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Uma greve que dá jeito a todos (até ao Governo)

Sindicatos da Função Pública afectos à CGTP marcaram greve para esta sexta-feira. Especialistas defendem que estas greves ajudam a passar a mensagem dos partidos que apoiam o Executivo de Costa e explicam por que razões surgiram agora estes protestos.

Pedro Elias
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A Função Pública faz esta sexta-feira a segunda greve da era da geringonça, numa altura em que os partidos que apoiam o Governo já negoceiam o Orçamento do Estado para 2018 e em que se intensificam os protestos de algumas corporações, como por exemplo os médicos. Mas será esta paralisação prejudicial para os partidos que formam a maioria de esquerda? A resposta parece ser "nem por isso".

"A reposição de rendimentos e de direitos do trabalho que está a ser feita por este Governo é importante e devia ser feita de forma mais profunda e mais rápida", diz a deputada do Bloco de Esquerda Joana Mortágua. E, por isso, a "luta dos trabalhadores ajuda a este objectivo para que o Governo entenda que temos uma pressão social forte para avançar", explica a parlamentar, deixando assim claro que a greve de sexta-feira vai ao encontro das pretensões do Bloco.

O PCP prefere não destacar a coincidência entre os motivos da greve, convocada pelos sindicatos da Função Pública da CGTP, com a agenda do partido. Cabe aos trabalhadores "definir o âmbito de interesses a defender através da greve", respondeu fonte oficial ao Negócios.

Mas, duas das questões que fazem parte do pacote de reivindicações que justifica a greve fazem parte da agenda do Governo para 2018, mas também do Bloco, PCP e Verdes. São elas o descongelamento das carreiras na Função Pública e a integração de precários no Estado.

O professor do Instituto de Ciências Sociais António Costa Pinto vê aspectos benéficos nesta paralisação para os partidos que apoiam o Executivo. "À medida que os acordos à esquerda vão sendo sucessivamente renovados, quer da parte do Bloco quer da parte do PCP é natural que haja alguma pressão."

Mas se as greves podem servir as causas à esquerda do PS – e não afectar as relações entre eles, como defende Costa Pinto –, ajudam também o próprio PS e, consequentemente, o Governo. "Ironicamente estas greves são boas para os partidos da maioria, porque salientam que estamos perante um Governo PS e ilustram que o PS não mudou", explica o professor de ciência política. Ou seja, ficam assim afastados os receios iniciais de radicalização do PS mencionados por alguns críticos desta solução governativa.

"A ideia que existia de que a esquerda ia criar instabilidade" está afastada, apesar da existência de algumas greves este ano, admite também o investigador do ISCTE Pedro Adão e Silva. "Para o PS e para o PCP, esta sensação de que há mais paz social é uma vantagem", explica o sociólogo.

Os porquês da greve

Costa Pinto explica que "é natural que, após este período de baixíssima taxa de greves, seja retomada alguma conflitualidade social". Até porque, "os [bons] indicadores económicos e orçamentais [impulsionados pela saída de Portugal do Procedimento por Défices Excessivos (PDE)] são propícios a que haja pressão sobre o Governo para continuar a devolver rendimentos", argumenta.

Consciente disto mesmo, o Governo tem-se esforçado por baixar as expectativas em torno do Orçamento. Mário Centeno já disse que a eventual folga resultante de mais crescimento será usada para abater à dívida pública – mantendo o foco nas regras de Bruxelas e dos mercados, apesar da saída do PDE. Também o presidente do PS tentou esta quinta-feira conter a esperança perante resultados positivos na frente orçamental e económica. "Há bons sinais, mas não estamos em condições de fazer a reversão completa" da herança do anterior Governo, disse, citado pelo Observador.

Adão e Silva acrescenta outras razões para as paralisações. Estas greves têm uma "natureza quase burocrática" – ou seja, afectam a vida das pessoas, mas têm pouca visibilidade política e pública porque "não são alavancadas pelo PCP". Além disso, o sociólogo acredita que "as notícias de antecipação das negociações do Orçamento levaram as corporações a perceber que tinham de marcar terreno" sob pena de o Orçamento ser negociado apenas pelos partidos.

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