União Europeia Assédio sexual: "Não calaremos", avisam políticas francesas

Assédio sexual: "Não calaremos", avisam políticas francesas

Dezassete mulheres do mundo da política francesa, entre as quais Christine Lagarde, subscreveram um manifesto no qual avisam que passarão a denunciar sistematicamente comportamentos inadequados e apelam a todas as mulheres para que também o façam.
Assédio sexual: "Não calaremos", avisam políticas francesas
Bloomberg
Eva Gaspar 16 de maio de 2016 às 16:22

Um grupo de ex-ministras e ex-secretárias de Estado francesas publicaram neste domingo, 15 de Maio, uma declaração conjunta na qual afirmam que não deixarão passar incólumes episódios de assédio sexual no mundo político, convidando todas as mulheres francesas a denunciarem comportamentos que julguem impróprios.

O texto, publicado no diário Journal de Dimanche com o título "Não vamos ficar mais em silêncio", é assinado por 17 mulheres de partidos da direita e da esquerda que ocupam ou ocuparam altos cargos em executivos franceses. Entre elas, está Christine Lagarde (na foto), ex-ministra das Finanças do antigo presidente Nicolas Sarkozy e actual presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Estamos envolvidas na política por razões diversas, defendemos ideias diferentes, mas partilhamos o desejo de que o sexismo não tenha lugar na nossa sociedade. Este flagelo não é exclusivo do nosso universo, longe disso, mas a política tem o dever de dar o exemplo. Quem redige leis, quem as vota, quem é responsável pela sua aplicação, tem de as respeitar e, portanto, tem de ser irrepreensível", lê-se no arranque do manifesto, que é assinado igualmente por Elisabeth Guigou, ex-ministra socialista da Justiça.

No texto recorda-se o caso de Dominique Strauss-Kahn, ex-ministro das Finanças socialista e antigo chefe do FMI (cujo caso mais mediático em que esteve envolvido foi a acusação, não provada, de assédio a uma empregada de um hotel em Nova Iorque) e as denúncias recentes de alegados episódios de assédio sexual que recaem sobre Denis Baupin, o deputado dos Verdes que abandonou, entretanto, a vice-presidência da Assembleia Nacional.

Quatro mulheres, entre as quais Sandrine Rousseau, porta-voz do seu partido, decidiram denunciar Baupin depois deste ter em Março aderido a uma campanha de combate à violência contra as mulheres. Casado com a ministra da Habitação, Emmanuelle Cosse, Baupin nega ter cometido actos impróprios. A sua mulher não está entre as signatárias do texto.


Já o caso que envolve o actual ministro das Finanças Michel Sapin, acusado de assédio por uma jornalista, não é referido. O ministro admite que possa ter tido um comportamento menos adequado, mas diz-se vítima de "calúnia" e garante que não se tratou de assédio. François Hollande manteve-o no cargo.

"Decidimos escrever para dizer que o código de silêncio e o silêncio não são possíveis", escrevem agora as 17 políticas francesas. "Como todas as mulheres que que entraram num ambiente que era antes exclusivamente masculino, tivemos de suportar e de lutar contra o sexismo. Não são as mulheres que se têm de adaptar a estes ambientes, é o comportamento de alguns homens que precisa de mudar", escrevem ainda, avisando que doravante "denunciaremos sistematicamente todos os comentários sexistas, gestos ou comportamentos inapropriados".


Exemplos? 
Não se pode dizer a uma mulher, independentemente do seu estatuto, "a sua saia é muito longa, deve ser encurtada" ou "está a usar fio dental?". "Não se pode colocar a mão na coxa de uma mulher ou apertar as mãos em torno dela sem o seu consentimento. E quando uma mulher diz não, é não".

"As mulheres precisam de poder trabalhar, de andar nas ruas e de usarem os transportes públicos sem serem alvo de comentários ou mãos", acrescentam, lamentando que estas afirmações tenham de ser repetidas em plena Europa em pleno século XXI e que muitas mulheres calem queixas por medo de perder o trabalho.

 

"Encorajamos todas as vítimas de assédio sexual e agressão sexual de falar e reclamar. Pedimos aos nossos partidos e os nossos grupos políticos para verificar se tais actos foram cometidos e, se for esse o caso, ajudar as vítimas para se chegar à verdade".


O texto cita um levantamento feito pela Provedor de Justiça em 2014 segundo o qual, durante a sua vida activa, uma mulher em cada cinco enfrenta uma situação de assédio sexual.




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