União Europeia Chipre: o mais maldito dos resgates está a caminho de um final feliz

Chipre: o mais maldito dos resgates está a caminho de um final feliz

Foi o resgate a um país do euro que mais polémica gerou. Porque foi o primeiro em que o bolso dos depositantes foi chamado a salvar bancos para reduzir o fardo sobre os contribuintes. Chega agora ao fim. Com 30% da ajuda externa por gastar.
Chipre: o mais maldito dos resgates está a caminho de um final feliz
Bloomberg
Eva Gaspar 07 de março de 2016 às 00:01
Nesse Inverno de 2013, não faltou quem acusasse a Europa  de ter provocado uma "crise estúpida". Houve até quem concluísse que a União Europeia "morrera" aí, na forma como concebeu o quarto resgate a um país do euro – o primeiro em que o montante do empréstimo externo (que significa dívida a ser paga pelos contribuintes) foi fixado depois de um "bail-in", ou seja, depois de accionistas e obrigacionistas, incluindo quem detinha depósitos acima de 100 mil euros, terem sido chamados a financiar o salvamento da banca desse país.

Passados meses de acesso dramatismo, o assunto quase desapareceu da imprensa internacional. Bom sinal: quase três anos depois do resgate mais maldito da história do euro, Chipre prepara-se para uma "saída limpa" do programa, na linha do que sucedeu na Irlanda e em Portugal, diferentemente da vizinha Grécia, que, entretanto, já vai no terceiro resgate desde 2010.

A expectativa é que a conclusão do programa da troika (a parte europeia termina em 31 deste mês, a do FMI em 14 de Maio) seja discutida nesta segunda-feira pelo Eurogrupo.  Com eleições parlamentares marcadas para Maio, o ministro das Finanças Harris Georgiades já anunciou que não pedirá uma extensão do programa de financiamento. Mas como não cumpriu todas as medidas previstas no memorando de entendimento (designadamente a privatização da operadora de telecomunicações) deverá ser forçado a dispensar a última fatia do empréstimo externo.

Contas feitas, dos nove mil milhões prometidos pelos parceiros europeus (aos quais se acrescentariam mil milhões do FMI), foram transferidos para Nicosia 6,3 mil milhões, pelo que sobram 2,7 mil milhões. Ou seja, quase 30% do envelope financeiro originalmente pensado não será, afinal, utilizado.

Esta circunstância só foi possível devido a uma execução férrea do programa de austeridade (aplicado ao Estado e à banca) que permitiu a Nicosia  superar as metas de redução do défice orçamental, não obstante a economia ter afundado quase 6% em 2013. Em  boa medida devido a esse controlo do défice que neste ano já poderá ser excedente, a dívida pública nunca chegou a atingir o pico de 126% previsto no programa original: o auge foi registado em 2014, em 108,2%, e desde então está a cair, prevendo-se que fique aquém de 100% a partir deste ano. 

A   reestruturação da banca, por seu turno, foi duríssima. O Cyprus Popular Bank  (conhecido por Laiki Bank, então o segundo maior do país) fechou, os seus depositantes passaram todos para o Bank of Cyprus. A sua actividade e os depósitos garantidos (abaixo de 100 mil euros) foram em grande medida  assegurados com a receita de um imposto extraordinário sobre os maiores depositantes  que suportaram uma perda de 48%. Cerca de metade eram estrangeiros, especialmente russos, que usavam Chipre como o "paraíso fiscal" que então, de facto, era. 
 
Crédito malparado é dos altos do mundo

O controlo sobre as contas públicos e a estabilização do sector financeiro permitiram ao governo levantar as restrições aos movimentos de capitais e regressar mais cedo do que o antecipado a operações de financiamento directo através dos mercados.

Mas nem tudo são rosas. Persistem três enormes dores de cabeça: o elevadíssimo peso do crédito malparado nos bancos (quase 50%, um dos piores rácios do mundo), uma elevadíssima dívida privada (na casa dos 300%, também entre as mais altas à escala global) e, portanto, uma capacidade de investimento endógena muitíssimo limitada.

Para crescer e absorver o também tremendo desemprego (ainda perto de 15%), Chipre precisa de investimento estrangeiro como de pão para a boca. Apesar de terem subido, os "ratings" das principais agências ainda não saíram da zona de "lixo" (incluindo o da DBRS), o que não é bom cartão de visita. Essa circunstância pode ainda comprometer a aceitação por parte do BCE de dívida cipriota, que até agora era admitida como colateral entregue pelos bancos e como activo elegível para o programa de compras porque Chipre estava num "programa" respaldado pelos demais países europeus. A expectativa é que Frankfurt decida "em breve" retomar esse tratamento excepcional a troco de garantias de Nicosia perante Bruxelas de que não se desviará do rumo até agora seguido.

Tábua de salvação: o turismo britânico Ao longo destes anos de ajustamento, o sector exportador foi o único que não afundou. E o grande responsável foi o sector do turismo, que gera cerca de 25% do PIB, especialmente o oriundo do Reino Unido. No ano passado, o  número de turistas que visitaram a ilha subiu quase 9% atingindo um recorde absoluto de mais de 2,6 milhões. Este aumento deveu-se em larguíssima medida ao afluxo de turistas britânicos, que subiu 20% face ao ano anterior, ultrapassando pela primeira vez desde 2011 a barreira de um milhão. Já o número de turistas da Rússia, segundo maior mercado, caiu  quase 18%.






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