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Um quarto dos trabalhadores teve corte salarial em 2012

Governo garante que o FMI sabia que os dados que publicou eram parciais, uma posição que o fundo não comenta. Executivo continua sem explicar porque excluiu da base de dados enviada ao FMI informação que dá conta de que 27% dos trabalhadores por conta de outrem – e não apenas 7% – sofreram cortes salariais em 2012.

Bruno Simão/Negócios
Rui Peres Jorge rpjorge@negocios.pt 29 de Agosto de 2013 às 00:01
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O Governo atribui ao FMI a responsabilidade pela publicação de informação parcial sobre os cortes salariais que ocorreram em Portugal em 2012. E garante que, depois de terem saído os gráficos no memorando da sétima avaliação, enviou informação já completa ao FMI. Esses dados davam conta de que 27% dos trabalhadores por conta de outrem sofreram cortes salariais entre 2011 e 2012. Um valor substancialmente acima dos 7% que foram oficialmente publicados, tal como o Negócios avançou ontem.

Numa reacção geral à notícia avançada esta quarta-feira pelo Negócios, o ministério liderado por Pedro Mota Soares defendeu-se dizendo que não escamoteou informação: o FMI recebeu exactamente aquilo que pediu e sabia o que tinha entre mãos. Mas continua a não explicar porque é que enviou dados incompletos ao Fundo para a sétima avaliação, que permitiram dar lastro à tese de que em Portugal os salários não se ajustam à crise como deviam.

Tal como o Negócios avançou na edição desta quarta-feira, o FMI publicou em Junho dados sobre variações salariais em 2012 dizendo que os cálculos tinham sido feitos com base numa amostra (observações de 18.600 salários) que, afinal foi encurtada. A consequência desta amputação é que os resultados só traduziram uma realidade parcial, escondendo que cerca de 25% dos trabalhadores por conta de outrem terão sofrido cortes salariais em 2012.

Os gráficos incluídos no relatório da sétima avaliação, de Junho, evidenciavam apenas um crescimento significativo de salários estagnados (cerca de 45% do total), o que serviu para o FMI defender a existência de uma acentuada inflexibilidade salarial, traduzida também num aumento do desemprego. O FMI garantiu ao Negócios que publicou os dados como os recebeu, mas não chegou a referir se sabia da amputação da amostra.

A notícia mereceu reacção do Executivo ontem pela hora de almoço: "No caso dos dados fornecidos ao FMI estes corresponderam exactamente ao que foi solicitado por esta entidade", lê-se num comunicado enviado às redacções por Pedro Mota Soares. O ministro acrescentou que se tratava de "dados parciais" o que "era do conhecimento do FMI". Embora reconheça que a informação é "parcial", o Governo recusa que tenha "escamoteado" quaisquer dados. Apesar da insistência do Negócios, continuou sem explicar porque enviou um documento onde faltava quase um quarto dos contratos que o próprio ficheiro dizia ter e representar (a maior parte com variações negativas).

Fonte governamental garantiu entretanto ao Negócios que no final de Junho, já após a publicação do relatório do FMI, terá sido enviado à instituição internacional a base de dados completa, mas recusou-se, uma vez mais, a partilhar essa informação. Avançou contudo que, considerando a amostra completa, 27% dos trabalhadores por conta de outrem sofreram cortes salariais em 2012.

Washington mantém necessidade de cortes salariais

O Negócios sabe que o FMI não gostou da polémica, mas desvalorizou o sucedido e as acusações do Governo, e manteve o diagnóstico de necessidade mais flexibilidade em Portugal. Num comunicado enviado às redacções no final do dia, o Fundo reconheceu estar a rever a qualidade e completude da base de dados, mas em todo o caso argumentou que os dados das actualizações salariais são apenas um dos factores que contribuíram para a sua recomendação de mais flexibilidade salarial.

 

A flexibilidade salarial tem criado nos tempos mais recentes tensão entre o Governo e a troika. Do lado de Lisboa, e após os esforços dos últimos anos, considera-se não haver margem para cortes nominais de salários.

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