Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Costa e Tsipras querem cooperar para "alargar alianças" na União Europeia

O primeiro-ministro português defende que "Portugal e Grécia podem e devem trabalhar em conjunto, não numa lógica de confrontação com a UE, mas numa lógica construtiva, procurando alargar alianças". Tsipras acredita que "estamos a tempo de tomar medidas concretas".

Reuters
David Santiago dsantiago@negocios.pt 11 de Abril de 2016 às 13:38
  • Partilhar artigo
  • 3
  • ...

Foi num tom cordial e de proximidade que os primeiros-ministros de Portugal e da Grécia, António Costa e Alexis Tsipras, abordaram o encontro desta segunda-feira, 11 de Abril, em Atenas, que permitiu aos dois líderes assinar um acordo de cooperação bilateral no âmbito da crise dos refugiados.

 

Mas o diálogo entre Costa e Tsipras centrou-se também nas actuais crises que a Europa enfrenta, com o primeiro-ministro português a defender que Portugal e a Grécia podem e devem trabalhar em conjunto, não numa lógica de confrontação com a EU, mas numa lógica construtiva, procurando alargar alianças".

 

Em declarações aos jornalistas, António Costa identificou as duas crises que afectam a Europa e que se relacionam: "Crise dos refugiados que se cruza com a crise da Zona Euro". Para Costa a crise da Zona Euro "não começou em 2010 nem acaba com o fim dos programas de ajustamento. Há um problema estrutural que tem de ser corrigido, as assimetrias das economias". Além de que "o cruzamento destas crises só tem favorecido o surgimento de populismos e o crescimento da extrema-direita", diz António Costa.

 

O secretário-geral do PS defende que é crucial reduzir essas assimetrias entre as economias mais ricas e as menos robustas no âmbito do bloco do euro, algo que sustenta tem de passar por um novo "impulso à convergência das nossas economias com as economias mais desenvolvidas da Zona Euro".

O primeiro-ministro grego identifica precisamente a existência de uma "luta comum entre Portugal e a Grécia" e que passa pela necessidade de crescimento económico, redução do desemprego e da dívida pública.

 

Como tal, Alexis Tsipras espera "conseguir, no âmbito da União Europeia (UE), acordar um programa para ultrapassar todos os problemas" com base numa "Europa democrática e objectiva" até porque ainda "estamos a tempo de tomar medidas concretas". Para o secretário-geral do Syriza "só em conjunto podemos ultrapassar estes problemas".

 

Virar a página da austeridade

 

Volver o ciclo imposto pelas políticas de austeridade, inscritas nos programas de assistência económica e financeira aplicados na Grécia e em Portugal, foi o mote com que Tsipras e Costa se apresentaram às eleições legislativas disputadas por ambos em 2015 (Tsipras travou e venceu duas). E virar a página da austeridade continua a representar objecto do discurso e vontade dos dois primeiros-ministros.

Depois de Portugal ter interrompido o "percurso de convergência" há 15 anos, António Costa afiança que "é essa página que temos de virar e não é insistindo em medidas de austeridade que podemos resolver um problema que é estrutural". Com o chefe do Executivo português a apontar a aposta em medidas de crescimento económico e criação de emprego como solução: "E isso faz-se não com a austeridade que divide mas com convergência".

 

Tsipras mostrou concordância face ao diagnóstico feito por Costa, aproveitando para criticar as "medidas de austeridade contínuas que não ajudam os povos". "Devido às políticas seguidas nestes cinco anos, 25% da riqueza foi perdida", lamentou Alexis Tsipas que enunciou ainda os enormes aumentos do desemprego e da dívida pública como resultados negativos dos processos de ajustamento.

Numa altura em que a Grécia aguarda ainda pela aprovação da primeira avaliação trimestral ao cumprimento do memorando assinado no Verão do ano passado, que estava agendada para Outubro ou Novembro, Alexis Tsipras lembrou que Atenas precisa de "mais tempo, que nos cedam mais tempo, para que possamos encontrar uma solução e conseguir que os mercados tenham confiança na economia do nosso país". É aqui que entra a solidariedade europeia, insiste Tsipras que reconhece que "esta luta não é feita somente por nós, mas também por outros governos".


Depois de criticar a "direita ultraliberal [por querer] impor a ideia de que não há alternativas", António Costa apontou a Grécia e Portugal como dois exemplos que mostram que "há alternativas".
 Já Alexis Tsipras recuperou uma ideia minutos antes apontada pelo primeiro-ministro português para sublinhar que "a Europa nada tem a perder com as forças de esquerda, a Europa tem de ter medo é dos partidos de extrema-direita e do que pode surgir depois destas medidas de austeridade".

cotacao "Foram aplicadas políticas incorrectas. Políticas estas que aumentaram a crise e a dívida" Alexis tsipras PRIMEIRO-MINISTRO DA GRÉCIA


Tsipras diz que "foram aplicadas políticas incorrectas"

Coincidindo na convicção de que "a crise da zona euro é uma crise comum", tanto Costa como fizeram questão de realçar a convicção de ambos de que também a Europa aprendeu com a crise das dívidas soberanas que, se tivesse acontecido agora, teria certamente uma resposta diversa. "Temos beneficiado muito de uma actuação do Banco Central Europeu (BCE) que não existia em 2010", explicou Costa que não se ilude com o facto de Portugal ser "apontado pelas instituições europeias como exemplo de país que cumpriu escrupulosamente" o programa de ajustamento.

"Ficamos muito contentes com esse reconhecimento. Mas não ignoramos que a dívida portuguesa subiu de 97% para 137% do PIB, que temos uma taxa de desemprego extremamente elevada, aumento da pobreza, abandono escolar precoce e empobrecimento geral da sociedade portuguesa", apontou o líder socialista que concluiu: "O cumprimento do programa de ajustamento não resolveu os problemas estruturais que devem ser resolvidos". 

Também Alexis Tsipras considera que "foram aplicadas políticas incorrectas. Políticas estas que aumentaram a crise e a dívida", pelo que o líder do Syriza aponta o dedo a Bruxelas. "Podemos dizer que apesar de reconhecerem que isto não é uma solução, continuam a insistir nos mesmos erros", acusa o chefe do Governo de coligação grego. No fundo há "erros" dos processos de ajustamento que "estão a repetir-se" neste terceiro memorando em curso na Grécia diz Tsipras que garante que "estes programa não podem ser sempre aplicáveis", independentemente das circunstâncias específicas de cada país. Análise que mereceu a concordância de António Costa.

(Notícia actualizada pela última vez às 14:15)

Ver comentários
Saber mais António Costa Alexis Tsipras Portugal Grécia Zona Euro refugiados Austeridade União Europeia BCE
Outras Notícias