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Pedro Lains: "Adesão à CEE foi mais relevante para a economia que o 25 de Abril"

O investigador do Instituto de Ciências Sociais explica que o que domina a evolução da economia portuguesa são os ciclos internacionais. E esse é um dos motivos para não acreditar na estratégia da troika.

Miguel Baltazar/Negócios
Nuno Aguiar naguiar@negocios.pt 23 de Abril de 2014 às 00:03
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Pedro Lains destaca a importância dos avanços políticos e sociais alcançados com o 25 de Abril, mas sublinha que a economia portuguesa foi sempre mais permeável à conjuntura externa do que a mudanças internas. E a actual intervenção da troika? O investigador do Instituto de Ciências Sociais e um dos autores da "Histórica Económica de Portugal" diz que o ajustamento dificilmente deixará legado de transformações estruturais.

Uma das características do Estado Novo foi uma obsessão com o equilíbrio das contas públicas. Isso foi conseguido à custa do desenvolvimento do País?

As contas públicas durante o período do Estado Novo entre a II Guerra Mundial e 1972 estavam equilibradas, mas havia também alguns truques, como registar empréstimos como receitas, por exemplo... E a verdade é que antes da ditadura as contas já estavam equilibradas e o País estava a crescer. No entanto, durante o Estado Novo houve não só contas equilibradas, como investimento público, embora com as limitações de um país pobre. Há o mito que o Estado Novo seguiu uma política de baixos salários, mas isso deveu-se principalmente ao atraso do País.

Olhando para a estrutura da economia portuguesa, observa-se uma redução significativa do peso da indústria entre 1973 e os dias de hoje. Foi uma das principais alterações no pós-25 de Abril?

As alterações na economia estão essencialmente relacionadas com o modelo de crescimento e observam-se um pouco por toda a Europa. Até 1973, houve um declínio da agricultura, ao mesmo tempo que indústria e serviços cresciam. Na década de 80, a agricultura continuou em declínio e a indústria iniciou também esse movimento, enquanto os serviços continuaram a crescer. Dos anos 90 para a frente, o crescimento veio dos serviços. Quando se fala hoje em dia em reindustrialização do País, isso não faz sentido. A política económica pode proteger alguns sectores, mas o futuro do crescimento económico está nos serviços. Basta olhar para os outros países europeus.

Que sectores cresceram mais durante o período do Estado Novo?

As transformações foram de tal ordem que houve muitas alterações. A indústria do têxtil, vestuário e calçado foi provavelmente aquela que mais se desenvolveu, principalmente desde a criação da EFTA. Outras, como a siderurgia, construção naval, químicos e cimentos beneficiaram de protecção estatal, com legislação específica e licenciamentos directos. Sem a intervenção do Estado, não teriam tido este desenvolvimento.

Hoje fala-se em emagrecer o Estado...

Às vezes o Estado comete erros, mas a experiência do século XX mostra que a intervenção do Estado foi positiva em Portugal.

Diria que o 25 de Abril trouxe alterações estruturais à economia?

São muito poucos os fenómenos da História com impactos profundos na História da economia. Por isso é que a transformação estrutural não está a acontecer com a troika. Apesar das grandes alterações trazidas pelo 25 de Abril, a adesão à CEE foi mais relevante para a economia. Tal como, num sentido negativo, foi mais "importante" a crise do petróleo de 1973. A economia portuguesa foi e continua a ser mais susceptível a choques externos do que a alterações de política interna. Por isso é que este Governo devia ter ficado de braços cruzados em vez de estar a seguir esta estratégia. Muitas pessoas ainda não perceberam como as coisas vão evoluir rapidamente assim que a economia europeia volte a arrancar.

O 25 de Abril trouxe essencialmente alterações sociais e políticas e não tanto económicas?

O 25 de Abril trouxe várias transformações políticas e sociais, além, claro, do processo de descolonização. E há ainda os choques indirectos da democracia. Mas para avaliar esse impacto seria preciso imaginar como teria sido a evolução da economia em ditadura. Essa comparação é absurda. A economia portuguesa seguiu o seu rumo, independentemente da política. O que dominou e domina a evolução da economia portuguesa são os ciclos internacionais. É uma economia pequena e aberta. Essa íntima relação é uma das lições da História Económica.

Hoje continuamos a ser o mesmo País pobre que persegue o resto da Europa?

Houve uma parte desse atraso que foi recuperado. Fomos o País europeu que mais cresceu no século XX. Mas a recuperação desse atraso ocorre em momentos de crescimento económico, não em contracção.

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