União Europeia Brexit: O tardio despertar da imprensa pró-europeia

Brexit: O tardio despertar da imprensa pró-europeia

Diferentemente do que se passa aquém Mancha, no Reino Unido é habitual os jornais tomarem abertamente posição sobre as grandes decisões. No referendo sobre a UE, só agora as vozes pró-europeias falaram alto.
Brexit: O tardio despertar da imprensa pró-europeia
Eva Gaspar 20 de junho de 2016 às 21:19

"Please don´t go - Why Germany needs the British". Inédito, apaixonado, quase desesperado, o primeiro apelo veio estampado na capa da revista alemã de maior tiragem. Em 10 de Junho, a Spiegel publicava uma edição especial bilingue que pôs à venda no Reino Unido ao preço reduzido de duas em vez das habituais cinco libras.  

Em editorial, o director Klaus Brinkbaeumer  escrevia que "talvez seja tarde demais para convencer os britânicos a amar a União Europeia", mas "talvez devêssemos usar esta oportunidade para referir o quanto o resto da Europa os admira". "A Alemanha sempre olhou através do Canal com algum grau de inveja. No nosso mapa emocional da Europa, os italianos foram responsáveis pelo amor e a boa comida, os franceses pela beleza e a elegância e os ingleses por uma certa indiferença e o progresso". Brinkbaeumer elogiava ainda exportações culturais britânicas que vão de "James Bond ao corte de cabelo de Twiggy", e terminava o texto oferecendo ao Reino Unido um "aperto de mão firme, juntamente com um apelo honesto, simples: Permaneçam". Não fossem os britânicos pensar que esse sentimento se limitava aos editores e jornalistas da revista, a Spiegel encomendou uma pesquisa à TNS segundo a qual 79% dos alemães querem o Reino Unido dentro da UE.


Dois dias depois, chegava a vez de uma publicação britânica assumir uma posição igualmente frontal – precisamente a contrária. Os defensores da saída do  Reino Unido da UE  ganhavam um aliado de peso, com o apoio expresso do Sun, o jornal mais vendido no país, que na primeira página apelava aos seus mais de quatro milhões de leitores que votem "BeLEAVE in Britain". Ao sair da UE, os britânicos travarão a "ditadura de Bruxelas" e a "expansão  crescente" do "Estado federal alemão". Fora da União, acrescentava o jornal, o Reino Unido pode prosperar ainda mais, tornar-se mais seguro e livre para traçar "o nosso próprio destino, como a América, o Canadá, Austrália, Nova Zelândia e muitas outras grandes democracias já o fazem".

Era a primeira vez que um jornal britânico de grande tiragem dava apoio declarado a um dos campos em confronto neste referendo, embora a cobertura do tema permita há já algum tempo perceber preferências. O Instituto Reuters para o Estudo de Jornalismo, que funciona na Universidade de Oxford, debruçou-se sobre quase um milhar de textos jornalísticos publicados ainda em Março e concluiu que quase metade (45%) reflecte uma visão negativa da pertença à União, tendo estes sido essencialmente publicados nos mais populares, entre os quais o Sun, Daily Mail, Daily Express e Daily Telegraph.  Os textos mais favoráveis à UE foram publicados no Daily Mirror, Guardian e Financial Times.

No dia em que o Sun pediu "Leave" foram divulgadas duas sondagens que davam a vitória ao não à UE. No seguinte, eram já cinco as pesquisas que, no espaço de 24 horas, convergiam no mesmo sentido. As casas de apostas e os bancos de investimento, caso do Goldman Sachs, ainda continuavam a atribuir maior probabilidade à vitória do "Remain", mas a dinâmica do "Leave" parecia imparável.

Depois veio o assassinato de Jo Cox, deputada trabalhista pró-UE – e com esse evento trágico, veio também uma aparente mudança nas intenções de voto. Nesse momento, já a Economist tinha ido para a gráfica. A revista que tem a fama e o proveito de dizer bem alto ao que vem, como quando "reprovou" na primeira página a escolha de Gerhard Schröder para candidato a chanceler da Alemanha ou a recandidatura de Sílvio Berlusconi em Itália, tem feito discretamente campanha pelo "Remain". Mas só agora assumiu sem "mas" a sua escolha. Fê-lo na edição que está presentemente nas bancas - a última antes do referendo. Na capa, "Divided we fall" é o título que encima a imagem de um nó apertado entre as duas bandeiras, a da Union Jack e a das doze estrelas amarelas em fundo azul. Em editorial, argumenta-se que não será apenas o Reino Unido e a União Europeia os derrotados no plano económico e político caso o "Leave" vença. O maior derrotado, sublinha-se, será "a ordem liberal que serviu de base à prosperidade do Ocidente" porque quem sairá a ganhar é a narrativa do "nacionalismo económico e da xenofobia" que embalará Donald Trump nos Estados Unidos ou Marine Le Pen em França.

Nesta segunda-feira, 20 de Junho, foi a vez do Guardian sair também do armário e apelar ao "sim" sem rodeios. "Tal como a democracia, a UE é uma forma imperfeita de responder a desafios implacáveis do mundo moderno. Mas a resposta para as suas imperfeições passa pela sua reforma, não por ir embora - e ainda menos por ceder ao ocasional instinto hooligan deste país na Europa". Lembrando a morte violenta de Jo Cox, o jornal – tradicionalmente mais alinhado com os trabalhistas e, logo, mais pró-europeu – escreve que pertencer à UE não é a menos má das opções disponíveis mas "a única que incorpora o melhor de nós como povo livre numa Europa pacífica". E pede abertamente: Vote "Remain", defendendo que esse é o "voto a favor de um país unido que se abre para o mundo, e contra uma nação dividida que se volta para dentro".




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