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Dijsselbloem: “Se a desvalorização fosse solução, o Zimbabué seria o país mais rico do mundo”

Presidente do Eurogrupo diz que não foi uma moeda comum que roubou competitividade aos países do euro, nem seria o regresso a moedas nacionais que a restauraria. As reformas que estão pela frente – frisa – são difíceis, mas vão no sentido certo e deviam ter sido feitas há dez anos. Adiar não é mais opção.

Reuters
Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 27 de Maio de 2013 às 19:08
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O ministro holandês das Finanças e presidente do Eurogrupo recusou nesta segunda-feira, 27 de Maio, a tese de quem argumenta que países como Portugal resolveriam melhor os seus problemas fora do euro devido à possibilidade de desvalorizar a moeda para suportar o sector exportador.

 

Falando na sede da Comissão Europeia, em Lisboa, numa conferência organizada pelo "Movimento Europeu", Jeroen Dijsselbloem foi questionado por uma estudante sobre se o euro será hoje mais problema do que solução e sobre quem deveria abandoná-lo – os países da periferia ou os do centro. “Ninguém tem de sair do euro. Cada um de nós tem de enfrentar os desafios que estão nas nossas economias e sociedades, e é nessa base que temos de ser solidários”, respondeu.

 

Citando uma "piada" de Willem Buiter, conhecido economista holandês muito crítico da gestão da crise do euro e actual economista-chefe do Citigroup, Dijsselbloem prosseguiu: “Se a desvalorização fosse uma forma robusta de abordagem da economia, o Zimbabué seria hoje o país mais rico do mundo”. “Desvalorizar é atractivo e no curto prazo ajuda as exportações. Mas no longo prazo não fortalece a competitividade de um país. Essa depende fundamentalmente de se terem boas empresas e bons produtos feitos por trabalhadores qualificados”.

 

Falando perante dezenas de estudantes, mas também professores de Economia (como Paulo Trigo Pereira e Manuel Porto), economistas (caso de Vítor Bento, também conselheiro de Estado) e o presidente da Associação Portuguesa de Bancos, Faria de Oliveira, Dijsselbloem reconheceu que a “crise tem sido mais dura do que prevíamos, aqui e em toda a Europa, mas não perdermos a noção de direcção. Sabemos o que tem de ser feito na Zona Euro”.

 

“Temos de lidar com o problema da dívida nesta geração”

A forma como estamos a lidar com a crise na Zona Euro tem tudo a ver com manter o nosso sistema social, que distingue a Europa de outras áreas do mundo. Mas para manter o nosso sistema social, temos de o modernizar e fazer mais dinheiro
 
Jeroen Dijsselbloem


 

“Os problemas estruturais que temos de ultrapassar foram gerados ao longo de décadas, pelo que levarão tempo também a serem suplantados”. “Estou muito consciente dos desafios económicos sociais e até políticos em Portugal”, afirmou, após se ter reunido ao longo do dia com o Presidente da República, com o primeiro-ministro e com o  ministro das Finanças. Em resumo, disse, é preciso prosseguir com a redução do endividamento "a um ritmo sensato e progressivo" e ter "ambição nas reformas estruturais".

 

“Temos de lidar com o problema da dívida nesta geração”, frisou, argumentando que "é o fardo da dívida que impede os europeus de investir hoje em educação e em inovação”. “Não o podemos passar para a seguinte. Esta é provavelmente a dimensão mais difícil da nossa estratégia política”.

 

Em relação a Portugal, Dijsselbloem sublinhou que a implementação do programa de ajustamento está  a produzir resultados positivos, visíveis na correcção dos desequilíbrios externos e na estabilização dos mercados que permitiu a primeira emissão de dívida a dez anos, e que apontam para uma “perspectiva” de regresso do crescimento e do emprego.

 

Mas reconheceu também estar “perfeitamente consciente de que estes desenvolvimentos positivos ainda não são sentidos na vida quotidiana”, salientando que o combate ao desemprego, sobretudo entre os jovens, é prioridade mais urgente onde a Europa pode ajudar, com fundos estruturais e facilitação de crédito às PME. “Os jovens estão a pagar os erros feitos no passado”, sustentou, argumentando que, por exemplo, as reformas nos sistemas pensionistas de toda a Europa deveriam ter sido feitas há dez anos, precisamente para dar aos jovens a possibilidade de um dia  delas também usufruirem.

 

“Para mim, a forma como estamos a lidar com a crise na Zona Euro tem tudo a ver com manter o nosso sistema social, que distingue a Europa de outras áreas do mundo. Mas para manter o nosso sistema social, temos de o modernizar e fazer mais dinheiro – esse é basicamente o problema. E para fazer mais dinheiro, temos de ser globalmente mais competitivos”.

 

Para quem vê incompatibilidade entre austeridade e crescimento ou quem vê nas políticas monetárias expansionistas dos Estados Unidos uma melhor solução, Dijsselbloem respondeu que a estratégia europeia assenta na procura de um “caminho sustentável” – “temos de tentar fazer desta vez a coisa certa” – que não se reduz a “cortar despesa”.

 

“Temos de enfrentar de forma gradual e progressiva a necessidade de equilibrar os orçamentos públicos”, mas também “tornar as nossas economia mais competitivas – e muito trabalho tem ainda de ser feito aqui, na educação, da reforma dos sistemas pensionistas, que são problemas de todos”.

 

Sobre o pós-troika, considerou “prematuro” debater-se a eventual necessidade de um programa de transição (ou cautelar), respondendo que as modalidades do apoio europeu para facilitar o pleno regresso de Portugal aos mercados só serão avaliadas no início do próximo ano.

 

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