Zona Euro Federação industrial alemã quer que Merkel acabe com política de "défice zero" e invista mais

Federação industrial alemã quer que Merkel acabe com política de "défice zero" e invista mais

O presidente da maior federação industrial da Alemanha considera que é preciso acabar com a política de "défice zero", argumentando que agora é necessário resolver o "défice de investimento".
Federação industrial alemã quer que Merkel acabe com política de "défice zero" e invista mais
Reuters
Tiago Varzim 25 de setembro de 2019 às 13:44
A principal federação industrial alemã (BDI) intensificou o pedido ao Governo liderado por Angela Merkel para meter no bolso a política de "défice zero" e abrir os cordões à bolsa para reduzir o "défice de investimento". Para o presidente da BDI, Dieter Kempf, o Ministério das Finanças deveria focar-se no rácio da dívida pública e não no saldo orçamental.

Num encontro com a imprensa estrangeira em Berlim, Dieter Kempf definiu um alvo: a famosa regra de ouro das finanças públicas alemãs, conhecida por "schwarze Null" [zero negro], que supõe que haja um saldo orçamental equilibrado, ou seja, a ausência de défice, tal como aconteceu nos últimos anos em que houve excedentes orçamentais. A regra conhecida como o "travão da dívida", que foi inscrita na constituição alemã em 2009, limita o défice estrutural a 0,35% do PIB.

Para o líder da principal federação industrial alemã essa regra tem de cair para que o Estado possa investir mais. "O 'boom' económico está a chegar ao fim, o Estado pode pedir emprestado a taxas de juro negativas e nós temos um grande défice de investimento", afirmou, citado pela Reuters e pelo Financial Times. O próprio, que é um dos líderes empresariais mais respeitados da Alemanha, apoiou a regra há uma década quando esta foi introduzida, mas considera que na altura havia justificação para tal. "Agora temos uma situação diferente", assinalou.

Em causa estão investimentos na educação, nas infraestruturas digitais e na remodelação de edifícios para os tornar mais eficientes a nível energético, por exemplo. Os empresários alemães têm-se queixado da falta de rapidez da conexão à internet e a fraca cobertura dos telemóveis como obstáculos ao crescimento da economia, segundo o FT.

Apesar de os dados económicos indicarem que a Alemanha está prestes a entrar em recessão, tanto a chanceler Angela Merkel (CDU) como o ministro das Finanças Olaf Scholz (SPD) têm mantido a política de "défice zero". O Governo tem admitido que pode gastar mais para contrariar a travagem económica e também para avançar com um pacote climático para combater a emergência ambiental, mas sempre cumprindo a regra de um saldo orçamental equilibrado, o que limita a dimensão dos gastos que podem ser feitos. 

Contudo, Kempf considera que o "travão da dívida" dá alguma margem de manobra ao Governo que o "défice zero" não dá. Ou seja, o Executivo deve focar-se no rácio da dívida pública, que é influenciado pelo nível de dívida (para o qual contam os défices orçamentais anuais) mas também pelo crescimento económico. "Sob as regras do travão da dívida, o Governo pode subir [a despesa] entre 10 a 15 mil milhões de euros por ano, o que seria usado para investimento público" que iria mobilizar capital privado num total de "30, 40 ou 50 mil milhões de euros por ano", estimou. 

Ainda que peça uma ação mais musculada ao Executivo de Merkel, o líder da indústria alemã não quis dramatizar a situação, afastando o receio de que haja uma recessão profunda na maior economia da Zona Euro. No entanto, notou que os empresários que são membros da sua federação estão "muito cautelosos" em relação ao investimento que fazem neste momento.

Ao descrever a situação atual, Dieter Kempf identificou pela positiva a alta taxa de emprego, a força do consumo privado e do próprio investimento que está a refletir-se no dinamismo do setor da construção, por exemplo. Porém, "isso poderá mudar rapidamente", avisou, assinalando que "se as pessoas tiverem medo de perder o seu postos de trabalho, então a confiança vai dissipar-se e isso irá ter impacto na economia interna".



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