Política Trigo Pereira rompe com o PS mas continua no Parlamento

Trigo Pereira rompe com o PS mas continua no Parlamento

O deputado independente eleito pelas listas do PS atingiu um ponto de ruptura em relação à bancada parlamentar socialista, apurou o Negócios. Paulo Trigo Pereira abandona a bancada socialista, mas mantém-se como deputado na Assembleia da República.
Trigo Pereira rompe com o PS mas continua no Parlamento

A difícil relação entre Paulo Trigo Pereira e o restante grupo parlamentar do PS chegou ao fim, apurou o Negócios junto de fontes conhecedoras do processo.

Contactado pelo Negócios, o professor catedrático do ISEG que foi eleito em 2015 pelas listas do PS no círculo de Setúbal não confirmou nem desmentiu o rompimento com o PS. Posteriormente divulgou um comunicado em que confirma a saída da bancada parlamentar socialista e a manutenção como deputado "não-inscrito" na Assembleia da República. 

Na nota enviada às redacções, o deputado faz referência a um "afastamento mútuo" entre ele próprio e a direcção do grupo parlamentar para justificar a decisão. "Acontece que, particularmente nos últimos dois anos, a atitude do governo perante o grupo parlamentar do PS (GPPS) tornou-se mais paternalista (vidé todo o processo da descentralização), e os meus votos 'desalinhados', mas justificados em declarações, levaram a um afastamento mútuo entre mim e a direcção do GPPS."

O economista deixa também de ser vice-presidente da Comissão de Orçamento e Finanças (COFMA) uma vez que este cargo lhe fora atribuído enquanto deputado inscrito no grupo parlamentar do PS. O facto de nos debates relativos ao Orçamento do Estado para 2019 e ao Programa de Estabilidade a direcção liderada por César não lhe ter dado palavra em plenário mesmo sendo vice-presidente da COFMA também contribuiu para este afastamento, explica.


Trigo Pereira vai continuar a acompanhar o sentido de voto dos socialistas nas questões previstas no programa eleitoral do PS. O deputado revelou que esta decisão foi comunicada ainda na quinta-feira ao primeiro-ministro e secretário-geral socialista, António Costa, e ao presidente do PS e líder da bancada, Carlos César. O docente acrescenta ainda ter já entregado uma carta ao presidente da Assembleia da República, o também socialista Ferro Rodrigues, "no sentido de dar inicio ao processo de saída do GPPS e à transição para deputado 'não-inscrito'".


De acordo com as informações recolhidas pelo Negócios, a decisão de abandonar a bancada socialista e mesmo assim cumprir a legislatura para a qual foi eleito não caiu bem junto da direcção liderada por César. 

Uma relação sempre conturbada

Ao longo dos mais de três anos que leva a actual legislatura, foram vários os casos de dessintonia entre o docente e a liderança da bancada socialista. De tal forma que além das situações em que Trigo Pereira votou desalinhado face aos outros deputados socialistas, tornaram-se habituais os pedidos de declaração de voto quando o sentido de voto do economista acompanhava o resto do grupo parlamentar.

Um exemplo recente desta dissonância verificou-se quando os deputados do PS rejeitaram aprovar um conjunto de propostas de alteração aos Orçamento do Estado na área da habitação que foram apresentadas por Helena Roseta, também deputada independente eleita nas listas socialistas. Nessa ocasião, Trigo Pereira apresentou uma declaração de voto em que declarava apoio às medidas apresentadas por Roseta, frisando que apenas votou contra as mesmas no cumprimento da disciplina de voto imposta pela bancada do PS. 

No entanto, a gota de água estará relacionada com a forma como o PS está a gerir a questão do reforço da transparência na actividade política e parlamentar. Trigo Pereira é um defensor da importância de credibilizar a acção política e, há precisamente um ano, lançou uma página com o objectivo de tornar o trabalho dos deputados o mais "transparente possível"

Face à dificuldade da Comissão Eventual para o Reforço da Transparência no Exercício de Funções Públicas em legislar sobre questões como o enriquecimento ilícito ou o código de conduta dos deputados, o que levou a novo prorrogar do prazo para Março de 2019, Trigo Pereira defendeu que "se a montanha parir um rato no final disto tudo, é o descrédito total junto da opinião pública".

Em Outubro deste ano, numa entrevista ao Público e à Renascença, afirmou que "trabalha-se pouco no Parlamento". 


(Notícia actualizada às 20:40 com comunicado de Trigo Pereira)




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