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Conheça a "bomba Delcídio" que ameaça arrasar a cúpula do poder no Brasil

Dilma Rousseff passou ilesa ao longo de dois anos de operação Lava Jato, mas ficou agora a um passo de ser formalmente investigada. Já Lula da Silva está prestes a ser convertido em arguido. Aécio Neves, líder do maior partido da oposição, também não escapa. E Michel Temer arrisca igualmente sair ferido pelos estilhaços das denúncias de Delcídio do Amaral.

Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 06 de Maio de 2016 às 16:39
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Era líder do governo de Dilma Rousseff no Senado até ser detido, em 25 de Novembro de 2015, sob a acusação de actuar para travar as investigações da operação Lava Jato, o que configuraria crime flagrante inafiançável – a única previsão legal para que um parlamentar possa ser detido em pleno exercício do mandato. E assim foi com Delcídio do Amaral.

 

Uma gravação mostrava o então senador do Partido dos Trabalhadores (PT) a oferecer ajuda a Nestor Cerveró, ex-director na Petrobras, detido pelo juiz Sérgio Moro no âmbito da operação Lava Jato. Delcídio oferecia dinheiro, ajuda para este fugir do país e prometia tentar articular a sua libertação junto de juízes do Supremo Tribunal Federal (STF). O senador ficou quase três meses preso – passou as festas de fim de ano na cadeia. Diante da força das acusações e de um sentimento de abandono por parte do seu partido - disse-o, depois, em entrevista à revista Veja - desfiliou-se e decidiu colaborar com a justiça em troca de uma pena menor. 

A homologação da sua "delação premiada" ocorreu em Março, há 50 dias. É com base nela, que o Ministério Público entregou agora uma denúncia contra Lula da Silva e pediu ao STF que autorize a investigação formal a 29 políticos com "foro privilegiado".

 

Dilma Rousseff, que passou ilesa ao longo de dois anos de investigações da Lava Jato, é citada em diversas ocasiões e está agora a um passo de ser formalmente investigada, embora por obstrução à justiça, devido à polémica nomeação (ainda suspensa) de Lula para ministro. Já o ex-presidente ficou a um passo de ser convertido em réu. Aécio Neves, líder do maior partido da oposição, também não escapa. Assim como Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, e Renan Calheiros, líder do Senado, ambos membros do PMDB de Michel Temer, o actual vice-presidente que deverá, possivelmente no final da próxima semana, assumir o lugar de Dilma por conta do processo de "impeachment". Também ele arrisca sair ferido pelos estilhaços da "bomba Delcídio". Todos negam a veracidade do que é relatado pelo senador que está prestes a perder o seu mandato. O El País Brasil fez um resumo das acusações feitas pelo homem que ameaça arrasar a cúpula actualmente no poder no Brasil. Leia aqui:

 

Dilma Rousseff

A presidente, que enfrenta neste momento um processo de "impeachment" no Senado devido à suspeita de ter fraudado as contas do país correndo o risco de ser condenada por "crimes de responsabilidade", é acusada por Delcídio de ter cometido diversos crimes em diversas qualidades. O mais recente terá sido no sentido de influenciar a libertação de empresários presos pela Lava Jato. Para isso, a presidente ter-se-ia reunido em Portugal com os ministros do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski e Teori Zavaski (relator da Lava Jato no STF). O senador afirma que se tratou "de uma primeira investida frustrada", uma vez que a resposta dos ministros foi "árida" e "sem feedback".

Posteriormente o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo (que agora defende Dilma no processo de "impeachment" na qualidade da Advogado- Geral da União), teria dito a Delcídio que a nova "estratégia seria buscar a nomeação de Marcelo Navarro Dantas" para o Superior Tribunal de Justiça. O objectivo da manobra seria "esvaziar a Operação Lava Jato" nessa instância. Posteriormente, o magistrado "cumpriu o "compromisso" e deu um voto favorável à liberação de réus da Operação Lava Jato, enquanto o restante da turma votou contrariamente". Questionado pelos procuradores qual o interesse do Planalto em "esvaziar" a operação, Delcídio afirma que "existiam figuras na operação de importância para o Governo, o que trazia uma série de receios, de carácter político, económico para as empresas, de protecção aos doadores de campanha, sobre os partidos políticos, de revelação de informações, dentre outros interesses".


O delator também afirma que a presidente em 2008 (à época ministra chefe da Casa Civil do presidente Lula) teria agido para concretizar a indicação de Nestor Cerveró para a directoria financeira da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras. Cerveró seria o "cérebro" da contabilidade paralela criada dentro da estatal.


