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Nicósia: Às voltas com um estranho horário de trabalho

Bruno Benavente é português mas vivia em Timor-Leste antes de partir com a família para o Chipre. Tem Austrália no horizonte, mas antes disso deverá passar por África. O regresso não está na sua agenda.

Negócios 27 de Fevereiro de 2013 às 23:30
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Longe de saber que esta seria a "melhor decisão" da sua vida, Bruno Benavente sai de Portugal ainda estudante no ano de 2006. Estava a terminar a licenciatura quando surgiu a possibilidade de fazer um estágio em Timor-Leste. Apanhado de surpresa, "troca informações" com alguns professores que conheciam o país, e resolve candidatar-se. Acaba por ser seleccionado e chega a Timor em agosto de 2006. Encontra um país em reconstrução "onde existia muito pouca coisa", um país muito diferente daquilo que tinha imaginado. Bruno recorda que encontrou um país "simples, com muitas limitações em infra-estruturas". Quando chegou a Timor ficou no distrito de Aileu, onde não tinha nem electricidade nem água canalizada. Recorda que a primeira impressão "foi de choque, mas rapidamente tudo foi superado".


Quando saiu de Portugal tinha a certeza que esta experiência tinha um objectivo meramente profissional que era dar-lhe "currículo para depois facilitar a integração profissional" quando regressasse ao nosso país. No entanto, uma semana depois de ter chegado, já lhe diziam "que achavam" que ele não se viria embora porque "já estava demasiado à vontade" para quem lá estava apenas há uma semana. Passadas algumas semanas, conheceu "uma moça" o que viria a "mudar tudo muito rapidamente": apaixonou-se, casou-se e, apesar de adorar Timor-Leste, em conjunto decidiram que dali a "cinco meses" iriam para o Afeganistão. Mas a vida trocou-lhes as voltas - depois do casamento nasce a primeira filha, depois a segunda e ainda uma terceira.

 

Além disso, a esta sucessão de acontecimentos pessoais, juntaram-se novas oportunidades com boas condições de trabalho e de vida, que permitiram "conhecer pessoas espectaculares e fazer bons amigos" o que, aliado a um ambiente excelente para ter crianças, "resultou na decisão" de ficarem vários anos em Timor.


Com o ano de 2011 a chegar ao fim, esta família (ele português, ela australiana) decide que o capítulo Timor-Leste está escrito, e assume que está na altura de mudar. Dão início à procura de oportunidades de trabalho em África - "uma vontade antiga" que o Bruno não sabe explicar. Mas a vida "volta a trocar-lhes as voltas" quando a esposa do Bruno recebe um convite da missão das Nações Unidas no Chipre, o que foi "o bilhete de saída" de Timor para esta família.

 

A aventura no Chipre começa em Março de 2012 na cidade de Nicósia. Bruno descreve
"uma cidade bonita, com muita história e duas culturas" já que Nicósia é a única capital europeia que está dividida em duas partes: a norte a parte turca, e a sul a parte grega.


Em Dezembro do ano passado, quando conversamos na Antena 1, o Bruno contava que, nove meses depois da chegada, já estavam razoavelmente integrados e habituados às rotinas cipriotas. No entanto, contou no início não foi nada fácil. Um exemplo das dificuldades foi o horário de trabalho: "começa-se a trabalhar às 07h30 e por volta das 15h30 está tudo terminado". No que toca aos serviços, "está tudo fechado" da parte da tarde e aos domingos é a mesma coisa. E durante semanas a fio, às quartas-feiras fizeram visitas ao supermercado "que não resultaram em nada, porque o supermercado estava fechado".


Após seis anos num país em desenvolvimento, Bruno confessa que no Chipre tiveram de "reaprender" a viver num país desenvolvido e dá como exemplo a compra de iogurte: "uma visita ao supermercado resultava na compra de três ou quatro embalagens de quilo de iogurte" porque em "Timor podia não haver iogurte durante três ou quatro meses", levando a que comprassem grandes quantidades para ter em stock.


Pai a tempo inteiro, Bruno Benavente trabalha a partir de casa e continua ligado à Cardno Emerging Markets, a empresa onde trabalhava em Timor-Leste. Este ribatejano faz consultoria na área da agricultura e dá apoio ao projecto com a "tradução e revisão de manuais práticos, relatórios e informação para ser distribuída pelos agricultores timorenses em tétum".


Quanto ao futuro, o Bruno afirma que, apesar de não saberem ainda como será o amanhã, "não tem ideia de voltar a Portugal tão cedo", isto apesar da esposa, australiana, achar que se um dia tiverem de escolher um país para assentar arraiais, esse país "será Portugal". Curiosamente, Bruno aponta a bússola para a Austrália. Mas antes de tomarem essa decisão, esta família ainda deverá passar por África. Bruno não sabe bem explicar porquê, mas sempre vai dizendo que África "chama" por eles e, provavelmente ainda durante este ano, tentarão rumar ao continente africano para assim acumular o máximo de experiências enquanto "as crianças são pequenas e deixam".


Uma experiência enriquecedora, repleta de "novas cores e novas culturas", é o balanço de Bruno Benavente que vai mais longe ao afirmar que, "olhando para trás, não mudaria nada". Recorda que quando saiu de Portugal em 2006, achava que esta experiência "era uma pequena loucura" e que o que iria fazer "era um estágio e depois" regressaria a Portugal. Hoje diz que "foi a melhor decisão" que tomou na vida e que "transformou num homem o miúdo que queria viajar".

 

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