Zona Euro Cinzia Alcidi: Regra de ouro na redução de dívida "será impossível de cumprir"

Cinzia Alcidi: Regra de ouro na redução de dívida "será impossível de cumprir"

Nova regra europeia exige a países como Portugal, Itália, Grécia ou Irlanda superavites primários significativos e consecutivos por duas décadas. É impossível acontecer, diz Cinzia Alcidi, responsável pela unidade de política Económica do CEPS, que confia na flexibilidade da Comissão Europeia.
Cinzia Alcidi: Regra de ouro na redução de dívida "será impossível de cumprir"
Rui Peres Jorge 28 de novembro de 2013 às 00:02

Os países da periferia estão todos com níveis de dívida muito elevados. A Irlanda está nos 120%, Portugal e Itália nos 130%. Como é que se vai lidar com isto?

Fizemos um estudo em que tentámos perceber a evolução da situação da Europa entre agora e 2030. Assumidos que a crise acaba e que ficamos só com a ressaca para lidar. O resultado aponta para que dívida permaneça muito elevada e estabilize ao nível actual. As únicas formas de baixar a dívida serão ter inflação ou crescer. Mas não temos razões para acreditar que a inflação vá aumentar – estamos aliás a vê-la baixar – ou que o crescimento venha a ser especialmente forte. Isto significa também que será muito difícil gerar empregos. O desemprego começará a baixar no futuro, mas essencialmente devido ao envelhecimento.

Como vê a regra europeia de corte de dívida em que tem de cortar por ano cerca de 1/20 do "stock" de dívida que ultrapassa os 60% do PIB?

É impossível cumprir.

Antecipa outra falha nas regras orçamentais europeias?

Penso que a avaliação da Comissão Europeia basear-se-á no esforço que o País está a fazer, isto é, na direcção da evolução do "stock" de dívida. Reduções dessa dimensão, dados os fundamentais macroeconómicos, são impossíveis de atingir. A não ser que tenhamos alguma revolução industrial.

Como explica que uma regra destas tenha entrado para o ordenamento europeu?

Em 2010 foi preciso analisar e perceber como chegámos a esta situação. No início, o problema foi identificado como estando do lado orçamental e por isso procuraram regras que garantissem a disciplina orçamental. Esta foi uma abordagem limitada: é claro que havia todos os problemas orçamentais, mas não era apenas isso: havia as bolhas de crédito e de imobiliário e muitas outras coisas. A disciplina orçamental é muito importante numa união monetária, mas este tipo de regras devem ser definidas em tempos normais, não como resposta à situação actual.

O BCE podia fazer mais pelas economias da periferia?

O fio condutor da actuação do BCE tem de ser a média da união monetária. O que poderá mudar a sua actuação é a evolução da inflação. Se continuar a cair, alguma coisa mais terá de ser feita.

Deveriam comprar activos?

Se a inflação continuar a cair e a deflação for um risco, penso que o farão. Draghi tem sido muito mais pró-activo que Trichet e ele sabe bem os riscos associados à deflação.

Confia que os líderes europeus vão chegar a acordo na união bancária?

Há um entendimento que é uma condição essencial para uma união monetária viável. A questão é que todos querem proteger os interesses nacionais. O meu medo é que tenhamos um acordo que não seja bom e isso é o pior que nos poderia acontecer.

Porquê?

Porque colocaria a questão de lado por uma década, mas sem entregar os resultados devidos, correndo o risco de acabarmos por descobrir isso na próxima crise.

* Em Bruxelas




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