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Bancos em Chipre reabriram portas com filas ordeiras

A temida corrida aos depósitos não se terá verificado. Os cipriotas fizeram nalguns casos longas filas às portas dos bancos, que reabriram após quase duas semanas de fecho, mas sem tumultos ou incidentes. Os grandes depósitos estão congelados. Mais de 40% serão acima de 500 mil euros. Boa parte estará associado a particulares e empresas russas.

Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 28 de Março de 2013 às 18:02
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Ao contrário do que se poderia temer, o primeiro dia de reabertura dos bancos em Chipre não provocou uma corrida desordeira para resgatar depósitos. As agências noticiosas relataram nalguns casos longas filas à porta dos bancos, mas ordeiras e sem qualquer registo de incidentes.

 

"Não me vou deixar levar pelo pânico. Se cairmos nele, estragaremos tudo. Vou esperar pacientemente e não vou correr aos bancos assim que abrirem para ficar no fim da fila e esperar horas e horas", disse Maria Ioanidu, professora aposentada com conta no Banco Popular (Laiki), que será liquidado.

 

Ainda citada pela agência espanhola EFE, Rula Spiru, proprietária de uma loja de produtos típicos, também não se fez às filas. "Esperarei que me chamem para certas as coisas", explicou.

 

Essa paciência não é exclusiva dos cipriotas. Ayten Smail, uma imigrante búlgara que está há uma década no país, diz-se serena. "No Banco Popular tenho todo o dinheiro que economizei, cerca de 12 mil euros. O meu chefe disse-me que esse dinheiro, que ganhámos a trabalhar honestamente, não o perderemos, portanto estou mais tranquila".

 

Já a Reuters encontrou gente bem mais intranquila, sobretudo entre os mais idosos que não têm acesso à Internet para fazer operações bancárias, nem mesmo cartões. “Você não tem ideia de como esperei por isto”, exclama Froso Kokikou, pensionista de 64 anos à frente de uma das agências do Banco Popular de Chipre, também conhecido por Laiki. "Sinto uma sensação de medo e decepção. Uma fila como esta parece de um país do Terceiro Mundo, mas o que se pode fazer?".

Kostas Nikolaou, um outro aposentado de 60 anos, compara a incerteza das últimas duas semanas a uma “morte lenta". E protesta: "Como eles podem dizer que não podemos ter acesso ao nosso próprio dinheiro? É nosso, temos o direito a ele!".

 

 

Restrições poderão ser levantadas dentro de um mês "se tudo correr bem"

 

A reabertura dos bancos, que estavam encerrados desde 16 de Março, foi acompanhada da imposição de restrições inéditas num país do euro aos movimentos de capitais. Durante o dia de hoje, 28 de Março, e pelo menos mais três, os levantamentos nos ATM ficam limitados a 300 euros diários e, embora não haja limitações no uso de cartões de crédito dentro do país, no exterior os pagamentos ficam limitados a cinco mil euros mensais.

 

Além disso, não é permitido levar para o exterior mais de 3.000 euros, seja mediante transferência bancária ou em numerário, mas haverá certas excepções, como para o pagamento a funcionários cipriotas expatriados e a estudantes do país no exterior. Também não há restrições ao pagamento de facturas decorrentes de importações, quando for apresentada a devida documentação. Ficaram igualmente isentos de limitações os pagamentos a funcionários, assim como as operações do governo e o do Banco Central.

 

As restrições poderão ser levantadas dentro de um mês caso tudo decorra tão bem como sucedeu hoje", declarou Kasoulides em conferência de imprensa, numa alusão à tranquila reabertura dos bancos, que estiveram encerrados desde 16 de março 

 

Para fornecer liquidez, o Banco Central Europeu enviou quatro contentores com cinco mil milhões de euros, que chegaram ao aeroporto de Lárnaca e foram transferidos para o Banco Central de Chipre.

 

Escreve a Reuters que desde Fevereiro muito dinheiro já abandonou o Chipre, por via de transferência electrónicas.  Dados divulgados pelo Banco Central de Chipre nesta quinta-feira mostram que os aforradores de outros países da Zona Euro (serão essencialmente gregos, com fortes afinidades em Chipre) retiraram 18% dos seus depósitos. Cruzando este dado com um levantamento feito pelo Barclays ao valor e distribuição dos depósitos em Chipre, essa retirada terá feito sair 3,7 mil milhões de euros da ilha.

 

Ainda segundo a mesma fonte, os depósitos de privados totalizam agora 46,4 mil milhões de euros. O Barclays aponta para valores superiores, da ordem de 68,4 mil milhões de euros detidos por singulares, sendo que 42% estão em contas superiores a 500 mil euros, e 46% em contas com menos de 100 mil euros, que não serão afectadas pela liquidação do Laiki e profunda reestruturação do Bank of Cyprus, os dois maiores bancos do país.

 

Demasiado dinheiro terá saido com bancos fechados

 

A mesmo tempo, persiste a suspeita de que, na semana passada, saiu de Chipre muito mais dinheiro do que seria de esperar numa altura em que os bancos estiveram fechados na ilha, os levantamentos no multibanco limitados e as transacções com o exterior exigiam autorização do banco central de Chipre e estavam limitadas a razões humanitárias.

 

O buraco da fechadura terão sido as dezenas de sucursais dos bancos cipriotas. Os movimentos anormais estão a ser detectados pelo Eurossistema. Apesar do congelamento oficial das contas bancárias, revela a Reuters, "várias centenas de milhões de euros" terão sido levados para fora do país na semana passada sob a capa de transferência de fundos destinados a "produtos humanitários, medicamentos e combustível de aviação", as excepções permitidas pelo Eurossistema e que estão a ser autorizadas pelo banco central de Chipre. Os fluxos anormais levantaram suspeitas no BCE.

 

A imposição de controlos de capitais, que poderá ser renovada (e muitos analistas antecipam que as autoridades cipriotas o façam renovadas vezes) tem um duplo objectivo: travar o esvaziamento da banca e a sangria de activos e depósitos sobre os quais incidirão uma parte das perdas destinadas a absorver os custos de saneamento do Bank of Cyprus, o maior do país. O Laiki, o segundo maior, vai ser liquidado. 

 

Os custos do saneamento destes dois bancos, que representam metade do sector bancário em Chipre, estavam estimados em 10 mil milhões de euros, valor igual ao que a Zona Euro emprestará a Chipre para financiar as suas instituições e políticas públicas.

Desta feita, a comunidade internacional não emprestará dinheiro para salvar bancos: os custos serão suportados pelos respectivos accionistas, obrigacionistas e, na medida do necessário, pelos maiores depositantes acima de 100 mil euros, valor que coincide com o limite da garantia de depósitos fixada na União Europeia.

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