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Lições de Sintra: Política monetária em tempo de guerra

Niall Ferguson explicou em Sintra que o único período de expansão dos balanços dos bancos centrais comparável com o actual foram os anos 40, da II Grande Guerra. Pelo meio, algumas críticas à actuação recente do BCE.

Nuno Aguiar naguiar@negocios.pt 27 de Maio de 2014 às 12:18
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O professor da Universidade de Harvard foi um dos convidados do Fórum do BCE, organizado entre 25 e 27 de Maio na Penha Longa, em Sintra, para discutir política monetária. Durante a sua intervenção, apresentou dados até agora não conhecidos relacionados com a expansão e contracção dos balanços dos bancos centrais desde 1900. O último destes movimentos observou-se depois da explosão da crise financeira de 2007/2008.

 

O balanço de um banco central traduz a sua acumulação (ou contracção) de activos. Tradicionalmente, os activos de um banco central como a Fed são dívida pública ou empréstimos concedidos aos bancos. Depois da falência do Lehman Brothers, por exemplo, a Reserva Federal norte-americana decidiu aumentar significativamente o seu balanço, através da compra de activos (muitos dos quais tóxicos) praticamente triplicando-o nominalmente.

 

Ferguson argumenta que "apenas recuando até 1940 conseguimos encontrar uma situação semelhante". "Temos lido que o aumento dos balanços dos bancos centrais não tem precedentes e não é convencional, mas para dizer isso é preciso olhar para a História", acrescentou depois de ter aconselhado o Banco Central Europeu (BCE) a contratar "alguns historiadores".

 

Entre as principais conclusões do seu ‘paper’ está que a dívida pública tende a aumentar quando os activos dos bancos centrais e que, desde 1980, não se observa uma correlação forte entre expansão do balanço e inflação. No entanto, refere que essa relação existe quando a independência do banco central está comprometida ou quando há défices orçamentais persistentes.

 

Apesar de reconhecer que o "balanço dos bancos centrais está ao nível do pós-II Guerra Mundial" e que "está a ser seguida uma política de guerra sem termos uma guerra", Ferguson procurou desdramatizar esse movimento, explicando que ele já se observou no passado.

 

Essa expansão está associada a quatro motivos diferentes: pagamentos em divisa estrangeira; financiamento do Estado; actuação como credor de último recurso; ou como estabilizador da procura. Os últimos dois motivos tornaram-se mais comuns nas últimas décadas.

 

A última conclusão de Ferguson é provavelmente a mais relevante para o momento que se vive actualmente nos corredores de Frankfurt: é raro observar-se uma contracção nominal do balanço, como aquela que o BCE está a realizar. "Como é que os balanços ajustam? Lentamente e em percentagem do PIB. Em média, os balanços não contraem nominalmente, mas em relação ao PIB", sublinhou. "É raro observar-se o que o BCE tem feito recentemente."

 

Vítor Constâncio, que fazia parte da audiência contestou as conclusões do historiador económico. Segundo o vice-presidente do BCE, se Ferguson tivesse isolado os dados do eurosistema, poderia ter chegado a conclusões diferentes. "Foi fácil para nós reduzirmos o nosso balanço em muitos milhões de euros", argumentou Constâncio, na fase das perguntas.

 

Ferguson respondeu, reconhecendo que, em 12 países, é normal que haja excepções. Mas argumentou que a questão não é ser possível de fazer, mas se isso foi uma boa opção. "Há uma História para o BCE reflectir. A questão é se esta contracção nominal é uma boa ideia e se foi suficiente os empréstimos feitos aos bancos."

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