Empresas TdC: IAPMEI e AICEP falharam na detecção atempada de irregularidades em projectos do QREN

TdC: IAPMEI e AICEP falharam na detecção atempada de irregularidades em projectos do QREN

O IAPMEI e a AICEP falharam na detecção "em tempo oportuno" de irregularidades em projectos de investimento empresarial beneficiários de incentivos do QREN, "comprometendo a recuperação" das dívidas, conclui uma auditoria do Tribunal de Contas (TdC) divulgada esta segunda-feira.
TdC: IAPMEI e AICEP falharam na detecção atempada de irregularidades em projectos do QREN
Miguel Baltazar
Lusa 12 de março de 2018 às 10:09
"Na generalidade dos projectos analisados com propostas de rescisão contratual verificou-se que as irregularidades não foram detectadas em tempo oportuno, levando a que a constituição das respectivas dívidas se tivesse alongado no tempo, comprometendo a sua recuperação", lê-se no relatório do TdC que apreciou o desempenho das duas agências na gestão dos incentivos ao investimento às empresas no âmbito do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), no período 2007-2013.

Segundo conclui a auditoria, os valores por recuperar na Agência para a Competitividade e Inovação (IAPMEI) ascenderam a 107,1 milhões de euros, enquanto na Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) somaram 69,3 milhões de euros.

Valores que, refere, "representavam 63,1% e 74,5%, respectivamente, do valor das ordens de devolução emitidas".

De acordo com o TdC, a dotação final envolvida nos sistemas de incentivos comunitários correspondeu a 3.201,5 milhões de euros do FEDER (Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional), representando 15% do total dos fundos europeus associados ao QREN e 27,8% do total do FEDER.

Relativamente à AICEP, o TdC reporta ainda que a agência geriu entre 2009 e 2012 projectos de investimento de valor inferior a 25 milhões de euros apresentados por Pequenas e Médias Empresas (PME) quando estes "não se enquadravam no seu domínio de intervenção", já que o organismo "assegura o financiamento de projectos de especial relevância para a economia, em regra de valor superior a 25 milhões de euros cada".

No que se refere à análise das candidaturas, o Tribunal de Contas nota que, relativamente aos projectos enquadrados no Sistema de Incentivos Inovação e Sistema de Incentivos Qualificação PME, "a apreciação da valia técnica independente e especializada foi realizada" por "meios próprios" do IAPMEI e AICEP, "não estando previsto o recurso a peritos independentes".

Ainda referido pelo TdC é o facto de apenas estarem previstas verificações 'in loco' às operações por parte das duas agências na fase de encerramento do investimento, "o que era aceitável no período inicial, em que os adiantamentos eram concedidos às empresas mediante garantia bancária", mas deixou de o ser após 2009.

É que, explica, "as alterações ocorridas na norma de pagamentos, a partir de 2009, conduziram a uma menor exigência na concessão de incentivos, sem as correspondentes garantias bancárias, o que, aliado à inexistência de verificações 'in loco' intercalares às operações, se veio a traduzir num aumento significativo dos montantes por recuperar".

No que se refere aos procedimentos instituídos pelo IAPMEI para emissão da 'Certificação PME', o tribunal nota que este documento "não garante o estatuto dimensional do beneficiário senão no momento em que é emitido, não assegurando que os beneficiários mantenham as características de elegibilidade ao longo do ciclo de vida dos projectos".

Face a estas conclusões, o TdC recomenda que a Comissão Interministerial de Coordenação do Acordo de Parceria "promova a revisão da norma de pagamentos, prevendo as necessárias garantias em relação aos adiantamentos concedidos às empresas" e que a Agência para o Desenvolvimento e Coesão "zele pela existência de um sistema de recuperação de dívidas célere e eficaz".

Já às autoridades de gestão dos programas operacionais aconselha que "prevejam a intervenção de peritos habilitados na avaliação dos projectos" e que "assegurem que as verificações no local dos investimentos apoiados sejam também efectuadas ao longo da execução do projecto".

Recomenda ainda que estas autoridades "supervisionem o desempenho dos organismos intermédios", como o IAPMEI e a AICEP, na gestão e acompanhamento que fazem dos projetos, "em especial quanto aos montantes indevidamente pagos aos beneficiários, rastreando os montantes a recuperar, de modo a que a constituição das dívidas decorra de forma célere".

Quanto à AICEP e ao IAPMEI, aconselha que assegurem adequados sistemas de controlo interno "de forma a serem corrigidas, atempadamente, eventuais irregularidades".

Entre as irregularidades detectadas nos vários projectos analisados, o TdC refere um caso em que "o investimento havia sido deslocalizado para um concelho distinto do aprovado, não tendo tal facto sido comunicado ao IAPMEI", e outro em que "a AICEP ordenou pagamentos [...] com base em verificações meramente administrativas, sem que as facturas apresentadas comprovassem a efectiva prestação de bens e serviços".

Ainda referido é o caso de uma operação acompanhada pela AICEP que "não foi rescindida, apesar de não ter iniciado o investimento nos primeiros nove meses desde a comunicação da decisão de financiamento, o que é motivo de inelegibilidade".



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Em Overbooking...... 12.03.2018

Os socialistas descobriram a roda outra vez.........
aprovam os subsídios em overbooking........como as transportadoras aéreas fazem com a venda de bilhetes..........
Isto é o máximo.........a sorte é que os autarcas não fazem parte dos projectos senão era uma barracada descomunal!!!!

Anónimo 12.03.2018

O PR e PM devem ter em conta que o Frasquilho, e o futuro prof catedrático que se prepara para durante uns anos viver á custa do orçamento, estão de boa saúde, logo não tem alibi para deixar de ser julgados e presos. Chega de roubalheira e incompetência aja responsabilidade.

peter 12.03.2018

Que falharam todos sabemos, melhor já está negociado falhar. Quem é preso?

Rekorbp 12.03.2018

Eu penso que essas situações poderão ser chamadas de "corrupção", no qual individuos que trabalham nas instituições facilitam situações passando por cima de determinadas regras que não concordam se foi de forma voluntária ou com incentivos não sabemos cabe ao ministério publico averiguar bem como a P.J..Naturalmente essa é a base da evolução das leis sociais quando são feitas leis absurdas e ridiculas as coisas fazem-se pela porta do cavalo, mas nestes casos não me parece haver nenhum absurdo visto que seriam regras de segurança e avaliação que apresentavam as caracteristicas necessárias das empresas para entrega dos valores. Muitas talvez investidos em boa vontade outros com aproveitamentos ilegitimos e com o objectivo de burla, novamente cabe ao ministério publico averiguar e novamente a P.J. .Agora nada disto deveria passar sem ser limpo deveria ser tudo investigado para o bem do futuro dessas instituições e da propria economia.

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