Zona Euro Os primeiros dias do Syriza à frente do Governo grego

Os primeiros dias do Syriza à frente do Governo grego

Com apenas três dias de existência, o Governo de Alexis Tsipras tem já muito para contar. Da composição da equipa governamental até às declarações dos mais variados líderes internacionais, passando pela posição de Atenas face a Moscovo e terminando no anúncio de medidas que invertem o caminho até aqui imposto pelos memorandos da troika, ninguém ficou indiferente à chegada do Syriza ao poder. Recorde os primeiros dias do novo Governo grego.
Os primeiros dias do Syriza à frente do Governo grego
Reuters
David Santiago 30 de janeiro de 2015 às 20:35

Os dias correram rápido para o Governo liderado pelo agora primeiro-ministro Alexis Tsipras. Ao cabo de uma semana de governação, que em termos formais se resume a apenas três dias, são já vários os dados concretos. Começando pelo fim, esta sexta-feira o ministro das Finanças Yanis Varoufakis disse que a Grécia quer "um novo acordo" com a União Europeia (UE).

 

30 de Janeiro - Grécia quer negociar com a UE mas rejeita conversar com a troika 

Esta sexta-feira, após um encontro, em Atenas, com o líder do Eurogrupo Jeroen Dijsselbloem, Varoufakis esclareceu que Atenas não pretende negociar com a troika nem vai requerer um novo prolongamento do programa de assistência financeira que termina em Fevereiro. Varoufakis deixou claro que doravante não pretende ter na troika um interlocutor.

 

Nas palavras do responsável pelas Finanças gregas, subentende-se que o Executivo helénico não reconhece a troika enquanto instituição de direito, razão pela qual não aceita negociar com a mesma. Contudo, tal poderá não significar uma recusa à negociação separada com cada um dos três parceiros da troika, Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI).

 

"Vamos tentar convencer os parceiros que é do interesse da Europa desenhar um novo acordo", afirmou ainda o ministro helénico das Finanças, citado pelo The Guardian.

 

29 de Janeiro - Atenas não coloca entraves a prolongamento de sanções contra Moscovo 

Antes, na quinta-feira, o recém-empossado Executivo mostrava que as divergências para com Bruxelas não se limitam ao aspecto económico. Abarcam também questões de índole diplomática ou, no mínimo, nos procedimentos seguidos pela UE no que à política externa europeia diz respeito.

 

Na terça-feira, dia da tomada de posse do Governo grego, um comunicado emitido por Bruxelas a condenar as acções da Rússia no leste da Ucrânia, fazendo ainda referência a um eventual

Vamos tentar convencer os parceiros que é do interesse da Europa desenhar um novo acordo.
 
Yanis Varoufakis
Ministro das Finanças da Grécia

agravar das sanções económicas anteriormente aplicadas a Moscovo, levou o gabinete de Tsipras a notar que "não consentia" os avisos feitos pela UE.

 

O alarme soou em Bruxelas e tudo ficou ainda mais cinzento quando o ministro dos Negócios Estrangeiros grego Nikos Kotzias sustentou que a UE "infringiu as regras e tentou apresentar um facto consumado antes mesmo de termos tomado posse".

 

A Alta Representante para a Política Externa e de Segurança, Federica Mogherini, reconheceria que Kotzias "empenhou-se construtivamente para que a UE tivesse uma posição de unanimidade". Quinta-feira, Mogherini acabou por anunciar a decisão "unânime" de prolongar as sanções contra a Rússia por mais seis meses. Yanis Varoufakis esclareceria, no seu blogue pessoal, que o problema consistiu no facto de o novo Executivo nem sequer ter sido consultado.

 

28 de Janeiro - Governo grego anuncia primeira medidas que revertem caminho da troika 

Mas se na terça-feira os nomes escolhidos para o Executivo indiciavam já a opção por personalidades que coincidem nas críticas à troika e aos dois memorandos aplicados na Grécia, foi quarta-feira que tudo começou a ficar mais claro. Após o primeiro Conselho de Ministros do novo Governo, as medidas inaugurais da equipa de Tsipras mostraram uma inversão face às políticas de austeridade prosseguidas pela troika e pelo anterior Executivo.

 

Destaca-se o anúncio da interrupção dos processos de privatização do sector energético helénico e ainda de um porto naval. A contratação de funcionários públicos dispensados ao longo da vigência dos programas de assistência externa. E ainda o aumento do salário mínimo para o valor anterior ao início da crise.

 

Tsipras mostrava, no concreto, ao que vinha e confirmava muito daquilo que vinha prometendo ao longo dos últimos anos, designadamente na última campanha eleitoral.

