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Um ano após eleições, Grécia está num novo impasse. A televisão pública é a razão

A decisão do primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, de encerrar a ERT abriu uma ferida na coligação que governa o país. Já se fala em eleições antecipadas. As sondagens apontam para um novo impasse. A coligação encontra-se esta segunda-feira para conter a ferida. Mas o primeiro-ministro abriu-a ainda mais este fim-de-semana.

Reuters
Diogo Cavaleiro diogocavaleiro@negocios.pt 17 de Junho de 2013 às 11:59
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Foi há precisamente um ano que se realizaram as eleições na Grécia. E é precisamente neste dia que os membros da coligação governamental se vão reunir para tentar travar uma brecha que se abriu entre os partidos que a compõem: o abrupto fecho da televisão estatal.

 

O encerramento da estação de televisão e rádio públicas ERT, e a sua reabertura segundo um modelo que o governo diz que será mais moderno, é uma forma de mostrar o quão comprometida a Grécia está com as reformas estruturais. Contra a falta de transparência, contra o desperdício, tem dito o primeiro-ministro Antonis Samaras sobre uma acção que levou mais de 2.000 funcionários públicos para o desemprego.

 

Contudo, além de todos estes argumentos, esta decisão é o elemento que poderá conduzir o berço da democracia para novas eleições, depois dos dois sufrágios que ocorreram em 2012.

 

A decisão foi tomada, unilateralmente, pelo primeiro-ministro Antonis Samaras. O grego é o líder do conservador Nova Democracia, o partido que ganhou as eleições na Grécia a 17 de Junho de 2012. Mas a vitória foi com uma margem ligeira, o que o obrigou a procurar parceiros que sustentassem uma coligação governamental. Samaras encontrou-os: o socialista Pasok e a força Esquerda Democrática. Um ano depois, arrisca-se a perdê-los. São vários os analistas que comentam a possibilidade de se realizarem novas eleições na Grécia, com a coligação a perder os seus membros.

 

Num discurso em Atenas este domingo, Samaras declarou que ninguém quer eleições antecipadas. O primeiro-ministro afirmou que a questão em cima da mesa, com a polémica em torno do fecho da ERT, não é quem será responsável por um novo sufrágio. A questão é, disse, quem é responsável por bloquear reformas.

 

Se nas palavras e nas acções – tal como no discurso incendiário de Samaras de hoje [domingo] –, os parceiros de governo são evitados, então a coesão do governo está em risco”.
 
Fotis Kouvelis, líder do Nova Democracia, força política que dá suporte ao Governo

As críticas da coligação

 

“As movimentações feitas para impressionar, através da violação de princípios básicos da maioria parlamentar, não são reformas”, disse Evangelos Venizelos, o líder do Pasok, que pertence ao actual Executivo e que antes das eleições de 17 de Junho do ano passado foi ministro das Finanças. Como relembra a Reuters, a decisão de encerrar a ERT, tomada na terça-feira poucas horas antes de os ecrãs da estação passarem a negro, foi tomada através de um decreto ministerial, o que significa que não precisa de passar pelo Parlamento.

 

O Esquerda Democrática, através de um comunicado, também já falou sobre a postura de Samaras na questão da televisão pública helénica. E admitiu um problema na coligação. “Se nas palavras e nas acções – tal como no discurso incendiário de Samaras de hoje [domingo]–, os parceiros de governo são evitados, então a coesão do governo está em risco”, indicou a força política, a mais pequena entre as que compõe o Executivo, num comunicado citado pelo “The New York Times”. Fotis Kouvelis, o líder desta força, considera que a reforma no canal de televisão é necessária, mas acrescenta que a mesma precisa de ser reaberta imediatamente.

 

Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, terá mostrado o seu apoio a Samaras através de um telefonema este fim-de-semana, onde disse que era de “extrema importância responder a todos os acordos com a troika, incluindo os que dizem respeito à reforma do serviço público”, segundo cita o “The Guardian”.

 

Samaras sem força no governo e no partido

 

Os líderes dos partidos políticos que dão suporte ao Governo vão reunir-se esta segunda-feira. Evangelos Venizelos e Fotis Kouvelis encontrar-se-ão com Antonis Samaras pelas 19h30 de Atenas, 17h30 de Lisboa.

 

O “Kathimerini” escreve que Samaras propôs a formação de um comité interpartidário para contratar alguns funcionários, preparados para começar a transmitir alguns programas naquele que será o canal a substituir a ERT. Mas será necessária outra proposta, já que, alegadamente, essa proposta foi rejeitada pelos partidos mais pequenos que suportam o governo helénico.

 

Espera-se que antes dessa reunião, Samaras faça um discurso na televisão. O jornal grego “Kathimerini” escreve sobre a especulação que tem corrido de que essa transmissão televisiva possa ser feita na sucessora da ERT. Como assinala a publicação helénica, os ecrãs da antiga ERT não estão pintados a negro porque foram, entretanto, substituídos pelo novo logótipo da Nerit, nome da estação que a irá substituir.

 

Contudo, neste momento, além de se temer pela força da coligação, a própria posição de Samaras no seu partido poderá estar colocada em causa. O “Kathimerini”, na sua edição internacional, escreve que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Dimitis Avramopoulos, emitiu uma nota sobre a ERT, numa movimentação entendida como uma forma de se diferenciar da posição de Samaras, que intensifica os receios de que a liderança de Samaras no Nova Democracia esteja em perigo.

 

Novas sondagens, velhos impasses

 

O líder do Siryza, Alexis Tsipras, tem dito que o encerramento abrupto da ERT corresponde ao “clímax da política autoritária” de Samaras. Tsipras irá proferir um discurso esta segunda-feira e pediu aos gregos para se juntarem a ele na praça Syntagma, praça junto ao parlamento que tem sido o centro da contestação dos helénicos.


Os gregos não parecem apoiar esta medida, que tem levado a contestação internacional. Segundo uma sondagem feita pelo instituto Kapa para o jornal “Vima” e citada pela Bloomberg, 64% dos gregos não concordam com a decisão de Samaras. Outros 32% dão o seu apoio.

 

Ainda assim, a mesma sondagem indica que o Nova Democracia venceria as eleições por 21,4%, a uma ligeira margem de distância do principal partido da oposição, o Syriza, Coligação da Esquerda Radical, que alcança 21,1% das intenções de voto.

 

O Pasok e o Esquerda Democrática, as forças mais pequenas da coligação, alcançariam 6,3% e 3,9%, respectivamente. O socialista Pasok, que tem dividido o poder com o Nova Democracia nas últimas décadas, tem sido o mais castigado pelos gregos, numa altura em que a Grécia continua a estar numa situação económica difícil, registando o sexto ano de retracção económica.

 

Numa outra sondagem, esta para o jornal grego “Kathimerini”, o Nova Democracia arrecada 29,5% das intenções de voto, ao passo que o Syriza atinge os 27,5%. Os nacionalistas ligados à extrema direita Aurora Dourada são os terceiros mais votados, com 11,5% dos votos. Mais uma vez, surgem os parceiros de coligação como membros mais castigados: o Pasok com 6,5% dos votos, o Esquerda Democrática com 4,5%.

 

Caso se realizem, em breve, novas eleições, as percentagens obtidas pelos vários partidos antecipam uma nova dificuldade para formar um governo com maioria parlamentar, tal como aconteceu no ano passado. As eleições de 17 de Junho ocorreram porque os partidos não chegaram a acordo para resolver o impasse que ficou do sufrágio de 6 de Maio, onde nenhum partido, e nem o próprio presidente, conseguiu formar uma coligação.

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