar seriamente as razões do evidente descalabro das políticas adotadas. Se for dogma, nunca é tarde para evoluir!

*Deputada ao Parlamento Europeu

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