Juiz Carlos Alexandre queixa-se de cortes de ordenado na era Sócrates

Carlos Alexandre, o juiz do tribunal Central de Instrução Criminal com processos mediáticos em mãos como a Operação Marquês, que envolve José Sócrates, queixou-se dos cortes de vencimento que a classe da magistratura sofreu na última década, iniciados no Governo do ex-primeiro-ministro.
Jornal de Negócios
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Paulo Zacarias Gomes 08 de setembro de 2016 às 21:36

"Sofremos cortes no ordenado ao longo dos últimos quase dez anos e atingiram severamente mais as magistraturas do que outros. Os primeiros cortes ocorreram logo no governo do senhor engenheiro José Sócrates," afirmou esta quinta-feira à noite, em entrevista ao Jornal da Noite na SIC.


Numa entrevista em que recordou a sua infância "feliz e sem luxos" em Mação e a austeridade dos pais, "pessoas com grande sentido de justiça e honradez, que pagavam a quem deviam", disse não ter fortuna pessoal e precisar do trabalho para sustentar as suas despesas.


"Não tenho fortuna herdada de meus pais ou sogros, preciso de dinheiro para pagar os meus encargos e não tenho maneira de os sustentar se não for pelo trabalho honrado e sério," disse à estação de televisão, dando como exemplo ter trabalhado num ano 48 sábados em 52.


A Operação Marquês - de que José Sócrates é um dos arguidos e que investiga indícios de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal -, aguarda nas mãos de Carlos Alexandre uma decisão de acusação ou arquivamento.


Escutado, mas não incomodado

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Na entrevista, Carlos Alexandre reconheceu ainda que as suas conversas públicas e telefónicas são alvo de atenção e sugeriu que tem sido escutado ao telefone.


"Por vezes as pessoas não conseguem estabelecer contacto, as chamadas vão para o 'voice-mail' quando o telemóvel está na carga máxima. Não estou a imputar a ninguém, mas sei a maneira de proceder", afirmou.


Admitindo que se sente observado e escutado no dia-a-dia "sob várias formas", diz no entanto que não está em condições de comprovar as suspeitas, afirmando no entanto que leu o manual do processo das secretas. Ainda assim, diz que a situação não o incomoda: "Falo abertamente com quem tenho de falar, não tenho segredos, não vejo motivo para tanta preocupação", garante.


Na entrevista, negou que a informação que detém (a que se alia a "memória muito forte") lhe dê poder e diz que, se tivesse medo não se "levantava da cama."
"Aceito o meu futuro e o meu destino. Enquanto o assunto for comigo, não vejo problema. Estou em paz com as decisões que tomei", disse. Mas garante ser uma "pessoa de que ninguém deva ter medo."

Perguntado se se considera um superjuiz, diz que a designação se trata de uma "corruptela" que só lhe trouxe "animosidades" na magistratura. E que talvez só não vai embora do Ticão, como é conhecido o Tribunal Central de Instrução Criminal, por ter uma superequipa que não ganha mais por fazer mais uma hora.

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"Não escrevi nenhum livro, farto-me de trabalhar, não tenho pós-graduações, logo aqui perco muita valoração", justifica, quando perguntado porque não concorre ao Tribunal da Relação. Além disso, referiu que as questões económicas e familiares também condicionam essa opção.


E, sem "muitos amigos" e com uma vida "espartana", garante que não tem a política nos seus horizontes: "Não me vou pôr em tamancas de político porque eu não sou político."


(Notícia alterada às 12:18 de 9 de Setembro, com inclusão de link para a entrevista)

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