Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Soros diz-se muito pessimista em relação ao futuro do euro

O investidor, que ganhou mil milhões de dólares a apostar na queda da libra em 1992, sendo conhecido como o homem que bateu o Banco de Inglaterra, alerta para o perigo de a Europa ficar permanentemente dividida entre credores e devedores.

Carla Pedro cpedro@negocios.pt 03 de Setembro de 2012 às 15:47
  • Assine já 1€/1 mês
  • 28
  • ...
O multimilionário George Soros - que é, segundo os cálculos da Bloomberg, o 20º homem mais rico do mundo, com 21.900 milhões de dólares – declara, em entrevista ao “El País”, que não são apenas os políticos que cometem erros. O mesmo acontece com os mercados, “ao considerarem que a dívida dos países mais débeis está livre de risco, para logo depois perceberem que estes podem entrar em incumprimento, a não ser que as autoridades os protejam desses excessos”.

Mas acontece que as autoridades não os protegeram, pelo que estamos agora perante “uma conjugação de crise soberana, de crise bancária, de disparidade competitiva e de crise política”. “Há que colocar esses quatro elementos juntos, porque a Europa não é uma nação, é uma união de países, e quando há uma crise cada país trata de proteger-se a si mesmo e não pensa nos outros”, sublinha o investidor nesta entrevista dada em sua casa, na costa Leste dos Estados Unidos.

É por isso que, no entender de Soros, a Alemanha tem de mudar de atitude em 180 graus. “Tem de fazer marcha atrás. Em 1989, a Alemanha disse que já não havia política externa alemã, que já só havia política externa europeia. Hoje diz precisamente o contrário, diz que não quer ser o mecenas da Europa”.

É devido a este cenário que George Soros se diz actualmente “muito pessimista em relação ao futuro do euro”. “Há um sério risco de que ocorra um acidente, ao estilo de Lehman Brothers. Mas o que é ainda pior é que se o acidente for evitado, e se for feito o mínimo para manter o euro unido, então a Europa que daí resultará será, quase seguramente, o contrário de uma sociedade aberta. E, nesse caso, o verdadeiro perigo é o de que a Europa fique permanentemente dividida entre credores e devedores. Aos primeiros, as coisas correrão sempre melhor do que aos segundos, porque estes têm de pagar juros muito mais elevados pelo capital e isso converte-se numa desvantagem permanente que ampliará as disparidades entre ambos”.

“Assim, a chamada periferia está permanentemente deprimida e dependente do centro, que ficará com todo o investimento e com todos os talentos, o que deixará a periferia permanentemente em crise. Esse é o destino com que se depara a Espanha e a Itália”, salienta o investidor.

A diferença em relação à Grande Depressão é o nível de dívida pública

Na sua opinião, há semelhanças mas também grandes diferenças entre a actual crise e a Grande Depressão dos anos 30. “Na Grande Depressão, os EUA tinham muito pouca dívida pública quando estoirou a crise, e desta vez os níveis de dívida pública eram bastante elevados”, diz.

“Se Keynes vivesse nesta época, não defenderia as mesmas políticas que recomendou no seu tempo, porque a sua análise partia do princípio de que havia uma deficiência da procura, que era possível suprir com gastos públicos e défice para se atingir o pleno emprego e, uma vez logrados esses resultados, tentar equilibrar o orçamento. Nesse âmbito, podia emitir-se dívida para esta se converter num estímulo contracíclico. Mas agora isso não é opção. A Europa tem um problema específico derivado da construção do euro. Por isso, a política actual vai ter que distinguir entre os estímulos que eventualmente se possam rentabilizar e as iniciativas se que destinam simplesmente a manter um nível de consumo que não é sustentável. Ou então não será possível manter um Estado Providência, especialmente na Europa”.

