Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Teixeira dos Santos defende Sócrates e culpa chumbo do PEC IV pelo resgate

Sócrates “tinha, correctamente, uma clara percepção” do que o pedido de ajuda iria representar para o país, disse Teixeira dos Santos, que em entrevista à TVI recordou os momentos mais marcantes que levaram ao pedido de ajuda externa e culpou.

Nuno Carregueiro nc@negocios.pt 26 de Junho de 2013 às 23:08
  • Assine já 1€/1 mês
  • 97
  • ...

Fernando Teixeira dos Santos concedeu na noite desta quarta-feira, à TVI, a primeira entrevista desde que deixou o cargo de ministro das Finanças, tendo recordado os momentos mais importantes do percurso que levou Portugal a solicitar um pedido de assistência financeira.

 

O antigo ministro das Finanças culpou o chumbo do PEC IV, que levou à queda do Governo, pelo pedido de resgate e não responsabilizou o seu primeiro-ministro pela demora no pedido de ajuda, apesar dos momentos tensos que os dois viveram na altura.

 

Lembrando que foi aprovado um Orçamento do Estado para 2011 muito “ousado”, com cortes nos salários, quando rebentou a crise na Grécia, Teixeira dos Santos revelou que Portugal tinha garantido o apoio do BCE e da Alemanha caso o país apresentasse um programa preventivo, que veio depois a resultar no PEC IV.

 

“Com o chamado PEC IV, teríamos o apoio do BCE no mercado secundário da dívida”, bem como o “apoio de uma grande potência”, disse Teixeira dos Santos, relatando um jantar a 2 de Março de 2011, com Angela Merkel, em que participou com Sócrates, onde a chanceler alemã terá garantido que Portugal seria o “tampão” na crise europeia.

 

Com o chumbo do PEC IV a 23 de Março de 2011, o Governo caiu após o pedido de demissão apresentado pelo primeiro-ministro. Teixeira dos Santos mostrou-se convencido que, com a aprovação do PEC IV, “teria sido evitado a sequência” de acontecimentos que levou a que o pedido de ajuda fosse inevitável, como foram as sucessivas reduções de rating à República Portuguesa e aos bancos do país.

 

O pedido de resgate

 

“A partir do momento em que se assistiu a cortes de rating e ao agravamento das taxas de juro no mercado, para mim começou a ser claro que a situação seria insustentável”, disse Teixeira dos Santos, citando a data 4 de Abril de 2011 (quando a Moodys cortou o “rating” de Portugal) como uma das mais relevantes.

 

“Alguma coisa tinha que ser feita. Tornou-se claro que não poderíamos assegurar o nosso financiamento no mercado”, disse Teixeira dos Santos, revelando a razão de ter dito ao Negócios, a 6 de Abril de 2011, que Portugal teria que solicitar assistência financeira. Estas declarações, que precipitaram o pedido de ajuda efectuado nessa noite, causaram mal-estar entre José Sócrates e o ex-ministro das Finanças, mas na entrevista que concedeu esta noite, Teixeira do Santos apenas deixou palavras positivas sobre a actuação do ex-primeiro-ministro.

 

“O primeiro-ministro reagiu sempre com uma grande intuição política perante este assunto” e “tinha, correctamente, uma clara percepção” do que o pedido de ajuda iria representar para o país. “Infelizmente o que temos vindo a viver é revelador disso mesmo”, disse Teixeira dos Santos, afirmando que Sócrates “reagiu e resistiu o mais que pôde” antes de chegar ao pedido de ajuda.

 

Reconhecendo que na altura Sócrates estava “muito, muito resistente ao pedido de ajuda”, Teixeira dos Santos afirmou que a uma determinada altura “ele próprio já estava convencido que não valia a pena resistir mais”.

 

Sobre a decisão de ter decidido conceder as declarações ao Negócios que precipitaram o pedido de ajuda, Teixeira dos Santos entendeu que “tinha um dever de grande lealdade para comigo e com o país, e entendo que estávamos no momento que exigia uma tomada de posição clara”. Isto porque no dia seguinte decorreria uma reunião dos ministros das Finanças da União Europeia, em Budapeste, e Portugal corria o risco “humilhante” de “levar vários puxões de orelhas” sendo obrigado a assumir o “compromisso de pedir ajuda”.

 

Ainda assim, Teixeira dos Santos compreende que Sócrates não tenha gostado da declaração que fez ao Negócios, recusando contudo que se tenha tratado de uma traição. “Posso compreender que não tenha gostado. Isso fez-se sentir naqueles dias”. Mas “não deixamos de cumprir as nossas obrigações” e “continuei a negociar com a troika”. E essas divergências não foram públicas, “como são as dissensões que vemos agora no governo”.

 

“Não quero ter essa vaidade de dizer que fui eu que dei o empurrão ao primeiro-ministro” para o pedido de ajuda. “Tinha que ser leal comigo próprio e com o país”, que “não podia encarar os desafios que tinha pela frente sem esse pedido de ajuda”, reiterou.

 

Considerando que a situação com Sócrates foi “passageira” e um “episódio” que decorreu quando “tínhamos as emoções muito vivas”, Teixeira dos Santos revelou que “não ficamos de relações cortadas” e ambos mantêm conversas regulares.

 

Na entrevista à TVI, Teixeira dos Santos revelou ainda que se o PEC IV tivesse sido aprovado, iria arrancar com as preparações do Orçamento do Estado para 2012, mas “não aguentaria muito mais tempo” no governo. “Fui o ministro que, em 60 anos, mais tempo esteve nesta pasta e num período difícil e tenso”, pelo que era a “altura de refrescar a equipa”.

 

Ver comentários
Saber mais Teixeira dos Santos Sócrates PEC IV
Outras Notícias