Américas 13 de Março: O dia que pode mudar o rumo do Brasil

13 de Março: O dia que pode mudar o rumo do Brasil

Os movimentos contra a corrupção e a favor da destituição de Dilma haviam marcado a manifestação há mais de um mês. Nesta semana, adeptos do PT e de Lula resolveram também ir para as ruas – também neste domingo, um ano após as maiores manifestações de sempre no país. As autoridades temem sangue. Os mercados esperam clarificação.
13 de Março: O dia que pode mudar o rumo do Brasil
Reuters
Eva Gaspar 10 de março de 2016 às 12:43

"Sim, receio um conflito. Receio, inclusive, o surgimento de um cadáver. E a História revela o que leva a esse surgimento". A advertência é de Marco Aurélio Mello, juiz do Supremo Tribunal Federal, e surgiu depois dos defensores do Partido dos Trabalhadores (PT), no governo, e do ex-presidente Lula da Silva, agora formalmente suspeito em dois processos da justiça, terem apelado a uma mobilização geral para este domingo. Sucede que esse é precisamente o dia para o qual está marcada, há mais de um mês, uma nova manifestação contra a corrupção e a favor da destituição da actual presidente Dilma Rousseff, um ano depois das que se acredita terem sido as maiores de sempre no Brasil. "As manifestações devem ocorrer porque estamos num Estado democrático de Direito. Mas que cada um tenha o seu dia. Não interessa ao povo brasileiro o conflito", apelou o juiz.


A detenção para inquérito de Lula da Silva, ocorrida na sexta-feira da semana passada, acentuou o clima de polarização política no país. A adesão às manifestações pró-impeachment ganharam mais fôlego, assim como os protestos em defesa de Lula e do PT, que prometem surgir um pouco por todo o país. O receio de confrontos sangrentos entre os dois grupos cresceu depois de Gilberto Carvalho, número dois do PT, ter afirmado que prender Lula seria brincar com fogo e poderia levar à radicalização da luta política.

Oficialmente, o partido não convocou nenhuma manifestação, mas os seus militantes e simpatizantes têm sido chamados, sobretudo nas redes sociais, por membros da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Movimento Sem Terra (MST). Trata-se de organizações próximas do PT que surgem sempre ao lado de Lula, agora investigado pelo Ministério Público por lavagem de dinheiro e também no âmbito da operação Lava Jato, que deslinda uma enorme rede de corrupção centrada na Petrobras, a estatal brasileira que se converteu na empresa mais endividada do mundo. "O que eles fizeram hoje foi fazer com que, a partir da semana que vem, eu saia por esse país em passeatas. (…) Há muito tempo o PT estava de cabeça baixa. Há muito tempo todo dia alguém faz o PT sangrar. É preciso recomeçar. Vamos recomeçar", apelou Lula, antigo presidente do país e fundador do partido, poucas horas após prestar depoimento à Polícia Federal, numa conferência de imprensa sem direito a perguntas dos jornalistas em que deixou implícito o seu desejo de voltar a ser candidato à presidência em 2018. 

O Governador de São Paulo, Geraldo Alckim (PSDB, na oposição), avisou, entretanto, que não permitirá que os manifestantes pró-Lula ocupem no domingo a artéria principal, a Avenida Paulista. "Havia uma solicitação para ter outra manifestação no sentido contrário e nós dissemos que no mesmo local não pode. Esse pleito a favor do impeachment, contra a corrupção, já estava agendado há mais de um mês", explicou. "A situação política agravou-se ainda mais no país. Domingo estamos preparados a oferecer toda a segurança para que as pessoas possam se manifestar", assegurou o governador.

O risco de desacatos graves também preocupará o Palácio do Planalto. "Governos precisam de paz, para que nós possamos ter condições de enfrentar a crise e de retomar o crescimento", disse na terça-feira Dilma Rousseff. A presidente, afilhada política de Lula, está a ser alvo de um processo de "impeachment", que corre no Congresso e no Senado, sendo acusada de ter prevaricado enquanto presidente da Petrobras (cargo que ocupou entre 2005 e 2010) e de ter violado, já como presidente do Brasil, a lei das finanças públicas e a Constituição com manobras financeiras destinadas a esconder a real situação financeira do país. É ainda provável que o seu nome acabe por surgir também directamente envolvido na operação Lava Jato, na sequência de denúncias recentes - e particularmente graves - feitas por Delcídio do Amaral, senador do PT, que está a negociar com a justiça mais uma "delação premiada" no âmbito do processo conduzido pelo Sérgio Moro que, tem vindo, por seu turno, a receber ameaças de morte - algumas através de perfis falsos no Facebook.

cotacao Se o comparecimento for significativo, os legisladores que apoiam Rousseff poderiam facilmente abandoná-la, aumentando bruscamente a probabilidade de uma votação pelo impeachment em Abril ou Maio. Institute of International Finance

Mercados querem fim da incerteza

Reeleita em Setembro de 2014 por curta margem, Dilma lidera hoje um país mergulhado na maior recessão de que há memória (o PIB está a cair 4%), com desemprego e inflação na casa de 10%, ratings de regresso a "lixo", défice orçamental próximo de 5% do PIB e juros das obrigações soberanas a 10 anos a rondar os 16% - um caldo que pode tornar inevitável a suspensão do pagamento da dívida pública e um novo pedido de assistência financeira ao FMI, como sucedeu nos anos 80.

Também a economia e os mercados financeiros estão expectantes sobre o que poderá suceder neste domingo. "Caso as manifestações sejam tímidas, o Ibovespa deve recuar e o dólar subir, pois com a continuidade deste governo, o cenário económico de 2017 será bastante ruim", refere a consultora Inva Capital.

O Financista, site noticioso brasileiro de economia, cita ainda um relatório do IIF (Institute of International Finance), organização que reúne 500 instituições financeiras do mundo, segundo o qual as manifestações de domingo podem "virar o jogo" caso se traduzam numa nova reprovação Dilma nas ruas, numa altura em que a sua popularidade está abaixo de 10%, segundo alguns inquéritos. "Se o comparecimento for significativo, os legisladores que apoiam Rousseff poderiam facilmente abandoná-la, aumentando bruscamente a probabilidade de uma votação pelo impeachment em Abril ou Maio", refere o relatório, numa alusão à possibilidade de ser concedida liberdade de voto no processo de destituição de Dilma aos deputados e senadores do PMDB – partido aliado do PT e de que é membro o vice-presidente do Brasil Michel temer.

Para já "a incerteza é a única certeza", mas a investigações da Lava Jato e a detenção do ex-presidente Lula para interrogatório enviaram um sinal poderoso de que "ninguém está acima da lei", acrescenta ainda o IIF, segundo o qual a possibilidade de que a presidente sobreviver ao seu mandato parece "cada vez mais improvável."




pub

Marketing Automation certified by E-GOI