Sobre se aprendemos a lição com os erros do passado, Soros crê que não. “Lamentavelmente, estamos a repetir os mesmos erros que na Grande Depressão. Porque a ideia promovida pela Alemanha de que se pode reduzir a dívida com uma contracção do crescimento é não entender como funciona a economia. A dívida é um indicador que se mede em relação ao PIB. Quando se reduz o denominador, que é o PIB, o peso da dívida aumenta. É um erro básico que não se explica, especialmente por parte da Alemanha.

A Zona Euro é uma miniatura do sistema de Bretton Woods

“A Alemanha tornou-se a força dominante da Europa, devido ao peso da sua economia, mas há que comparar a situação da Zona Euro com o resto do sistema global. A Zona Euro é uma miniatura do sistema de Bretton Woods que se criou após a Segunda Guerra Mundial e que subordinava a periferia ao centro, sendo os EUA o centro desse sistema. Não era isso que Keynes queria, pois ele procurava um modelo mais equilibrado. Os Estados Unidos queriam manter o seu papel de potência dominante e ganharam direito à hegemonia graças ao Plano Marshall. Os EUA estavam dispostos a fazer alguns sacrifícios para revitalizarem a Europa com esse plano e durante muitos anos o sistema funcionou”, sublinha o multimilionário na entrevista ao jornal espanhol.

E continua: “A Alemanha emergiu agora como a economia mais forte da Europa e poderá ocupar o posto que ocuparam os EUA depois da guerra, mas para isso deveria preocupar-se com o bem-estar da periferia e não apenas com o seu próprio interesse nacional. E a Alemanha está a fracassar em dar resposta a essa oportunidade histórica. É essa a tragédia grega de hoje”.

"A Europa é um belo sonho"

No entender de George Soros, “a Europa é um belo sonho, um ideal muito inspirador. Mas está a tornar-se hoje em algo muito diferente dessa ideia, devido aos erros na introdução do euro e nas regras impostas pelos seus líderes”. E porquê? “Está a impor uma falsa ideologia, através do Tratado de Maastricht e de Lisboa. As autoridades, em vez de reconhecerem que todos cometemos erros e que, se se isso acontece, há que corrigi-los, insistem em continuar a impor regras que claramente não funcionam. “A situação, em vez de melhorar, continua a piorar cada vez mais. A Alemanha, que na prática está a ditar a política europeia, porque nas crises financeiras o credor é quem manda, está a fazer o mínimo para manter o euro unido e isso não é suficiente, por isso a situação está a piorar. Se estivesse disposta a fazer tudo o que há a fazer, o máximo, o cenário poderia começar a melhorar. Mas, para isso, tem que começar por reconhecer os erros cometidos”.

Soros recorda, nesta entrevista ao “El País”, que os Estados-membros do euro renunciaram a um direito próprio quando delegaram ao BCE a capacidade de imprimir dinheiro”. “Resultado: quando os Estados se endividaram, fizeram-no com uma moeda que não controlavam, tal como aconteceu nas crises dos países emergentes nos anos 80 e 90. Consequentemente, os mercados financeiros conseguiram forçar o incumprimento de alguns países do euro, algo que nunca acontece quando os países se endividam na sua própria moeda. Quando temos controlo sobre a nossa moeda, esta pode perder valor, provocar inflação… mas é sempre possível pagar…”

“Quando se introduziu o euro, os mercados declararam que as obrigações soberanas estavam livres de risco. Disseram que os bancos podiam comprar qualquer quantidade dessa dívida sem assumirem qualquer risco e, por isso, as entidades financeiras acumularam dívida dos países mais débeis, os da periferia, Espanha, Itália, Portugal… com o objectivo de ganharem mais alguns pontos base. Essa injecção de crédito criou uma grande expansão imobiliária em Espanha, por exemplo. Enquanto isso, a Alemanha, que estava na altura a assumir as dívidas da reunificação e que tinha muita dívida, teve de fazer ajustes orçamentais, adoptar reformas estruturais e eliminar durante anos os aumentos salariais, e isso tornou a Alemanha muito mais competitiva”, sublinha o investidor.

Ver comentários
Saber mais George Soros investidor
Outras Notícias