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Cadilhe: “A troika é uma tripulação intercalar que procura salvar o barco após formidáveis rombos socratinos”

Miguel Cadilhe espera que a saída de Gaspar não inicie um “imprudente recuo”. Admite que o ajustamento produziria sempre “muitos estragos”, mas acredita que havia e há formas de o fazer com uma repartição mais equitativa dos sacrifícios. Lamenta também o adiamento da reforma estrutural do Estado.

Paulo Duarte/Negócios
Negócios 01 de Agosto de 2013 às 14:15
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"A troika não é mais do que uma tripulação intercalar que procura salvar o barco, após formidáveis rombos socratinos. A rota troikiana pode agora ser outra, na mesma direcção, e velocidade da viagem pode ser diferente. Porém, não se pode inverter a rota”. A advertência é feita por Miguel Cadilhe num longo texto publicado nesta quinta-feira no “Público” no âmbito de uma série de opiniões que o jornal está a recolher sobre o legado de Vítor Gaspar.

 

“O que para mim é claro, é que Gaspar faz muita falta à consistência e credibilidade das finanças públicas. Vamos ver se essa falta não é irremediável e se o dia 1 de Julho de 2013 não inicia um imprudente recuo. Oxalá que não”. Assim termina o texto, intitulado “A consideração devida a Gaspar”, no qual social-democrata, também ele antigo ministro das Finanças, considera que o maior mérito do agora ex-ministro das Finanças e da troika foi terem estancado o “descarrilamento das contas do Estado” e tê-las posto “em calhas que apontam para objectivos de rigor, regramento e sustentabilidade”, que “nos afastam do abismo financeiro”.

 

Todavia, estas calhas “atravessam um território pejado de desempregados e assentam numa distribuição dos sacrifícios que fere alguns requisitos de equidade”, contrapõe, frisando que são estas as “tremendas objecções políticas” que se devem fazer a Gaspar e à troika.

 

A esse propósito, Cadilhe admite que o ajustamento produziria sempre “muitos estragos”, mas acredita que “havia e há” formas de o fazer com uma repartição mais equitativa dos sacrifícios. “Admito a inevitabilidade (dos custos) , mas havia e há questões de grau – de graduação do tempo e do doseamento das medidas -, que não estão respondidas”. E “havia e há possibilidades de compensações e de ‘reptos europeus’”, insiste. Miguel Cadilhe critica também o adiamento da reforma estrutural do Estado  - de todas, essa é a principal critica, reconhecida publicamente pelo próprio ministro Gaspar pouco tempo antes da sua demissão - e a ausência de medidas estruturais do lado da despesa pública.

 

O antigo ministro das Finanças isenta, porém, Vítor Gaspar de responsabilidades nos erros das

previsões sobre a evolução do PIB, afirmando que se trata de um exercício muito arriscado, difícil e ingrato -  “só não percebe isto quem nunca passou por esta experiência de fazer previsões sob contingências actualmente anomalíssimas “ - , acrescentando que nas poucas variáveis que dependem mais estritamente da  sua actuação o balanço é positivo. É o caso da evolução do défice orçamental primário estrutural , que não inclui os juros da dívida que vem do passado e que está limpo dos efeitos da recessão e de medidas temporárias, que caiu de 7,6% em 2010 para 0,5% em 2012. “Ainda que possamos ter algumas dúvidas sobre o que é verdadeiramente estrutural, este progresso é precioso aos olhos dos credores e investidores internacionais”.

 

O indicador “mais precioso para os credores é a dívida pública” e este está num nível “insuportável”, adverte. Ainda assim, acrescenta, isso não se deve às políticas de Gaspar, refere Cadilhe, ao chamar a atenção para o “erro rudimentar vulgar e rudimentar” de quem o afirma e esquece três factores: que, coincidindo com a vinda a troika, o perímetro da dívida pública convencional foi alargado para abarcar passivos que já existiam (designadamente dívida de empresas públicas) mas não eram anteriormente captados; que, como o PIB tem caído, o rácio da dívida sobe matematicamente; e que a dívida continua a crescer enquanto houver défice, o que decorre do “acordo troikiano e socratino, assinado em 2011 e que ainda nos regre, que não cometia a barbaridade de pôr o défice instantaneamente em zero”.

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