Finanças Públicas Ferreira do Amaral: Taxa de desemprego pode ir até aos 20% se tivermos um corte de 4.000 milhões

Ferreira do Amaral: Taxa de desemprego pode ir até aos 20% se tivermos um corte de 4.000 milhões

João Ferreira do Amaral diz em entrevista ao “Público” que “começar com o corte de 4.000 milhões de euros foi um mau começo”. E isto por várias razões. A primeira delas porque “é um corte que macroeconomicamente não faz sentido”.
Ferreira do Amaral: Taxa de desemprego pode ir até aos 20% se tivermos um corte de 4.000 milhões
Negócios 27 de janeiro de 2013 às 18:46

“Se tivermos um corte de 4.000 milhões e, ainda para mais, tudo concentrado em 2014, isso significa um impacto recessivo no PIB que eu avalio em cerca de 3% e provavelmente uma taxa de desemprego que vai até aos 20%”, refere João Ferreira do Amaral na entrevista hoje publicada. “A não ser que fosse compensado com uma descida de impostos imediata”, ressalva. “Mas aparentemente não é essa a ideia. Isto cria uma dúvida total sobre se isto é exequível ou não”.

 

Depois, prossegue o economista, “do ponto de vista da própria acção do Estado, não é boa política, porque se o corte de 4.000 milhões for para levar a sério, vai-se cortar de uma forma que acaba por não ter racionalidade, porque a pressão para cortar é tão grande”. Teria sido preferível, diz, “olhar para aqueles aspectos onde há realmente ineficiências do Estado e discutir a forma de as ultrapassar, só depois retirando as poupanças que daí adviriam.

 

“Troika fez avaliação péssima da situação portuguesa”

 

Ferreira do Amaral, que acompanhou os programas do Fundo Monetário Internacional em 1978 e em 1983, sublinha que nessas duas ocasiões percebeu o seu sentido. Mas, desta vez, não entende a “lógica” da troika.

 

“A troika fez uma avaliação péssima da situação portuguesa. Eu acompanhei as intervenções do FMI em 1978 e 1983 e, nessa altura, podia concordar-se ou não, mas percebia-se a lógica. Sabe-se sempre que o FMI vai além daquilo que é necessário. Por exemplo, em 1984, reequilibrámos a balança de pagamentos mais depressa do que o previsto. Mesmo em 1977, o programa era excessivo, acabou foi por não ser cumprido e ainda assim acabou por atingir os resultados. Mas percebia-se a lógica. Eu, neste programa, não percebo a lógica”, refere.

 

“Eles [FMI] não estão habituados a fazer programas para países que não têm moeda própria e muitos dos instrumentos que estavam habituados a usar não estão a funcionar. Deviam ter criado e discutido uma doutrina sobre como intervir em países sem moeda própria. A única solução com que apareceram foi com a descida de salários, que tem limites próprios”, comenta o professor universitário, acrescentando que a culpa da situação é “principalmente” das autoridades europeias, “porque não era preciso vir o FMI”.

 

Para o economista, Portugal precisa de um “choque cambial”. Ou seja, sair do euro. “O único choque competitivo que teria dimensão suficiente para nos repor um bocadinho de sustentabilidade é uma desvalorização cambial. Continuo convencido disso”, realça.

 

Sobre se há riscos numa saída do euro, João Ferreira do Amaral confirma que sim, que “tem riscos, como todas as mudanças têm riscos”. “Mas nós corremos um risco muito grande ao estar na Zona Euro”, sublinha. “Se tivermos um episódio, como tivemos em 2008, em que o euro chega aos 1,6 dólares, a nossa estrutura produtiva, o que resta dela, cai inevitavelmente. Isto é um risco tremendo”.

 

Segundo Ferreira do Amaral, “uma saída do euro – para não sermos empurrados unilateralmente, o que seria um desastre – tinha de ser feita, em primeiro lugar, quando a situação na Zona Euro estiver estabilizada e com a economia europeia não estando em recessão. Portanto, não seria uma coisa para amanhã”.




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