Zona Euro Varoufakis: Eurogrupo é “totalmente controlado” pelo ministro alemão das Finanças

Varoufakis: Eurogrupo é “totalmente controlado” pelo ministro alemão das Finanças

Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças da Grécia, não poupa críticas ao Eurogrupo – uma orquestra muito bem afinada, que tem como maestro o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble. O ex-governante acusa os antigos homólogos de não quererem negociar e de não terem dado alternativa à Grécia.
Varoufakis: Eurogrupo é “totalmente controlado” pelo ministro alemão das Finanças
Bloomberg
Rita Faria 13 de julho de 2015 às 15:09

Numa entrevista à revista New Statesman – a primeira desde que se demitiu do cargo de ministro das Finanças da Grécia – Yanis Varoufakis confessa sentir-se "no topo do mundo" e "aliviado" por já não ter de negociar com os credores internacionais.

"Estou a sentir-me no topo do mundo – já não tenho que viver com aquele calendário agitado, que era absolutamente desumano, simplesmente inacreditável. Andei a dormir duas horas por noite durante cinco meses", contou o antigo ministro das Finanças. "Também estou aliviado por não ter de suportar a incrível pressão para negociar uma posição que eu acho difícil de defender".

O ex-governante aponta o dedo à "completa falta de escrúpulos democráticos" dos "supostos defensores da democracia na Europa" e conta que, muitas vezes, durante as negociações, sentiu que estavam todos do mesmo lado. Mas, ainda assim, a atitude dos parceiros do euro era intransigente. "Olhavam-te nos olhos e diziam ‘tens razão nos que estás a dizer, mas vamos esmagar-te de qualquer forma’", relata Varoufakis.

"Invocas um argumento em que trabalhaste muito – para te certificares que é logicamente coerente – e és confrontado com olhares vazios. É como se não tivesses falado. O que dizes é independente do que eles dizem. Podias muito bem ter cantado o hino nacional sueco, e a resposta era a mesma", exemplifica Yanis Varoufakis. "Não houve envolvimento de todo".

O antigo ministro das Finanças, que se demitiu do cargo depois do referendo de 5 de Julho, explicou, na mesma entrevista, que as negociações se prolongaram até ao verão porque "não houve alternativa". "O nosso governo foi eleito com um mandato para negociar. O nosso primeiro mandato era para criar espaço e tempo para negociar e alcançar um acordo", afirma Varoufakis. No entanto, as conversações prolongaram-se porque "o outro lado recusou-se a negociar".

"Eles insistiram num acordo abrangente, o que significava que queriam falar sobre tudo. A minha interpretação é que quando queres falar sobre tudo, não queres falar sobre nada", critica o ex-governante.

Varoufakis não poupa críticas ao Eurogrupo, um "grupo não-existente que tem o poder de determinar a vida dos europeus" e que, na sua opinião, é controlado pelo ministro das Finanças da Alemanha.

O Eurogrupo "não é responsável perante ninguém, dado que não existe na lei" e toma decisões "de quase a vida ou morte, e nenhum membro tem que responder perante ninguém". Além disso, acrescenta o ex-ministro,  é "totalmente controlado pelo ministro das Finanças da Alemanha". "É como uma orquestra muito bem afinada, e ele é o maestro. Tudo acontece em sintonia", acrescenta.

"Só o ministro das Finanças francês fez ruídos diferentes da linha alemã, e foram ruídos muito subtis. Sentia-se que ele tinha que usar uma linguagem muito criteriosa, para não ser visto como oponente", conta Varoufakis.

Países resgatados foram os mais "enérgicos inimigos" do nosso governo

Varoufakis admite que, entre os 19 estados da Zona Euro, os países resgatados foram os mais "enérgicos inimigos" do seu governo, porque o sucesso da Grécia seria "o seu pior pesadelo". "Desde o início, esses países em particular deixaram bem claro que eram os mais enérgicos inimigos do nosso governo", sublinha. "E a razão, claro, é que o seu maior pesadelo era o nosso sucesso".

O economista disse ainda que sempre teve uma boa relação com partidos como o Podemos, ainda que a sua voz fosse incapaz de penetrar no Eurogrupo. Varoufakis sublinha que, "na verdade, quanto mais eles falassem a nosso favor", mais o ministro das Finanças desse país se virava conta nós.   

Questionado sobre se houve preparativos para uma saída da Grécia da Zona Euro, Varoufakis responde que "sim e não". O antigo membro do governo conta que, no ministério das Finanças, existia um pequeno grupo de quatro ou cinco pessoas – que apelida de "gabinete de guerra" – que estudou, em teoria, tudo o que teria de ser feito se o país abandonasse a Zona Euro. "Mas uma coisa é fazê-lo entre quatro ou cinco pessoas, outra coisa é preparar o país para isso. Para preparar o país, teria de ser tomada uma decisão, e essa decisão nunca aconteceu", explicou.

 




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