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Bruxelas "muito preocupada" com incidentes na fronteira entre Grécia e Macedónia  

O número de migrantes que avoluma na Grécia provocou confrontos na última noite com as autoridades da Macedónia. A UE mostra-se "muito preocupada" com a situação e Alexis Tsipras garante que a Grécia está a ficar sobrecarregada.

Reuters
David Santiago dsantiago@negocios.pt 01 de Março de 2016 às 15:06
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Há um novo incidente a marcar as já longas, e sem fim à vista, crises dos migrantes e dos refugiados. Na última madrugada, as autoridades da Macedónia recorreram ao lançamento de gás lacrimogénio contra as centenas de migrantes que tentaram atravessar as barreiras de arame farpado que separam o território grego e macedónio.

 

O incidente aconteceu no posto fronteiriço de Idomeni e envolveu cerca de 300 migrantes sírios que tentaram à força prosseguir a rota dos Balcãs. A Comissão Europeia já se pronunciou, na manhã desta terça-feira, 1 de Março, garantindo estar "muito preocupada" com os mais recentes desenvolvimentos. Nesta altura serão mais de oito mil os migrantes e refugiados em Idomeni, zona onde o campo de acolhimento de refugiados preparado pelas autoridades helénicas tem capacidade para menos de duas mil pessoas.

O agravar da situação no norte da Grécia, junto à fronteira com a Macedónia, um país que não pertence à União Europeia (UE), acontece na semana seguinte a, numa reunião entre 10 Estados dos Balcãs, terem sido decididas medidas de controlo do fluxo de migrantes que tentam chegar aos países da Europa Central e do Norte. A Grécia não foi convidada a participar nessa reunião preparada pela Áustria e, como retaliação, mandou regressar a casa o embaixador grego em Viena.

 

Neste momento é já superior a sete mil o número de migrantes que se encontram "presos" na Grécia, impedidos de rumar a Norte depois de, na semana passada, a Macedónia e a Sérvia terem decidido limitar o número de entradas possíveis de migrantes nos seus territórios. Atenas já avisou para as consequências das decisões "unilaterais" dos Estados-membros da UE e voltou a ameaçar bloquear as decisões ao nível comunitário caso Bruxelas não apoie o país a lidar com o crescendo de requerentes de asilo que chegam ao país.

 

Segundo Atenas, estão actualmente em torno de 22 mil requerentes de asilo em solo grego, mas esse número poderá rapidamente aumentar para cerca de 70 mil ainda este mês de Março. "Estamos a passar pela maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra", disse Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego, em entrevista à Greek Star TV, acrescentando que "o problema ultrapassa os poderes do país, a capacidade do Governo e a inata fraqueza da UE".

Grécia a caminho de ser uma "selva gigante"

 

A Grécia tornou-se em 2015 na principal porta de entrada dos migrantes que escapam aos conflitos e pobreza nos seus países de origem, designadamente no Médio Oriente e África. Foram mais de 900 mil os migrantes que chegaram às costas helénicas, na sua maioria sírios e iraquianos. Entrando na Europa através da Turquia, chegam depois via marítima às porosas e difíceis de controlar costas gregas. É então que rumam a norte, entrando na Macedónia para depois continuarem o caminho para países como a Alemanha e a Suécia, os Estados que mais requerentes de asilo estão a receber.

Desde o início de 2016 já chegaram à Grécia e a Itália mais de 100 mil migrantes e refugiados, sendo que mais de 90 mil às ilhas gregas, mostram os dados mais recentes da Organização Internacional das Migrações (OIM). neste período também morreram mais de 400 migrantes ao largo do Mar Mediterrâneo e do Mar Egeu, através dos quais os migrantes tentam chegar às ilhas helénicas mais próximas da Turquia e à ilha italiana de Lampedusa.

Há desde há vários meses uma tendência para que muitos países adoptem individual e separadamente medidas de restrição à entrada de migrantes. Os países do grupo de Visegrado (Hungria, Eslováquia, República Checa e Polónia) têm-se afirmado como os menos disponíveis a entrar no programa comunitário de distribuição e acolhimentos de refugiados. E são também estes países que têm aplicado medidas efectivas de controlo e encerramento das suas fronteiras de forma a impedir a chegada de migrantes. Na semana passada, além da Áustria, também a Croácia e a Eslovénia decidiram impor novas restrições.

Entretanto, numa entrevista concedida à revista germânica Der Spiegel, citada pela Euronews, o presidente da República da Macedónia, Gjorge Ivanov, avisou ainda que a rota dos Balcãs ficará definitivamente encerrada logo que a Áustria atinja o limite de 37.500 entradas de migrantes definida para este ano. Além deste limite, Viena também estipulou em 80 o número máximo de entradas diárias de requerentes de asilo.

Ora, se tal se vier a verificar como, aliás, parece provável tendo em conta o incessante fluxo de migrantes e refugiados que diariamente chegam às expostas costas gregas, a Grécia ficará ainda em piores lençóis para gerir o problema. Isto depois de o país ter sido ameaçado com a expulsão do espaço Schengen devido à incapacidade para gerir com eficácia a entrada de refugiados.

Por outro lado, este encerramento das fronteiras europeias a norte da Grécia poderá fazer com que o país se torne numa espécie de "Calais gigante", dado que tal como acontece em França também em solo grego os migrantes poderão ficar impedidos de continuar o seu percurso. Até porque voltar para trás não é, por norma, uma solução viável para estes migrantes.

Esta segunda-feira, a chanceler alemã, Angela Merkel, pediu solidariedade e o esforço europeu para a Grécia não ser deixada numa situação caótica. Também ontem, as autoridades francesas iniciaram o desmantelamento dos campos de refugiados clandestinos em Calais, zona conhecida como a "selva". A resposta dos migrantes chegou na última madrugada, com ataques aos veículos da polícia. 

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