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Um subcontinente em chamas

Uma vaga de protestos varreu a América do Sul. Os governos do Chile e do Equador tremeram e recuaram. A Bolívia saiu ainda mais dividida das eleições e Argentina e Colômbia vão a votos no domingo.

Manuel Esteves mesteves@negocios.pt 26 de Outubro de 2019 às 12:54
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A América do Sul está em polvorosa. À extenuada e dividida Venezuela e à atormentada e militarizada Colômbia juntam-se agora muitos outros países. A Bolívia foi a votos dividida e saiu de lá bem pior.

Os argentinos mostraram o cartão amarelo ao governo de Macri em agosto e neste domingo poderão mostrar-lhe o vermelho. Os colombianos vão eleger os seus representantes locais no meio de uma campanha sangrenta.

No Equador e no Chile, os governos cedem perante a pressão popular e o Peru vai para eleições submerso numa crise institucional gravíssima.  

Equador

Equador
Indígenas fazem vergar Moreno

A braços com uma crise económica e um problema de financiamento, o governo liderado por Lenin Moreno pediu um empréstimo ao FMI que, em troca, exigiu as habituais medidas de austeridade orçamental. O corte nos subsídios aos combustíveis acabou por ser a gota de água que fez transbordar o copo da contestação social, liderada pelas comunidades indígenas. Os protestos foram muito violentos e acompanhados por saques e vandalismo e resultaram em vários mortos, centenas de feridos e muitos detidos. O governo acabou por recuar assinando um acordo com os líderes das comunidades indígenas, mas a situação permanece tensa.

Peru

Peru

Conflito institucional leva a novas eleições  

O Peru viveu uma crise institucional gravíssima e aguarda eleições. Martin Vizcarra, eleito Presidente em 2018, entrou em rutura com o Parlamento. Na origem do conflito está a nomeação de seis dos sete juízes do Constitucional que teriam de ser substituídos por parte do Parlamento e que o Presidente queria tornar mais transparente. Confrontado com a recusa dos deputados em aceitar as mudanças propostas, o Presidente - que era vice de Kuczynski que se demitiu depois se ver envolvido num caso de corrupção da Odebrecht - dissolveu o Parlamento. Este ripostou, acionando um mecanismo para o afastar e colocar no seu lugar a vice-presidente, mas esta ao fim de três dias decidiu renunciar. As eleições legislativas realizam-se em janeiro. 

Chile

Chile

18 mortos depois, Presidente Piñera recua

Se no Equador foi a supressão dos apoios aos combustíveis que espoletou os protestos, no Chile foi o aumento das tarifas do metro em Salvador. Mas tal como no Equador, também aqui o descontentamento tem raízes mais profundas.

Décadas de políticas neoliberais de privatização da Segurança Social e do ensino têm suscitado uma resistência crescente de segmentos importantes da população, que apontam o dedo ao agravamento das desigualdades no país. Depois de seis dias de protestos violentos e 18 mortos, o Presidente Sebastián Piñera pediu desculpa aos chilenos, recuou no aumento das tarifas do metropolitano e apresentou novos apoios sociais.

Um país à beira do precipício

A Venezuela vive há vários anos em crise profunda. Milhões já saíram de um país profundamente dividido entre os apoiantes da revolução bolivariana iniciada por Chávez e a fragmentada oposição liderada por Guaidó. Numa economia muito dependente da exportação de petróleo, a queda do preço do crude revelou-se fatal. O país entrou em recessão, os preços dispararam e há relatos dramáticos de falta de bens básicos. Maduro iniciou o seu segundo mandato em 2018 após umas eleições cujos resultados não foram reconhecidos por grande parte da comunidade internacional.

Um país debaixo dos escombros da guerra

O principal problema da Colômbia é bem antigo e diz respeito à violência, em grande parte fruto da guerra civil travada com poderosas guerrilhas, em particular as FARC. Em plena campanha eleitoral para as eleições regionais e locais, que se realizam este domingo, o país tem testemunhado um aumento da violência, com um balanço trágico em meados deste mês: sete candidatos assassinados; oito vítimas de atentados; um sequestrado e mais de 50 vítimas de ameaças, segundo um levantamento da Missão de Observação Eleitoral. O histórico acordo de paz com as FARC está tremido e o país está muito pressionado pela onda de imigrantes vindos da Venezuela. 

Governo decreta estado de emergência

Os bolivianos foram chamados às urnas no passado dia 20 de outubro. As sondagens davam a vitória a Evo Morales, o governante mais antigo do continente (desde 2006), mas sem maioria absoluta. Apesar da polarização política no país, a situação era pacífica. No entanto, a suspensão súbita da contagem de votos quando estavam apurados 84% dos boletins de voto à qual se seguiu a vitória com maioria absoluta de Morales levantou acusações de fraude eleitoral, seguindo-se confrontos violentos. A Organização dos Estados Americanos (OEA) aceitou auditar a contagem, mas entretanto o governo decretou o estado de emergência denunciando uma tentativa de golpe de Estado. 

Eleições de domingo ameaçam Macri

A Argentina vai ter eleições este domingo e tudo indica que Cristina Kirchner, que liderou o país entre 2007 e 2015, voltará ao poder. Não como presidente, mas como número dois de Alberto Fernández, um político que assume um estilo mais moderado e que tem conseguido recuperar apoios perdidos pela antiga Presidente. A Argentina atravessa uma nova crise, com a economia a recuar, a inflação a disparar e o desemprego em dois dígitos. Maurício Macri pediu um empréstimo de 56 mil milhões de dólares ao FMI e as medidas de austeridade somadas ao aumento da pobreza e do desemprego aprofundaram ainda mais o desgaste da sua imagem junto da opinião pública.
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