Finanças Públicas Ricardo Reis: "Não estamos assim tão longe de um próximo resgate"

Ricardo Reis: "Não estamos assim tão longe de um próximo resgate"

O professor na Universidade de Columbia, nos EUA, defende a emissão de dívida pública indexada à inflação e com maturidades mais longas. Estratégias para poupar dinheiro e reduzir o risco de um segundo resgate.
Ricardo Reis: "Não estamos assim tão longe de um próximo resgate"
Rui Peres Jorge 06 de outubro de 2014 às 14:17

Portugal precisa de uma gestão de dívida pública que reduza os riscos de um segundo resgate caso alguma coisa corra mal, em Portugal ou no estrangeiro. Para isso ajudaria emitir dívida com maturidades mais longas, indexar a taxa de juro das obrigações à inflação nacional, e apostar na diversificação dos tomadores de dívida que se mantém excessivamente concentrada nos bancos portugueses.

 

As propostas foram apresentadas na conferência "Afirmar o futuro", promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian, que reúne em Lisboa segunda e terça-feira académicos nacionais e estrangeiros para debater políticas públicas para o país.

 

Dado o elevado nível de dívida e a sua concentração nos balanços dos bancos portugueses, Portugal "não está assim tão longe de um segundo resgate", avisou Ricardo Reis, uma avaliação que coincide com a de Paulo Trigo Pereira, outros dos académicos participantes, que antes já havia defendido que se por alguma razão as taxas de juro voltarem a subir, "Portugal tem um resgate no dia a seguir".

 

Ricardo Reis defende a criação de instrumentos de mutualização de dívida na Europa, mas reconhece que esse é um caminho político complexo e lento. O mesmo se passa com a criação de um mecanismo comum de transferências para subsídio de desemprego que tem vindo a ser proposto e debatido por alguns economistas e políticos. Por isso, na sua intervenção privilegiou instrumentos que possam ser usados a curto prazo, que dependam exclusivamente das autoridades nacionais, e que permitam reduzir o risco de um segundo resgate.

 

Por um lado defendeu a emissão de dívida pública indexada à inflação nacional que, por ser mais baixa que a média europeia, permitiria ao país poupar na despesa com juros, pelo menos nas fases de desvalorização e deflação como a actual. "Esta é uma proposta que tem exactamente o mesmo efeito" que uma transferência externa (por exemplo através do subsídio de desemprego comum) na fase baixa do ciclo, e que permitiria poupar qualquer coisa como 150 a 200 milhões de euros por ano, nas contas do economista.

 

Em segundo lugar, Ricardo Reis defendeu a importância do Tesouro nacional apostar em emissões de dívida de mais longo prazo. É que se não existir dívida pública para amortizar e o país estiver a gerar excedentes ou saldos equilibrados nas contas públicas, então as taxas de juro podem subir, que o País não vai à falência - pela simples razão que não tem pagamentos a fazer.

 

"Queria sugerir emitir dívida de muito longo prazo. Esse é o seguro para evitar uma nova crise. Se houver um aumento das taxas de juro nós podemos ter novamente problemas de tesouraria", mas isso é "evitável prolongando as maturidades e pedindo emprestado a mais longo prazo", defendeu.

 

Bancos nacionais devem reduzir exposição à dívida pública

Queria sugerir emitir dívida de muito longo prazo. Esse é o seguro para evitar uma nova crise. 
 
Ricardo Reis

 

O professor a leccionar na Universidade de Columbia nos EUA defendeu ainda a importância dos bancos nacionais reduzirem a sua exposição à dívida pública, e de se incentivar a compra directa de dívida por parte dos pequenos investidores. "Não há necessidade de serem os bancos a intermediarem a compra de dívida pública. Nos EUA posso comprar directamente ou através de fundos de pensões", exemplificou.

 

"Temos um sistema financeiro em que os bancos têm uma enorme intervenção na dívida pública e isto não é saudável nem para os bancos nem para o país", continuou, defendendo a redução de exposição dos bancos à República "permitiria mudar o enfoque [dos banqueiros na gestão dos seus balanços] e libertar crédito para a economia".

 

Estas são transformações que devem ser feitas agora para melhor adaptar a economia à nova arquitectura financeira europeia, nomeadamente à união bancária, que se espera que possa aliviar as pressões financeiras na Zona Euro, permitindo a entrada de algum capital externo no país. É importante que nesse caso Portugal não cometa os erros que no passado o impediram de crescer.

 

Para o economista um dos factores determinantes a explicar a incapacidade de crescimento nacional após a adesão ao euro foi o facto do sistema financeiro, dominado pelo bancos, ter canalizado o capital que aflui em massa à economia para os sectores menos produtivos: Estado e serviços não transaccionáveis.

 

"O drama do século XXI em Portugal [– 15 anos sem crescimento –] é enorme e sério", afirmou: "Se Portugal não crescer mais dois ou cinco anos é todo regime que está em risco".




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