 

Os mercados não reagiram positivamente às decisões inaugurais da equipa de Tsipras com a bolsa grega a afundar mais de 12% e as taxas de juro da dívida pública a dispararem, no prazo a 3 anos, mais de 266 pontos base. Nem a declaração de Varoufakis, nesse dia 28 de Janeiro, a garantir que o objectivo do seu Governo era o de "reduzir os custos da crise grega para todos os cidadãos da Europa", acalmou os mercados.

 

27 de Janeiro - Tsipras aposta em académicos e economistas para combater a troika

Na campanha, Alexis Tsipras anunciara que um Governo do Syriza teria apenas 10 ministérios. A promessa seria cumprida com o anúncio e posterior tomada de posse, desta feita com uma cerimónia mista (civil e religiosa), de 11 ministros, sendo que um deles com incumbência de coordenação ministerial, portanto sem direito a ministério.

 

O na altura já primeiro-ministro de facto, apostou em académicos, maioritariamente com formação em economia. As escolhas de Tsipras, que contemplaram alguns dos conselheiros mais próximos do político, mostraram que o líder do Syriza se quis rodear de personalidades com competências na área que se afirma mais determinante para o futuro próximo grego - economia.

 

A colocação de homens como Varoufakis nas Finanças, de Giorgios Stathaki no superministério do Desenvolvimento, ou de Giannis Dragasakis como vice-primeiro-ministro com incumbência para coordenar toda a área económica, confirmou uma estratégia de combate à troika e ao programa de austeridade por ela preconizado. A predominância de opositores da austeridade e defensores da renegociação da dívida teve imediata resposta germânica. O ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble prontifcou-se a assegurar que não haverá lugar a qualquer perdão da dívida helénica.

 

 

26 de Janeiro - Alexis Tsipras não perdeu tempo e logo depois de almoço já era primeiro-ministro

No discurso de vitória proferido no domingo perante milhares de pessoas, Alexis Tsipras garantia que tinha pressa de começar a trabalhar. E confirmou isso mesmo. 

 

Segunda-feira, ainda a manhã ia no início, já o agora primeiro-ministro acordara com o líder dos nacionalistas Gregos Independentes, Panos Kammenos, a constituição de uma coligação governativa, dissipando assim quaisquer dúvidas que subsistissem quanto à capacidade da coligação de esquerda radical para consolidar acordos pós-eleitorais de Governo. Uma coligação contra-natura em termos ideológicos, mas que se compatibiliza na rejeição da austeridade e do programa da troika e ainda num forte apelo identitário.

 

Formalmente empossado primeiro-ministro numa cerimónia civil, na primeira vez que um chefe de Executivo grego assume o cargo dispensando os rituais da religiosos ortodoxos, Alexis Tsipras

Estamos dispostos a dar início a reformas mais profundas, sem austeridade mas também sem défice.
 
Alexis Tsipras
Primeiro-ministro da Grécia

apresentou a sua equipa logo ao início da tarde de terça-feira em Atenas. Confirmando-se uma composição que denuncia a vontade de voltar a página da austeridade.

 

E agora? 

Agora, sob a ameaça de corte de "rating" pela Standard & Poor’s e perante o receio dos mercados, os governantes helénicos preparam-se para tentar cumprir o prometido. Deixar para trás a austeridade que marca a política grega desde 2010 e assegurar um crescimento sustentável. Para Tsipras e Varoufakis, nada poderá ser feito sem uma renegociação da dívida. Da Europa já soaram vozes a admitir uma eventual reestruturação da dívida, mas recusa-se uma solução que contemple um perdão de dívida. No entretanto, o novo primeiro-ministro pede mais tempo para executar reformas, "sem austeridade, mas também sem défice". 

 

E para satisfazer as necessidades mais imediatas de capital, a solução para Atenas dificilmente poderá não passar por um novo resgate ou pela adopção de um programa cautelar que assegurem linhas de crédito cautelares ao estado helénico. Para o conseguir, Atenas deverá ter de negociar com os credores a introdução de reformas.

 

Até porque a acentuada desvalorização dos bancos gregos e a fuga de depósitos que se tem vindo a verificar desde Dezembro poderão elevar as suas necessidades de financiamento. Que teriam de ser garantidas pelo BCE através da cedência de liquidez de emergência (ELA - Liquidity Emergency Assistance).

 

A negociação parece ser a palavra-chave de todo este processo. Como tal, a partir do próximo domingo tem lugar o início de um périplo de Alexis Tsipras que passará por Chipre, França e Itália. Antes, Varoufakis visita Londres, Paris e Roma. Não está agendada nem foi referida oficialmente uma viagem à Alemanha. Mas sabe-se que, a dada altura, Tsipras e a chanceler alemã Angela Merkel terão de falar. 




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