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Filipe Garcia: Ano eleitoral será "tentador" para Governo ser "expansionista"

O economista Filipe Garcia admite que, sendo 2015 um ano eleitoral, será "tentador" para o Governo fazer um orçamento "expansionista" ou "resvalar" na sua execução, embora a estratégia mais correcta a longo prazo fosse elaborar um documento "equilibrado".

Lusa 12 de Outubro de 2014 às 14:47
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"O facto de estarmos em ano eleitoral pode ser tentador para o Governo que, mesmo que apresente um orçamento mais próximo dos 2,5% de défice, pode depois, na própria execução, deixar as coisas resvalar um pouco", afirmou o presidente da IMF - Informação de Mercados Financeiros em entrevista à agência Lusa.

 

Considerando que a "crua realidade em Portugal" é ser "mais provável que o Governo seja reeleito se gastar mais", o economista admite que "pode ser tentador ir por esse caminho": "Até porque, se não for reeleito, também não será este Governo que, depois, terá que fechar o ano orçamental, porque um outro executivo entraria em funções no último trimestre do ano", nota.

 

Para Filipe Garcia, trata-se da já "velha discussão entre o curto e o longo prazo", sendo que, "numa perspetiva mais estratégica - que seria a correta - se deveria apontar para um orçamento mais equilibrado" e não considerar uma situação deficitária como "normal".

 

"Infelizmente a tática política, mesmo ao nível da zona euro, tende a prevalecer sobre estas estratégias de prazo mais longo", lamentou, sustentando que tal resulta da "dinâmica europeia" atual e do "clima de paz podre" que se vive hoje na zona euro, em que "os países continuam a endividar-se e continua a não haver convergência orçamental".

 

"Mais tarde ou mais cedo teremos dentro da zona euro uma nova crise da dívida em que o BCE [Banco Central Europeu] será chamado a intervir, provavelmente comprando dívida pública da generalidade dos países", antecipa.

 

"Nessa altura – alerta - os países que estiverem mais vulneráveis vão ser mais afetados, tal como aconteceu a Portugal na primeira crise da dívida", pelo que a previdência apontaria para um orçamento o mais equilibrado possível.

 

Segundo Filipe Garcia, "a única maneira de ter mais poder negocial com os credores é tendo uma posição orçamental mais favorável", mas "não é isso que se está a ver e, em ano eleitoral, provavelmente ainda se verá menos".

 

"As propostas que têm surgido a nível de outros partidos que pretendem ser Governo também não apontam para o equilíbrio orçamental, portanto acho que vamos continuar a empurrar este problema com a barriga para, mais tarde, ele voltar inevitavelmente a aparecer", sustentou.

 

Convicto de que a previsão de um crescimento de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) português em 2015 "pode ser um pouquinho ambiciosa e otimista demais", penalizada pela evolução da procura externa, Filipe Garcia aponta 1% como "um número suficientemente conservador para trabalhar".

 

Mas alerta: "Se [em 2015] estivermos a falar de um orçamento expansionista, em que o Governo decida não continuar com cortes na despesa e gaste mais do que se está a prever nesta altura, então pela procura interna até podemos ter um crescimento do PIB um bocadinho mais alto…não será é pelas melhores razões…".

 

Relativamente às necessidades de financiamento da economia portuguesa, o presidente da IMF diz serem, "em termos relativos, muito grandes" com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) a colocarem o país este ano no 4.º lugar e, em 2015, na 5.ª posição do ‘ranking’ das economias com maior peso das necessidades de financiamento no PIB.

 

"Estamos no topo de um ‘ranking’ que não é muito bom, mas parece-me que não vai ser muito difícil financiarmo-nos, pelo menos no futuro previsível, porque as condições de mercado nunca foram tão boas para a emissão de dívida soberana dos países da zona euro e não é de esperar que, nos próximos meses, essa situação se altere", sustentou.

 

Embora elogie o "trabalho bem feito" que está a ser feito na reestruturação das maturidades da dívida portuguesa, o economista adverte que "o que verdadeiramente ajuda à sustentabilidade da dívida é não ter défice e, esse, é um caminho onde Portugal ainda não está".

 

"Penso que será muito difícil que Portugal baixe o seu nível de dívida pública quer em termos absolutos, quer relativos, enquanto não tiver um orçamento mais equilibrado. Estamos a beneficiar do efeito de juros mais baixos, mas não estamos ainda estruturalmente a caminhar para níveis de dívida que sejam saudáveis", refere.

 

Neste contexto, admite como "possível" uma eventual antecipação do reembolso português à ‘troika’, numa decisão que "seria, sobretudo, política e simbólica" e que poderá vir a "fazer sentido se os juros continuarem a cair e Portugal puder continuar a emitir [dívida] como tem emitido, a custos de endividamento mais baixos do que aqueles a que o FMI [Fundo Monetário Internacional] empresta".

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