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Islândia: Dos dias negros de 2008 à surpreendente recuperação económica

Em Outubro de 2008, a situação na Islândia era "crítica". Os três maiores bancos do país tinham colapsado. O sentimento de medo e choque era "palpável". E o nível de incerteza era "enorme". "Mais de três anos passados, vale a pena reflectir sobre o caminho percorrido por este país desde os dias negros de 2008."

Islândia: Dos dias negros de 2008 à surpreendente recuperação económica
Ana Luísa Marques anamarques@negocios.pt 14 de Agosto de 2012 às 12:18
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As palavras foram escritas, a 26 de Outubro de 2011, pelo antigo chefe da missão do FMI na Islândia, Poul Thomsen (mais tarde chefe da missão do FMI em Portugal e, actualmente, chefe da missão do FMI na Grécia). Num texto intitulado "Como a Islândia recuperou da sua experiência de quase morte", Thomsen recorda o plano que foi colocado em prática para recuperar a frágil economia islandesa.

O chefe da missão do FMI lembra ainda que quando chegou à capital do país, Reykjavik, em Outubro de 2008, a "situação era crítica". "Os três maiores bancos do país – que representam quase todo o sistema financeiro – tinham colapsado. A sensação de medo e choque era palpável – poucos países, se é que algum, passou alguma vez por um crash económico tão catastrófico", recorda Poul Thomsen.

"Existia ainda", prossegue Thomsen, "muita preocupação com a possibilidade de uma depreciação desordenada da taxa de câmbio puder ser ruinosa para as famílias e empresas e de uma fuga dos depósitos poder acabar com o que ainda restava do sistema financeiro". "O nível de incerteza era enorme – os três bancos tinham activos que valiam mais de 1000% do PIB e ninguém sabia, nessa altura, qual a dimensão dos prejuízos."

"Hoje [Outubro de 2011], três anos passados, vale a pena reflectir sobre o caminho da Islândia – um país com 320 mil pessoas – desde esses dias negros de 2008. O crescimento económico regressou e foram criados novos postos de trabalho – apesar de ter uma taxa de desemprego inaceitavelmente elevada para um país que estave próximo do pleno emprego, esta já caiu para níveis abaixo dos 7%. Em Junho [de 2011], o país regressou aos mercados internacionais ao emitir mil milhões de dólares de obrigações".

Islândia: Um exemplo a seguir

Cerca de nove meses e meio passados desde que Poul Thomsen escreveu este documento, foi agora a vez da nova chefe da missão do FMI no país, Daria V. Zakharova, elogiar o caminho percorrido pela Islândia desde os "dias negros" de 2008 ate à surpreendente recuperação económica que vive actualmente.

"A Islândia fez progressos significativos desde a crise", disse Daria V. Zakharova numa entrevista concedida ontem à Bloomberg. Entre os progressos registados pelo país, Zakharova destaca a capacidade que a Islândia teve de "preservar o Estado social ao mesmo tempo que enfrentava uma importante consolidação orçamental".

A chefe da missão do FMI sublinha que "cada programa é diferente e responde a uma situação diferente, não podendo ser, directamente, comparados". Ainda assim, tendo em conta a profundidade da crise que o país viveu em 2008, a sua recuperação é "impressionante", destaca Zakharova.

A Islândia terminou o programa do FMI em Agosto de 2011. As previsões do fundo indicam que a economia vai crescer 2,4% em 2012 impulsionada, essencialmente, pelo "consumo privado e pelo forte aumento do investimento".

Mas o que tornou a Islândia num caso de sucesso?

A base do sucesso deste país de 320 mil habitantes reside, segundo o FMI, no compromisso das autoridades islandesas em implementar o programa definido pelo fundo. Mas à sua maneira. Um dos principais objectivos do governo passou por proteger o Estado social do país e isso foi conseguido, sublinha Poul Thomsen.

Além disso, o executivo recusou sempre proteger os credores dos bancos que colapsaram em 2008 – e cujas dívidas superavam 10 vezes o valor da economia.

Thomsen recorda que o plano acordado – em tempo recorde – com as autoridades islandesas tinha três elementos importantes:

1.Foi reunido um grupo de advogados, que tinham como objectivo estudar a melhor maneira de evitar que os prejuízos dos bancos fossem suportados pelo sector público.

2.O objectivo inicial do programa era estabilizar a taxa de câmbio. Neste caso, foram tomadas medidas não convencionais, como o controlo de capitais.

3.Os estabilizadores automáticos puderem operar por completo no primeiro ano do programa, adiando, assim, o ajustamento orçamental.

Os desafios que se seguem

Um dos desafios mais importantes que o país enfrenta neste momento é “o fim do controlo de capitais". "E esta não é uma tarefa fácil", admite Daria V. Zakharova.

Mas a Islândia, prossegue Zakharova, precisa de mostrar que consegue reduzir o controlo de capitais de forma bem-sucedida. "O Estado já recuperou o acesso aos mercados de capitais internacionais e a limpeza dos balanços dos bancos está a correr bem. Assim, é importante seguir em frente para que os ganhos sejam sustentáveis e consolidados", diz a chefe da missão do FMI.

Para proteger a moeda do país de uma eventual queda provocada pela redução do controlo de capitais – e controlar a taxa de inflação do país - o banco central já aumentou a taxa de juro do país por cinco vezes desde Agosto de 2011 para os 5,5%.

"As baixas taxas de juro e as poucas oportunidades de investimento devido ao controlo de capitais têm um impacto negativo nas poupanças. Considero que o crescimento económico baseado apenas nos gastos dos consumidores não é sustentável no longo prazo", afirmou recentemente um economista do Arion Bank à Bloomberg.

"Entre a democracia e os interesses financeiros temos de escolher a democracia"

Numa entrevista concedida ao Negócios a 19 de Maio de 2010, o presidente da Islândia, Ólafur Grímsson (na foto), defendeu a necessidade de "restabelecer o devido papel do Estado na regulação do sistema financeiro e na actividade económica". "A Islândia ilustra que no seio da Europa houve uma falha fundamental dos mecanismos institucionais. Temos um mercado financeiros pan-europeu sem um mecanismo de regulação pan-europeu", afirmou Grímsson.

Nesta entrevista, o presidente da Islância lamentou que "quer na Europa, quer nos Estados Unidos, o grande espírito de avançar com reformas profundas no sistema financeiro retrocedeu".

E garantiu "entre a democracia e os interesses financeiros temos de escolher a democracia", referindo-se ao caso do banco Icesave. Neste caso, Grímsson vetou o acordo de indemnização ao Reino Unido e à Holanda referente às perdas da sucursal online de um banco islandês e, em referendo, a população apoiou a sua decisão.
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