Zona Euro Rehn: FMI está a “lavar as mãos” da responsabilidade na crise grega

Rehn: FMI está a “lavar as mãos” da responsabilidade na crise grega

Relação entre Comissão Europeia e o FMI está a degradar-se cada vez mais. Olli Rehn reagiu com fúria ao relatório do FMI sobre os erros cometidos na gestão da crise grega e lembrou que Christine Lagarde chumbou a possibilidade de reestruturar a dívida grega, quando era ministra das Finanças francesa.
Rehn: FMI está a “lavar as mãos” da responsabilidade na crise grega

“Não penso que seja justo que o FMI lave as suas mãos e atire a água suja sobre os europeus”, disse Olli Rehn durante uma conferência em Helsínquia, citado pelo Financial Times.

 

Uma frase que mostra bem como estão tensas as relações entre dois dos membros da troika, sobretudo depois de o FMI ter revelado um relatório onde assume erros grosseiros na gestão da crise grega, imputando responsabilidades a Bruxelas, que se preocupava mais com as normas europeias do que com o crescimento.

 

Um dos pontos do relatório incide sobre o erro de não ter sido implementada uma reestruturação da dívida grega logo no início do programa de resgate.

 

Em declarações ao jornal britânico, Rehn lembra que Christine Lagarde, quando era ministra das Finança de França, resistiu a essa possibilidade de restruturar a dívida grega em 2010. Acrescentou ainda que o antigo director-geral do FMI, Dominique Strauss-kahn, também nunca defendeu a restruturação da dívida grega.

 

“Não me lembro de Dominique Strauss-kahn ter sugerido uma reestruturação da dívida grega [em 2010], mas lembro-me de Lagarde opor-se a esse cenário”, disse Rehn ao FT.

 

Na sua intervenção na conferência na capital finlandesa, Rehn fez uma analogia entre a coesão da troika e a guerra dos Balcãs, dos anos 90. Rehn argumentou que o FMI compara mal com os Estados Unidos, que na altura anunciou que “fomos para lá juntos, sairemos de lá juntos”.

 

“Esse era um jogo justo, essa era uma parceria real” entre as forças militares que intervieram nos Balcãs, disse Rehn, fazendo uma forte critica implícita ao FMI, sugerindo que a instituição sedeada em Washington está a querer sair de cena antes do jogo acabar.

 

Fim da troika acelerado?

 

Muitos analistas adiantam que este relatório pode marcar o fim da troika tal como esta funciona actualmente. A manifestação pública de uma discordância tão fundamental entre o FMI e os dois vértices europeus da troika – Comissão Europeia e BCE – pode levar o Fundo a sair mais cedo de programas de resgate no euro, focos de crescente controvérsia entre os seus accionistas não-europeus (designadamente Brasil, China, mas também EUA), inconformados com uma actuação que consideram excessivamente generosa por comparação com intervenções passadas, em especial na América Latina.


Mas esse processo está, na realidade, em curso. O Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) – o embrião de um Fundo Monetário Europeu destinado a socorrer Estados e bancos do euro – está a funcionar e tem prometida uma capacidade financeira superior à que pode mobilizar o próprio FMI. O que falta? Entre outras coisas, colmatar uma das outras falhas apontadas pelo FMI: conseguir agir com celeridade.

 

Olli Rehn, o comissário europeu dos Assuntos Económicos, sugeriu há um mês que o MEE se converta numa instituição plena da UE (hoje situa-se na esfera intergovernamental), capas de tomar decisões por maioria (ainda que reforçada) em substituição da actual exigência de unanimidade que fez esbarrar vários pedidos de ajuda em diversos parlamentos nacionais. Em resgates futuros, passaria assim a ser o MEE (e logo a Comissão e o BCE, agora numa espécie de "doika") a conduzir programas de assistência, num sistema comunitário, em prestaria contas ao Parlamento Europeu e aos parlamentos nacionais (locais onde o FMI nunca põe o pé). Mas a ideia é que ‘troika’ continue a seguir os países já intervencionados até ao fim dos seus programas - Junho de 2014, no caso de Portugal; 2016, no caso do programa de Chipre, onde o FMI só já entrou com 10% do pacote de financeiro (nos anteriores suportara um terço) já em jeito de saída.

Este relatório apresenta ainda potencial para funcionar como catalisador de uma discussão que será sempre longa e extremamente complexa, ao funcionar como elemento de pressão para que a Europa avance com mecanismos de renegociação que conduzam a um alívio efectivo da dívida acumulada pelos países intervencionados, entre os quais Portugal.

No caso da Grécia, a pressão do FMI (apoiado pela Alemanha) levou a que o segundo empréstimo externo fosse acompanhado, na Primavera de 2012, do perdão pelos credores privados de mais de metade da dívida pública por estes detida (essencialmente bancos e fundos de investimento). Mas há muito que se admite que a dívida grega (e não só) terá de voltar a beneficiar de um segundo perdão, agora por parte dos credores "oficiais" – os Estados e seus contribuintes. Neste processo, a Alemanha, que vai a eleições em Setembro, é o credor mais exposto por ser o principal accionista dos fundos europeus de resgate. 

 

 

O CASO DA GRÉCIA

Alemanha apoiava receita original do FMI

 

Por vontade da Alemanha (3º maior accionista do FMI) teria sido o Fundo a gerir o resgate à Grécia - foi a pressão da França e sobretudo do BCE que levou à criação da troika. Logo em 2010, Berlim tentou também desfazer o "mito" de que um país do euro não podia renegociar a sua dívida - que acabou por cair dois anos depois. Desse ponto de vista, este relatório do FMI conforta as teses originais alemãs, mas redobra pressão sobre uma questão hiper-delicada: perdão, agora da dívida grega detida pelos Estados.

 

 

"Desacordo fundamental" sobre reestruturação

 

Bruxelas manifestou o seu "desacordo fundamental" com o "timing" da reestruturação da dívida grega, argumentando que o relatório do FMI "ignora o risco de contágio" que decorreria de se impor em perdas aos credores gregos em 2010, em plena crise financeira e no contexto de uma união monetária. Considera ainda "totalmente errada e infundada" a alegação de Bruxelas não fez o suficiente para identificar reformas estruturais que promovessem o crescimento na Grécia.

 

 

BCE não gosta de perdões de dívida

 

Mário Draghi, presidente do BCE, desvalorizou o relatório, afirmando que não fará muito sentido avaliar decisões tomadas há três anos com base em dados que só hoje se conhecem. Foi, porém, o seu antecessor, o francês Jean-Claude Trichet, quem mais se bateu para que a dívida grega não fosse alvo de qualquer reestruturação aquando do primeiro empréstimo, por temer o efeito de contágio a outros países e que esse processo pusesse termo ao euro como moeda forte e estável.

(notícia actualizada com mais informação às 11h10)




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