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Mossack Fonseca: a criação do filho de um nazi e de um político romancista

Conheça a empresa do Panamá que está no centro do escândalo global de corrupção e evasão fiscal, que até vendia seminários para a prevenção da fraude e lavagem de dinheiro.

Reuters
António Larguesa alarguesa@negocios.pt 04 de Abril de 2016 às 15:08
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O mega escândalo de corrupção e evasão fiscal conhecido por "Papéis do Panamá", que envolve centena e meia de responsáveis políticos e personalidades de todo o mundo, teve origem em 11,5 milhões de documentos e 2,6 terabytes de informação provenientes da base de dados interna da Mossack Fonseca & Co. Uma discreta sociedade de advogados que arrancou em Março de 1986 após a fusão do Bufete Fonseca Mora e do Estudio Juridico Jürgen R. D. Mossack, os pequenos negócios de dois homens que só nos últimos meses começaram a sair da penumbra mediática.

O alemão Jürgen Mossack, 67 anos, nasceu em Fürth, na região da Baviera, mas foi ainda em criança viver com a família para o Panamá, onde em 1973 completou o curso de Direito na católica Universidade Santa María La Antigua. Num curto regresso à Europa, de onde saíra nos anos 1960, depois de terminar o curso ainda trabalhou como advogado em Londres, regressando depois ao Panamá para criar a firma que viria a fundir com a de Ramón Fonseca Mora.

 

De acordo com a investigação internacional conhecida por "Panama Papers" – envolve mais de cem órgãos de comunicação social de todo o mundo e começou a ser divulgada este domingo, 3 de Abril –, o pai de Jürgen integrou as Waffen-SS, o famoso braço armado do partido nazi durante a Segunda Guerra Mundial. No final do conflito, comprovam ficheiros das forças armadas norte-americanas, ofereceu os seus serviços ao governo dos Estados Unidos como informador sobre "ex-nazis que se tornaram comunistas" e para espiar actividade comunista em Cuba.

 

O sócio de Mossack na sociedade com sede no Panamá, que o The Guardian descreve como a quarta maior fornecedora mundial de serviços "offshore" e que tem operações directas na Holanda, Suíça, Luxemburgo, Malta, Chipre, Bahamas ou Ilhas Virgens, chama-se Ramón Fonseca Mora, tem 63 anos e é panamiano de nascimento. Estudou Direito e Ciências Políticas na Universidade do Panamá, tendo mais tarde completado a sua formação na reputada London School of Economics, no Reino Unido.

 

Acossado por várias acusações e alegações de fraude, incluindo no âmbito da operação Lava Jato, no Brasil, a 11 de Março afastou-se da actividade política, em que se destacava como presidente do Partido Panameñista e também conselheiro próximo do Presidente da República. Como confidenciou em Outubro de 2014 no programa televisivo "Dime Quién Eres" (onde reconheceu também que dança bem e que gosta de pescar), tinha uma comunicação muito directa e informal com Juan Carlos Varela, com quem falava através do dispositivo BlackBerry e da aplicação WhatsApp.

 

 

O homem que esteve seis anos, até 1982, "a tratar de salvar o mundo" como assessor jurídico numa comissão especializada que funcionava nos escritórios das Nações Unidas em Genebra, na Suíça, fala inglês, espanhol e francês e é conhecido por escrever romances e contos, tendo até vencido por duas vezes o prémio literário Ricardo Miró. Durante a juventude ainda lhe passou pela cabeça e pelo coração ser padre, mas acabou por tornar-se "mais materialista".

 

A operação de fusão das duas sociedades ocorreu numa fase de instabilidade política e económica em que o país vivia sob a ditadura militar de Manuel Noriega. Com o país nas notícias pelas suspeitas de tráfico de droga e lavagem de dinheiro, a sociedade deu logo em 1987 o primeiro grande passo no estrangeiro, ao estabelecer-se nas Ilhas Virgens Britânicas. Segundo o Irish Times, metade das empresas que aparecem nos ficheiros agora libertados estão sediadas naquele paraíso fiscal.

 

Mais de 30 anos depois, a Mossack Fonseca tem presença directa e indirecta em 42 países dos cinco continentes, conta com uma rede de 600 colaboradores e já esteve ligada à criação de cerca de 300 mil empresas. Conhecido pela especialização em esquemas de evasão fiscal e gestão de fortunas, o grupo, que está a ser alvo de dezenas de comentários negativos na página oficial do Facebook, disponibiliza vários serviços, como uma solução de armazenamento digital e administração electrónica de documentos e imagens que abrange também seminários de prevenção de fraude e lavagem de dinheiro.

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