Outro ponto em que Dilma é citada pelo senador refere-se à aquisição em 2006 da refinaria de Pasadena, no Texas, Estados Unidos, numa altura em que presidia à Petrobras, O negócio, que deu prejuízos milionários à petrolífera brasileira, teria sido fechado por Cerveró com o conhecimento de Dilma. Delcídio diz que ao conhecer a operação de compra da refinaria entendeu "que haviam sido cometidos ilícitos".


As licitações e obras envolvendo a construção da hidroelétrica de Belo Monte também aparecem na delação de Delcídio. O senador aponta que "a propina [luvas] de Belo Monte serviu como contribuição decisiva para as campanhas eleitorais de 2010 e 2014" tendo os valores pagos para o PT e PMDB chegado a 45 milhões de reais (cerca de 11 milhões de euros). As "propinas" pagas ao PMDB teriam ido para o grupo de José Sarney, "do qual fazem parte Edison Lobão, Renan Calheiros, Romero Jucá, Valdir Raupp e Jader Barbalho". Renan, que é presidente do Senado, o ex-ministro das Minas e Energia e hoje senador Edison Lobão, além dos senadores Raupp e Jucá, são já alvos de inquéritos na Lava Jato.


Já o dinheiro pago ao PT teria "abastecido" as duas campanhas de Dilma Rousseff e "outras" do partido. Os principais articuladores do esquema por parte do Governo seriam os ex-ministros Antonio Palocci (Finanças), Erenice Guerra e Silas Rondeau, a quem Delcídio se refere como sendo um "triunvirato" em Belo Monte. Da parte das empreiteiras, o agente negociador do consórcio encarregado das obras foi o empreiteiro Flavio Barra, da Andrade Gutierrez.


Lula da Silva
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem o nome citado 186 vezes na delação de Delcídio. O senador afirma, por exemplo, que Lula "pediu expressamente" que ele "ajudasse" o empresário agrícola José Carlos Bumlai - amigo pessoal do ex-presidente -, a convencer o ex-director da Petrobras Nestor Cerveró, preso na Lava Jato, a não incluir o nome do empresário na sua delação. Delcídio afirma ter entregue 250 mil reais para comprar o silêncio do ex-director, dinheiro este que "partia da família de Bumlai".


Também afirma que Lula "teve participação em todas as decisões relativas às directorias das grandes empresas estatais, especialmente a Petrobras". De acordo com o senador, o ex-presidente articulou a nomeação de Nestor Cerveró para a directoria internacional da estatal e, anos antes, agiu para comprar o silêncio do publicitário Marcos Valério durante o escândalo do Mensalão, do qual Lula saiu ileso, apesar de muitos dos seus mais próximos terem sido presos, caso de José Dirceu, seu ministro da Casa Civil.


Aloizio Mercadante

O ministro da Educação foi directamente atingido pela delação de Delcídio do Amaral. Ex-ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante é apontado como um agente do Governo Dilma Rousseff contra o andamento das investigações da Operação Lava Jato.


Aécio Neves

Delcídio disse ter conhecimento, através de uma conversa tida com Lula da Silva, da existência em 2002 de um esquema de corrupção na hidroeléctrica de Furnas, subsidária da Petrobras, do qual Aécio seria beneficiário. Delcídio acusa ainda o líder do PSDB, que perdeu as eleições presidenciais para Dilma em 2014, de agir para "maquilhar" dados do Banco Rural obtidos pela Comissão parlamentar de inquérito em 2005. O então governador de Minas estaria incomodado com informações que atingiriam pessoas próximas de si. 

Eduardo Cunha 

O deputado federal do PMDB acaba de ser afastado da presidência da Câmara por ser já réu da Lava Jato no Supremo. É acusado por Delcídio de ter actuado para alterar a legislação do sector energético em benefício da Furnas, subsidária da Petrobras.

 

Renan Calheiros 

Delcídio citou o presidente do Senado (PMDB) como beneficiário de um esquema de "propinas", a par de outros senadores, como Romero Jucá, Valdir Raupp e Jader Barbalho. Esse "núcleo duro" do PMDB no Senado seria destinatário da quota do partido nas "propinas" pagas pelas empreiteiras por contratos firmados com a Petrobras e outras obras do Governo, como a hidroeléctrica de Belo Monte. "Com a decadência dos empreiteiros, as empresas de planos de saúde e laboratório se tornaram os principais alvos de propina para os políticos e executivos do Governo", descreve a delação.


Michel Temer
Delcídio insinua que há uma relação suspeita do vice-presidente Michel Temer com um ex-director da Petrobras, João Augusto Henriques, que desde Setembro está preso em Curitiba – sede da operação Lava Jato - por operar em nome do PMDB na Petrobras. Segundo Delcídio, Henriques teria também participado numa compra ilícita de etanol entre 1997 e 2001 apadrinhada por Michel Temer.

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